Gagueira: Muito Além da Fala

por Maria Gabriela Portugal
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Quando a gagueira deixa de ser apenas uma dificuldade de fala

A gagueira costuma começar na infância, quando a criança ainda está aprendendo a se comunicar. Ela repete sílabas, interrompe palavras, hesita. É uma dificuldade de fluência da fala, relacionada a fatores genéticos e neurológicos, e não a um problema mental ou à falta de inteligência. O que pode transformar essa dificuldade em um sofrimento que atravessa a vida é, muitas vezes, a maneira como o mundo reage a ela.

Para uma criança, ouvir constantemente “fala devagar”, “respira”, “pensa antes de falar” ou ter suas frases completadas pode parecer uma correção necessária. Mas, aos poucos, essas intervenções podem transmitir outra mensagem: a de que sua maneira de falar está errada. Na escola, isso pode se tornar ainda mais doloroso. Ler em voz alta, responder a uma pergunta ou apresentar um trabalho deixa de ser uma atividade comum e passa a ser uma situação de exposição. O medo da risada dos colegas, da impaciência do professor ou de não conseguir terminar uma frase pode fazer com que a criança prefira não falar.

É nesse momento que a gagueira pode ganhar uma dimensão muito maior. A criança começa a evitar palavras, situações e pessoas. Pode trocar uma palavra que sabe por outra mais fácil, deixar de levantar a mão, fugir de apresentações ou simplesmente permanecer em silêncio. O problema já não é apenas gaguejar, mas ter medo de gaguejar.

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A família e a escola têm uma enorme influência sobre a forma como a criança aprende a conviver com a gagueira. Uma família que escuta sem pressa, não completa frases e não transforma cada dificuldade em uma correção ajuda a criança a preservar sua confiança. Uma escola que combate o bullying, respeita o tempo de fala e não confunde fluência com inteligência oferece algo igualmente importante: o direito de participar.

Quando isso não acontece, as marcas podem permanecer. O que começou como uma dificuldade na infância pode se transformar, anos depois, em insegurança para falar em público, ansiedade, vergonha, isolamento e até escolhas profissionais ou sociais feitas para evitar situações de exposição. Pesquisas associam a gagueira infantil a experiências de bullying, ansiedade e baixa autoestima, mostrando que suas consequências podem ultrapassar muito a infância.

Por isso, talvez a pergunta não deva ser apenas como fazer uma criança parar de gaguejar. Precisamos perguntar que tipo de ambiente estamos oferecendo a ela enquanto aprende a falar.

Porque uma coisa é conviver com uma fala entrecortada. Outra, muito mais dolorosa, é crescer acreditando que é melhor permanecer em silêncio.

A gagueira pode fazer parte da fala de uma pessoa. Não deveria fazer parte da definição que ela constrói sobre si mesma.

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