Irã no Banco do BRICS: vantagem estratégica para o Sul Global

por Maria Gabriela Portugal
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BRICS

A possível entrada do Irã no Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como Banco do BRICS, abre uma nova frente de transformação na arquitetura financeira internacional. O anúncio foi feito pelo presidente do Banco Central iraniano, Abdolnaser Hemmati, às vésperas da reunião de ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do BRICS, na Índia. O NDB, porém, ainda não confirmou oficialmente a adesão.

Mais do que uma operação financeira, a aproximação representa o avanço de uma instituição criada justamente para ampliar as alternativas de financiamento dos países emergentes. Fundado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o NDB tem como missão financiar infraestrutura e desenvolvimento sustentável no BRICS e em outras economias emergentes.

Para o Brasil, a entrada iraniana pode produzir vantagens que vão muito além da relação bilateral com Teerã. O país passa a ter um novo canal de aproximação com uma das economias mais importantes do Oriente Médio e, ao mesmo tempo, fortalece a capacidade do BRICS de construir uma rede econômica mais ampla entre América Latina, Ásia, África e Oriente Médio.

Um novo corredor econômico

O Irã ocupa uma posição geográfica estratégica entre o Golfo Pérsico, a Ásia Central, o Cáucaso e o sul da Ásia. Sua participação no NDB pode ajudar a transformar essa localização em uma vantagem para o comércio entre diferentes regiões do Sul Global.

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Para o Brasil, isso significa potencialmente ampliar os caminhos de entrada em mercados do Oriente Médio e da Ásia. O país já possui relações comerciais relevantes com a região, mas uma maior integração financeira dentro do universo do BRICS poderia criar novas possibilidades para investimentos, infraestrutura, energia, alimentos e tecnologia.

O benefício mais importante, entretanto, talvez esteja na construção de uma rede. Quanto maior o número de países conectados às instituições financeiras do BRICS, maior a possibilidade de criar mecanismos de financiamento e comércio que não dependam exclusivamente dos centros financeiros tradicionais.

Menor dependência do dólar

A adesão do Irã também ocorre em um momento em que os países do BRICS discutem formas de ampliar o uso de moedas nacionais nas transações internacionais e reduzir custos e vulnerabilidades associados à dependência excessiva do dólar. A integração de sistemas de pagamentos e o uso de moedas digitais de bancos centrais também estão entre os temas discutidos pelo grupo.

Para o Brasil, isso não significa abandonar o dólar. Significa ter mais opções.

Essa diferença é fundamental. Uma economia internacional mais diversificada permite que países emergentes realizem parte crescente de suas operações comerciais e financeiras por meio de diferentes moedas e instrumentos, reduzindo a exposição a decisões tomadas exclusivamente fora de suas fronteiras.

O Brasil, como uma das economias fundadoras do NDB, tem interesse direto nessa diversificação. Quanto mais eficiente for a capacidade do banco de captar recursos em diferentes mercados e moedas, maior poderá ser sua capacidade de financiar projetos no próprio Sul Global. O NDB já trabalha com uma estratégia de diversificação de moedas, instrumentos e mercados para captar recursos.

Oportunidade para o Brasil

A presença do Irã pode ser particularmente interessante para o Brasil em três áreas: energia, infraestrutura e comércio.

O Irã possui enormes reservas de petróleo e gás e está inserido em uma das regiões energéticas mais importantes do planeta. O Brasil, por sua vez, consolidou uma posição estratégica no mercado global de energia graças ao pré-sal e ao crescimento de sua capacidade de produção.

Uma aproximação financeira maior entre os dois países pode abrir espaço para discussões sobre investimentos, tecnologia, logística e cooperação energética. Não significa que o Brasil deva substituir seus parceiros tradicionais, mas que pode ampliar seu leque de relações.

Na infraestrutura, o potencial é igualmente relevante. O NDB foi criado para financiar projetos de desenvolvimento e infraestrutura, justamente uma das áreas em que os países do Sul Global possuem enorme demanda reprimida.

O Brasil pode se beneficiar desse processo ao participar da construção de uma rede de investimentos que conecte seus próprios projetos a cadeias econômicas internacionais mais diversificadas.

Um banco cada vez mais global

A entrada do Irã também reforça uma transformação que já vinha ocorrendo dentro do NDB.

A instituição deixou de ser exclusivamente o banco dos cinco fundadores. Nos últimos anos, incorporou novos países e ampliou sua capacidade de atuação no mundo emergente. Em 2026, o conselho do banco voltou a discutir a expansão de sua base de membros e a elaboração de sua estratégia para 2027–2031.

Essa expansão muda a natureza do NDB.

Quanto mais países participarem da instituição, maior será seu potencial de funcionar como uma plataforma financeira do Sul Global. O objetivo não precisa ser substituir o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional, mas oferecer uma alternativa complementar, com maior participação dos próprios países emergentes na definição de suas prioridades.

Essa é uma vantagem estratégica para o Brasil porque o país não é apenas membro do banco. O NDB foi criado por iniciativa brasileira junto com Rússia, Índia, China e África do Sul, e hoje representa uma das principais instituições multilaterais nascidas fora do eixo financeiro tradicional.

O efeito geopolítico

A entrada do Irã também possui uma dimensão geopolítica inevitável.

Teerã está submetido a amplas sanções internacionais e procura ampliar seus canais financeiros e comerciais. Por isso, sua eventual entrada no NDB representa para o país uma possibilidade de integração econômica com instituições multilaterais nas quais países emergentes possuem papel central.

Para o Brasil, entretanto, a questão deve ser observada por uma perspectiva própria.

A aproximação com o Irã não precisa significar alinhamento automático com todas as posições políticas de Teerã. A vantagem para Brasília está justamente em preservar uma política externa capaz de conversar com diferentes blocos e defender seus interesses em múltiplos espaços.

Essa autonomia é especialmente importante em um mundo marcado pela crescente rivalidade entre Estados Unidos e China, pela guerra na Ucrânia, pelas tensões no Oriente Médio e pela fragmentação das cadeias globais de comércio.

O Brasil ganha quando possui mais portas abertas, não quando depende de uma única porta.

A força do Sul Global

Para o Sul Global, o impacto potencial é ainda maior.

A principal questão não é simplesmente a entrada de um país no banco. É a possibilidade de consolidar uma rede de instituições, moedas, sistemas de pagamento e mecanismos de financiamento capazes de aproximar economias que durante décadas permaneceram dependentes de estruturas financeiras concentradas no Norte Global.

O NDB nasceu justamente com essa proposta: mobilizar recursos para infraestrutura e desenvolvimento sustentável nos países do BRICS e em outras economias emergentes.

Com a expansão do banco, essa função pode ganhar escala.

Brasil, China, Índia, Rússia, África do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Bangladesh, Uruguai e outros membros formam uma rede cada vez mais diversificada. A possível entrada do Irã acrescentaria uma peça estratégica no Oriente Médio.

O resultado pode ser uma espécie de corredor financeiro entre regiões que possuem recursos, mercados consumidores e necessidades de infraestrutura, mas que historicamente tiveram acesso limitado às grandes fontes internacionais de financiamento.

Brasil pode ganhar influência

Existe ainda uma vantagem política para Brasília.

Quanto mais relevante se torna o NDB, maior tende a ser o peso internacional do Brasil dentro da instituição. O país não precisa escolher entre sua relação histórica com as economias ocidentais e sua aproximação com o Sul Global.

Pode fazer as duas coisas.

A estratégia brasileira pode ser a de transformar sua posição dentro do BRICS em instrumento de diversificação econômica, ampliando mercados para empresas nacionais, atraindo investimentos e defendendo reformas na governança internacional.

O próprio Brasil tem defendido uma maior representatividade das instituições multilaterais e uma arquitetura financeira internacional mais adequada à realidade contemporânea. Em 2025, durante os dez anos do NDB, autoridades brasileiras destacaram justamente a expansão do banco e seu papel no financiamento do desenvolvimento sustentável do Sul Global.

Uma oportunidade que exige pragmatismo

A entrada do Irã, entretanto, não deve ser tratada como uma solução automática para os problemas econômicos brasileiros.

O comércio com países submetidos a sanções envolve riscos jurídicos, financeiros e diplomáticos. O Brasil precisará preservar a segurança de suas instituições financeiras e de suas empresas, além de respeitar suas obrigações internacionais.

Mas isso não elimina o potencial estratégico da mudança.

O ponto central é que o Brasil pode se beneficiar de um sistema internacional no qual existam mais opções de financiamento, comércio e investimento. Quanto maior a diversidade de parceiros, menor a vulnerabilidade de uma economia diante de crises ou decisões tomadas por uma única potência.

O mundo depois da concentração financeira

A possível entrada do Irã no Banco do BRICS é, portanto, parte de uma transformação maior.

O mundo está passando de uma arquitetura econômica relativamente concentrada para uma estrutura mais fragmentada e multipolar. Nesse novo cenário, países emergentes não querem apenas participar do sistema existente. Querem também possuir instituições capazes de financiar seu próprio desenvolvimento.

É nesse ponto que está a maior vantagem para o Brasil.

O NDB pode se transformar em uma das ferramentas mais importantes da política externa econômica brasileira no século XXI. E quanto mais ampla for sua rede de membros, maior será a capacidade do banco de financiar projetos, aproximar mercados e criar alternativas dentro do sistema financeiro internacional.

A entrada do Irã, se confirmada, não significará o fim da influência do dólar nem a substituição das instituições financeiras ocidentais. Significará algo mais simples — e talvez mais importante: o Sul Global estará construindo mais uma alternativa para decidir como financiar seu próprio futuro.

Para o Brasil, que ajudou a criar essa instituição, o desafio agora é transformar essa expansão em influência, comércio, investimentos e desenvolvimento. O Banco do BRICS pode deixar de ser apenas uma alternativa financeira e se tornar uma das principais plataformas da nova ordem econômica multipolar.

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