Queda do Ibovespa: perdas e riscos em novembro

por Marco Antonio Portugal
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A queda do Ibovespa voltou a castigar investidores nesta terça-feira, 3 de novembro, primeiro pregão do mês, prolongando uma sequência de perdas que já ultrapassa a dimensão de uma correção habitual. Às 15h45, o principal índice de ações da B3 recuava 1,44%, para cerca de 165,5 mil pontos. O resultado era parcial: desde hoje, a negociação regular vai até as 17h55, antes do leilão de fechamento.

A sessão sucede uma semana de queda de 18,12%, a pior desde março de 2020. A turbulência começou no primeiro pregão depois do segundo turno presidencial, realizado em 25 de outubro, e atingiu simultaneamente ações, câmbio e juros futuros. Não se trata apenas de investidores impacientes esperando a próxima alta: os preços dos ativos já sofreram uma mudança profunda.

O sentimento mais compatível com os dados é de preocupação séria, não de certeza de colapso. Há prejuízos patrimoniais efetivos para quem vendeu ou precisou liquidar posições, perdas de valor de mercado para quem permaneceu investido e riscos econômicos que ainda não desapareceram. Mas a intensidade do recuo, por si só, não permite determinar quando virá a recuperação — nem afirmar que ela esteja próxima.

Da eleição ao sexto pregão sob pressão

Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito em 25 de outubro com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. O resultado contrariou as posições de parte do mercado, que havia apostado na alternância de governo e em uma mudança mais rápida da condução fiscal.

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Na sexta-feira anterior à votação, 23 de outubro, o Ibovespa terminou em aproximadamente 205.083 pontos. Na segunda-feira, 26, desabou 13,88% e encerrou aos 176.608 pontos. A B3 acionou o circuit breaker, interrompendo a negociação por 30 minutos depois que o índice alcançou o limite de queda previsto em suas regras. Foi a primeira ativação do mecanismo desde a crise da pandemia.

A correção não parou ali. Nos pregões de 27, 28, 29 e 30 de outubro, o índice caiu, respectivamente, 0,51%, 2,68%, 1,06% e 0,75%. Fechou o mês aos 167.921,80 pontos, com perda acumulada de 18,12% desde o fechamento de 23 de outubro. A queda mensal de outubro foi de 9,88%: percentual menor porque, antes do segundo turno, havia ocorrido forte valorização das ações.

A bolsa não abriu em 2 de novembro, feriado de Finados. No retorno desta terça-feira, as cotações voltaram a cair. Considerando os cerca de 165,5 mil pontos observados às 15h45, a perda em relação à véspera do segundo turno se aproximava de 19,3%. Essa comparação é intradiária e poderá mudar no fechamento.

Por que a B3 continua caindo?

A eleição foi o gatilho da reprecificação, mas não explica sozinha cada oscilação. Investidores estão recalculando quanto vale manter dinheiro aplicado no Brasil diante de juros altos, dúvidas sobre a estabilização da dívida pública e expectativas de inflação mais resistentes. Quando aumenta o prêmio exigido para assumir risco, a cotação de uma ação pode cair mesmo que a empresa não tenha divulgado uma notícia negativa naquele dia.

A dimensão fiscal dá substância a esse movimento. Segundo o Banco Central, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto em setembro, equivalente a R$ 11,1 trilhões. Essa proporção não caracteriza, isoladamente, insolvência; mostra, porém, a importância de receitas, despesas, crescimento e custo dos juros na capacidade de estabilizar o endividamento.

O Boletim Focus divulgado em 3 de novembro reforçou a cautela. A mediana das projeções para o IPCA de 2026 passou de 5,19% para 5,22%; a expectativa de crescimento do PIB caiu de 1,80% para 1,76%. A previsão para a Selic no fim do ano subiu de 13,25% para 13,50%, enquanto a de 2027 avançou para 12,50%. São estimativas de instituições participantes da pesquisa, não decisões já tomadas pelo Banco Central.

Na terça-feira, também pesaram a queda dos preços internacionais do petróleo, que pressionou a Petrobras, e fatores externos, entre eles as eleições legislativas dos Estados Unidos. A reunião do Comitê de Política Monetária, iniciada em 3 de novembro, acrescentou cautela diante da decisão sobre os juros prevista para o dia seguinte. A atribuição de toda a queda a uma única figura política esconderia esses fatores simultâneos.

Quando a turbulência vira crise de verdade?

A palavra crise descreve situações diferentes. Para a renda variável, uma queda de quase um quinto do índice em pouco mais de uma semana é uma crise severa de preços e confiança. O acionamento do circuit breaker confirma a excepcionalidade do movimento. Não é necessário esperar falências ou suspensão permanente de operações para reconhecer a gravidade das perdas.

Também houve tensão no mercado de dívida pública. O Tesouro Nacional cancelou leilões de determinados títulos e promoveu recompras, inclusive de papéis indexados à inflação, para melhorar o funcionamento das negociações em meio à volatilidade. A necessidade de intervenção operacional indica estresse de liquidez e de formação de preços, mas não equivale, por si, a calote do governo ou quebra do sistema financeiro.

Essas distinções são decisivas. Queda de bolsa não é sinônimo de recessão, e desvalorização de títulos não significa automaticamente que seus emissores tenham deixado de pagar. A preocupação cresce quando a turbulência dos mercados ameaça encarecer persistentemente o crédito, travar investimentos e atingir o consumo. Parte desses canais já está sob pressão, mas o efeito final sobre a economia dependerá da duração e da intensidade do choque.

Há ainda uma divergência legítima sobre a resposta econômica. O Ministério da Fazenda defende um ajuste fiscal gradual e afirma que o rumo das discussões governamentais não justifica uma reação de medo. Investidores, por outro lado, exigem sinais mais objetivos sobre a trajetória das despesas e da dívida. Essa diferença não se resolve por declarações isoladas: dependerá de medidas concretas e de sua credibilidade.

O que já se perdeu — e o que ainda pode ser recuperado

Uma carteira hipotética de R$ 100 mil que acompanhasse exatamente o Ibovespa no fechamento de 23 de outubro valeria cerca de R$ 81.880 em 30 de outubro, desconsiderando custos e proventos. A perda de 18,12% exigiria uma valorização posterior de aproximadamente 22,1% para voltar ao valor inicial. A matemática explica por que sequências intensas de baixa são tão difíceis de reparar.

Para quem vendeu as ações abaixo do preço de compra, o prejuízo da operação foi concretizado. Quem continua com os papéis enfrenta redução do patrimônio marcado a mercado e pode recuperar parte dele se os preços subirem; também pode perder mais se as condições piorarem. Nenhuma dessas situações permite concluir que todas as empresas se desvalorizaram na mesma proporção do índice.

Títulos prefixados e atrelados à inflação também podem exibir perdas relevantes quando os juros de mercado sobem, sobretudo se tiverem vencimentos longos e precisarem ser vendidos antecipadamente. Sua dinâmica difere daquela das ações. Por isso, o problema de um investidor não se resume a perguntar se a bolsa vai reagir amanhã, mas a verificar se suas aplicações são adequadas aos prazos em que o dinheiro será necessário.

A resiliência frequentemente evocada em períodos de baixa tem limites financeiros concretos. Reservas para emergências, despesas próximas e compromissos já assumidos não deveriam depender de uma recuperação imprevisível da renda variável. Da mesma forma, vender tudo por impulso após uma queda intensa pode cristalizar perdas sem reduzir adequadamente o risco futuro. O diagnóstico exige olhar para liquidez, diversificação, concentração e horizonte de investimento.

Há sinais de que as quedas estejam perto do fim?

Ainda não há evidência suficiente para identificar um fundo de mercado. Preços mais baixos podem tornar algumas empresas atraentes em relação a seus lucros esperados, mas descontos também podem refletir juros mais elevados, resultados futuros menores e riscos adicionais. Um pregão positivo após uma sequência de quedas não seria, sozinho, prova de reversão sustentada.

Os sinais mais relevantes são observáveis: estabilização do câmbio e dos juros futuros, redução da pressão sobre os títulos públicos, melhora nas expectativas de inflação e crescimento, além de medidas fiscais capazes de tornar a trajetória da dívida mais previsível. Resultados trimestrais e orientações das empresas também permitirão avaliar se as quedas nas ações exageraram a deterioração de seus negócios ou anteciparam problemas reais.

O caminho mais favorável inclui comunicação econômica consistente, menor volatilidade das taxas e recuperação gradual da disposição dos investidores para assumir risco. No caminho adverso, dúvidas fiscais persistentes, inflação resistente ou um choque internacional poderiam prolongar a desvalorização e aumentar o custo de financiamento no país. Nenhum desses cenários tem prazo garantido.

No curtíssimo prazo, a decisão do Copom em 4 de novembro, a reação aos próximos anúncios econômicos e a divulgação de balanços corporativos merecem atenção. Mais importante do que acertar o dia da virada será perceber se a melhora se espalha por diferentes setores e ativos, em vez de depender de um repique concentrado.

O que o investidor deve considerar agora

A pergunta central não é se é preciso sentir medo, mas quanto risco cada patrimônio pode suportar sem comprometer objetivos essenciais. Quem precisa utilizar o dinheiro nos próximos meses enfrenta uma situação diferente daquela de quem investe com prazo de muitos anos e possui reservas líquidas. A mesma queda percentual pode representar inconveniência temporária para um investidor e prejuízo difícil de reparar para outro.

Reavaliar a concentração em ações brasileiras, a exposição a empresas endividadas e a necessidade de liquidez é mais útil do que transformar a cotação diária em sentença definitiva. Também importa distinguir empresas cujo potencial de lucro foi afetado por juros e crescimento mais fracos daquelas que apenas sofreram uma venda generalizada. Essa análise, quando necessário, deve considerar orientação profissional individualizada, e não uma recomendação genérica de comprar ou vender.

A bolsa pode voltar a subir antes de a economia apresentar melhora perceptível, porque os preços antecipam expectativas. Pode, igualmente, continuar caindo após uma desvalorização já extraordinária. O que está confirmado neste início de novembro é uma ruptura importante de confiança e de preços, acompanhada de perdas relevantes e tensão no mercado de títulos. O que permanece em aberto é se as decisões fiscais e monetárias conseguirão restabelecer previsibilidade suficiente para sustentar a recuperação.

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