Poços de Caldas vale a pena? Concessão encarece o turismo

por Marco Antonio Portugal
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POÇOS DE CALDAS

Poços de Caldas continua entregando boa parte do que construiu sua fama: arquitetura histórica, parques arborizados, águas sulfurosas, clima de montanha, cachoeiras e um centro que ainda permite caminhar entre alguns dos principais cartões-postais da cidade. O que mudou de forma mais perceptível nos últimos anos foi a maneira de acessar parte desse patrimônio. Vários dos pontos turísticos tradicionais passaram à gestão privada, receberam investimentos e ganharam estrutura mais profissional — mas também bilheterias, estacionamentos pagos e preços que, acumulados, podem alterar significativamente o custo de uma viagem.

É importante fazer uma distinção: juridicamente, os principais atrativos de Poços de Caldas não foram vendidos à iniciativa privada. O município continua proprietário dos bens. O que ocorreu foi uma concessão de uso, pela qual uma empresa passou a administrar, manter, explorar economicamente e investir nos locais por um prazo determinado. Para quem visita a cidade, porém, a sensação de “privatização” é compreensível: espaços historicamente associados ao passeio público agora integram um circuito comercial, com ingressos, cafeterias, lojas, atividades extras e estacionamento.

A questão, portanto, não é simplesmente se as concessões foram boas ou ruins. A transformação é mais contraditória. Há atrações visivelmente recuperadas, banheiros melhores, limpeza, segurança, acessibilidade e serviços que antes eram precários ou inexistentes. Ao mesmo tempo, há uma pergunta que aparece repetidamente nas avaliações dos visitantes: a experiência oferecida justifica o preço?

Como Poços de Caldas chegou ao atual modelo de concessões

A mudança não aconteceu de uma hora para outra. O processo começou a ser estruturado em 2017 e levou cerca de cinco anos até a assinatura do contrato. A Prefeitura buscou apoio do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, o BDMG, para modelar economicamente a concessão. Em janeiro de 2020, o projeto entrou em consulta pública e passou por uma sequência de audiências, revisões e mudanças — algumas delas provocadas pelas incertezas econômicas da pandemia.

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As discussões públicas mostram que a controvérsia sobre o modelo não nasceu depois da cobrança dos ingressos. Já na audiência de fevereiro de 2020, moradores levantaram dúvidas sobre a situação dos comerciantes instalados nos atrativos, o acesso gratuito da população local, o destino de recursos para o Fundo Municipal de Turismo e o trabalho dos guias. Outras audiências ocorreram em 2020 e 2021.

O argumento da Prefeitura era que a iniciativa privada teria capacidade de fazer investimentos que o poder público não vinha realizando, além de profissionalizar a operação e ampliar a permanência do turista na cidade. O modelo acabou preservando a propriedade municipal dos imóveis e estabelecendo contrapartidas financeiras. Também foi prevista gratuidade aos moradores de Poços nos atrativos já existentes e desconto no teleférico, embora novas atividades comerciais pudessem ser cobradas.

Em 2022, a licitação recebeu apenas uma proposta. A empresa Zoo das Aves foi habilitada e venceu a concorrência. Em dezembro daquele ano, a CITUR — Circuito Integrado de Turismo de Poços de Caldas — assinou o contrato por 35 anos para administrar o Complexo do Cristo Redentor, incluindo teleférico e rampa de voo livre, a Fonte dos Amores, o Recanto Japonês e o Véu das Noivas. A previsão divulgada pela Prefeitura passou a mencionar investimentos superiores a R$ 45 milhões. A operação começou em março de 2023.

A Cascata das Antas entrou depois nesse desenho. Ela não fazia parte do primeiro contrato porque a área pertence à DME Energética. Em 2024, uma chamada específica teve como vencedora a CADAP, empresa do mesmo grupo da CITUR, com previsão de exploração por 120 meses. Na prática, isso ampliou ainda mais a integração comercial dos principais passeios naturais da cidade.

As melhorias existem — e são difíceis de ignorar

O Recanto Japonês talvez seja o caso mais emblemático. O espaço havia passado anos em situação problemática e ficou fechado por longo período depois de um incêndio na antiga Casa de Chá. Após obras de revitalização, voltou a receber visitantes em junho de 2025, com jardins recuperados, caminhos, estrutura de atendimento e novos serviços.

O teleférico também voltou a ganhar protagonismo. O equipamento, cuja história em Poços remonta a 1974, havia sido repassado à Prefeitura no início dos anos 2000. Após a concessão, foi revitalizado e reaberto em 2023. Em 2026, passou por nova manutenção e continua sendo uma das experiências mais singulares da cidade, ligando a região central ao alto da Serra de São Domingos.

Há ainda uma mudança de conceito. A concessionária não administra apenas paisagens. O modelo busca transformar os pontos turísticos em locais de permanência e consumo, com cafés, lojas, gastronomia e atividades de aventura. No Parque do Cristo, por exemplo, a vista panorâmica e o monumento passaram a conviver com novas experiências comerciais. Isso aproxima Poços do modelo contemporâneo de parques turísticos — e a afasta daquele passeio mais espontâneo, em que boa parte dos cartões-postais podia ser percorrida praticamente sem calcular o custo de cada parada.

É justamente aí que surge a principal tensão da nova Poços de Caldas.

Quanto custa conhecer os principais pontos turísticos

Os preços consultados em setembro de 2026 ajudam a entender a percepção de encarecimento. Segundo a própria CITUR, o teleférico custa R$ 78 na tarifa inteira. O Zoo das Aves, R$ 64. O Recanto Japonês, R$ 40; a Fonte dos Amores e a Cascata das Antas, R$ 30 cada; e o Véu das Noivas aparece por R$ 15 em valor promocional. A empresa apresenta ainda R$ 75 em estacionamentos na comparação do circuito. Comprados separadamente, ingressos e estacionamentos chegam, segundo a página oficial, a R$ 332. Uma família com três integrantes teria um custo de quase R$ 1.000.

A resposta comercial da concessionária ao próprio custo do circuito é o Passaporte Poços. Por R$ 149, ele permite utilizar as seis atrações em até três dias e inclui os estacionamentos de cinco dos parques. Para quem realmente pretende percorrer todo o circuito, a diferença é grande e o passe melhora substancialmente a relação custo-benefício.

O problema aparece para quem não quer “comprar o pacote Poços de Caldas”, mas conhecer atrações isoladamente. R$ 40 por um jardim contemplativo ou R$ 78 por um passeio de teleférico podem ter pesos muito diferentes para um casal, uma família com filhos e um visitante beneficiário de meia-entrada.

As avaliações recentes do Recanto Japonês ilustram bem essa ambivalência. Há visitantes elogiando limpeza, organização, funcionários, infraestrutura e beleza depois da reforma. Ao mesmo tempo, comentários publicados em 2025 e 2026 repetem a crítica de que o percurso é relativamente curto diante do preço cobrado. Não se trata de pesquisa representativa e avaliações de internet precisam ser interpretadas com cautela, mas a recorrência do argumento é significativa: muitos reconhecem a melhoria e, na mesma avaliação, questionam o custo.

Essa percepção também apareceu em levantamento mais estruturado realizado em 2024 para a concessionária. Os visitantes demonstraram altos níveis de satisfação com diversos aspectos dos atrativos, enquanto o quesito relacionado ao preço ficou abaixo de itens como limpeza, conservação e atendimento. No Parque do Cristo, a satisfação com o preço ficou em 3,79 numa escala de cinco pontos; no teleférico, em 3,70; e na Fonte dos Amores, em 3,46. É um dado interessante justamente porque mostra que conservação e cobrança não são necessariamente percebidas da mesma forma pelo visitante. O levantamento, contudo, entrevistou usuários dos atrativos e não deve ser confundido com uma pesquisa representativa da opinião de todos os moradores ou turistas.

Nesta apuração, não foi localizada uma pesquisa recente e representativa da população de Poços de Caldas perguntando diretamente se os moradores aprovam ou rejeitam o modelo de concessões. O que existe é um mosaico: as preocupações registradas nas audiências públicas, a defesa enfática do modelo pela Prefeitura e pela concessionária, indicadores de satisfação dos usuários e críticas recorrentes ao preço nas plataformas de viagem.

Palace Hotel e águas sulfurosas contam outra história da cidade

Para compreender Poços de Caldas, porém, seria um erro reduzir a cidade ao circuito da CITUR. Sua identidade turística nasceu muito antes e está profundamente ligada às águas minerais e à arquitetura do centro.

O Palace Hotel, o Palace Casino e as Thermas Antônio Carlos formam o núcleo monumental dessa história. O conjunto hidrotermal e hoteleiro é tombado pelo Estado desde 1989. Na área, os primeiros poços de águas sulfurosas foram abertos ainda em 1826. As grandes edificações que hoje definem a paisagem central foram projetadas e erguidas principalmente entre o fim dos anos 1920 e o início da década de 1930, período em que Poços se consolidou como uma das principais estâncias termais brasileiras.

O Palace Hotel também funciona hoje mediante parceria com a iniciativa privada, mas em um arranjo separado da concessão municipal da CITUR. O imóvel está ligado à Codemge, empresa do Governo de Minas, e o contrato com o operador privado tem vigência informada até abril de 2034, com possibilidade de renovação. Um dos seus elementos mais interessantes é a piscina coberta de água sulfurosa, aquecida naturalmente — uma experiência muito mais relacionada à origem de Poços como estância termal do que aos novos parques comerciais.

As Thermas Antônio Carlos mostram, por outro lado, que não é correto afirmar que todo o turismo da cidade foi privatizado. O prédio pertence à Codemge e continua oferecendo banhos, massagens e serviços termais sob administração da estatal. O governo mineiro tentou concedê-lo à iniciativa privada por 30 anos, com previsão de cerca de R$ 11,5 milhões em investimentos, mas a licitação encerrada em novembro de 2025 não conseguiu uma proposta habilitada. A página da Codemge ainda registra a concessionária como “N/A”, enquanto o equipamento segue atendendo ao público.

Portanto, a Poços de Caldas de 2026 opera, na realidade, sob um modelo híbrido: atrações municipais concedidas à iniciativa privada, um hotel histórico estatal explorado por parceiro privado, uma estância termal ainda administrada pela Codemge, espaços públicos gratuitos e negócios turísticos inteiramente privados.

Afinal, Poços de Caldas ainda vale a visita?

Sim — mas a resposta mudou de natureza.

Poços de Caldas, com população estimada em 172 mil habitantes, continua sendo uma cidade agradável para caminhar, comer bem, observar sua arquitetura, explorar a Serra de São Domingos e conhecer uma parte importante da história do turismo termal brasileiro. O Parque José Affonso Junqueira, as praças centrais, fachadas históricas, fontes e a atmosfera ao redor do Palace Hotel continuam fazendo parte de uma experiência urbana que não depende de comprar seis ingressos.

Para quem pretende fazer todas as atrações concessionadas, entretanto, é necessário incluir esse gasto no orçamento desde o planejamento da viagem. Nesse perfil, comprar ingressos avulsos parece pouco racional diante da diferença para o Passaporte Poços. Para uma família, sobretudo, a soma das entradas pode transformar um destino tradicionalmente associado a passeios simples e acessíveis em uma viagem consideravelmente mais cara.

Já para quem seleciona dois ou três atrativos e combina o restante do tempo com o centro histórico, as águas termais, a gastronomia, os parques e outros espaços públicos, a cidade preserva uma relação mais equilibrada entre custo e experiência.

O processo de concessão resolveu parte de um problema real: vários cartões-postais precisavam de manutenção, investimento e gestão mais consistente. Seria difícil observar o Recanto Japonês recuperado ou a estrutura atual de alguns parques e defender que nada melhorou. Mas a cobrança introduziu outro problema igualmente legítimo: até que ponto a valorização de um patrimônio turístico público pode avançar sem criar uma barreira econômica para quem deseja conhecê-lo?

Essa é hoje a principal questão de Poços de Caldas. A cidade está mais estruturada em vários aspectos, porém também mais comercializada. Vale a viagem, especialmente para quem aprecia história, termalismo, paisagem e turismo de montanha. Só não convém mais chegar imaginando que será possível percorrer todos os cartões-postais tradicionais gastando pouco. A melhor experiência talvez esteja justamente em resistir à ideia de que é preciso “zerar” o circuito turístico — e escolher aquilo que realmente justifica o ingresso.

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