O ultimato não é novo. Trump vem esticando e renovando prazos desde março. Em 21 de março, ameaçou destruir usinas caso o Irã não reabrisse o Estreito de Ormuz em 48 horas. Dias depois, prorrogou o prazo até 6 de abril, alegando que as negociações iam “muito bem”. Na segunda-feira (6), voltou a dizer que o prazo desta terça é definitivo — e que a proposta iraniana era “significativa, mas não suficiente”.
As negociações chegaram ao limite. Nesta terça-feira (7), vence o prazo dado por Donald Trump ao Irã para fechar um acordo de paz — e os dois lados seguem firmes na retórica do confronto, sem sinalizar recuo concreto. Do outro lado, as Forças Armadas iranianas declararam que a guerra continuará até a “rendição e arrependimento permanente do inimigo”. Teerã nega publicamente que esteja negociando, enquanto Washington afirma o contrário. O impasse retórico é total.
O prazo que não para de mudar
A Operação Fúria Épica — nome dado pelos EUA à campanha militar contra o Irã — começou em 28 de fevereiro de 2026. Desde então, Trump estabeleceu pelo menos quatro prazos distintos, todos prorrogados. A Casa Branca mantinha o cronograma de quatro a seis semanas para encerrar a operação, mas o Pentágono chegou a admitir, em março, que não havia previsão definitiva.
Agora, com o prazo de 7 de abril vencendo às 21h pelo horário de Brasília, a pressão aumenta sobre Teerã. Um oficial sênior israelense disse que Israel aguarda apenas o sinal verde dos EUA para atacar instalações de energia iranianas. O Estreito de Ormuz permanece sob ameaça de bloqueio total — e é justamente por esse ponto que passa o maior risco econômico global.
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O calcanhar de Aquiles da energia mundial
O Estreito de Ormuz é uma faixa de água de cerca de 33 quilômetros de largura no ponto mais estreito, ladeada pelo Irã e por Omã. Por ali passa cerca de um quinto de toda a produção diária global de petróleo e gás natural liquefeito. Não existe rota alternativa viável para o volume que transita pelo local.
Se o estreito for bloqueado por mais de dois meses, os futuros de gás natural europeu podem mais do que dobrar em relação aos níveis pré-guerra, segundo o Goldman Sachs. Os preços do petróleo Brent já estão nos maiores patamares em 18 meses. A inflação ao consumidor nos EUA, que estava em 2,4% em janeiro, pode chegar a 3% até o fim do ano apenas pelo efeito da energia, segundo a mesma instituição.
Para a Europa, os danos potenciais são mais agudos. Os estoques de gás da região estão bem abaixo dos níveis dos últimos anos e precisarão ser reabastecidos antes do inverno, possivelmente a custos muito maiores. O economista-chefe do banco Berenberg, Holger Schmieding, estima que a inflação na União Europeia pode subir mais de um ponto percentual se o conflito se prolongar por meses.
A Ásia mais vulnerável que o Ocidente
Entre 80% e 90% do petróleo e gás natural que saem do Estreito de Ormuz têm como destino a Ásia. A China é o maior comprador individual. O conflito chegou num momento particularmente delicado para Pequim, que estabeleceu sua meta de crescimento econômico mais baixa em décadas — e ainda trava uma guerra comercial com os próprios EUA.
No curto prazo, a China tem reservas suficientes para absorver o choque por alguns meses e pode recorrer à Rússia como fornecedora alternativa. Mas a conta cresce com o tempo. Os economistas da Capital Economics estimam que a inflação deve subir pelo menos meio ponto percentual na maioria dos países asiáticos se os preços do petróleo Brent permanecerem nos níveis atuais.
A Índia já sente o peso. Mais de 400.000 toneladas métricas de arroz basmati estão paradas nos portos indianos ou em trânsito, pois a guerra interrompeu rotas marítimas no Oriente Médio. Cerca de 75% das exportações anuais de arroz basmati da Índia — algo em torno de 6 milhões de toneladas — têm como destino a região. Os preços de fertilizantes também dispararam: a ureia egípcia subiu 35% em uma semana, segundo o CRU Group.
O cálculo frio de Moscou
A posição da Rússia diante da crise iraniana é um exercício de pragmatismo estratégico. O país condena os ataques com veemência, mas evita ações concretas que a coloquem em rota de colisão direta com os EUA. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, expressou “profunda decepção” com a escalada, enquanto o Ministério das Relações Exteriores russo classificou os ataques como “agressão não provocada”.
O comunicado oficial de Moscou, divulgado no dia 6 de abril, pediu cessação imediata das hostilidades e endossou os esforços de mediação de Paquistão, Turquia e China. Mas analistas são céticos. Para a Rússia, o Irã “é importante demais para ser abandonado, mas não importante o suficiente para entrar em guerra por ele”, como avalia o Correio Braziliense. O desgaste das tropas russas na Ucrânia limita ainda mais qualquer ambição de intervenção direta.
Há um interesse econômico paralelo que Moscou não ignora. Um conflito prolongado que afaste o petróleo iraniano do mercado beneficia os preços do petróleo russo — justamente quando a economia de Putin precisa de receitas para sustentar a guerra na Ucrânia.
Três cenários para depois do prazo
Com o vencimento do ultimato nesta terça, três desfechos são possíveis — e cada um carrega implicações econômicas distintas:
Acordo de cessar-fogo: A proposta iraniana mais recente foi classificada por Trump como “significativa, mas insuficiente”. Se ambos avançarem, os mercados de energia devem recuar rapidamente, aliviando a pressão inflacionária global. O FMI, que previa crescimento de 3,3% para 2026 antes dos ataques, poderia manter parte dessa projeção.
Novo adiamento: Trump já prorrogou prazos quatro vezes. Um novo adiamento manteria a incerteza — e, com ela, os preços do petróleo elevados, prejudicando economias asiáticas e europeias sem uma resolução em vista.
Escalada com ataque à infraestrutura energética: Este é o cenário que mais preocupa analistas globais. Ataques às usinas e campos petrolíferos iranianos — ou um bloqueio permanente do Estreito de Ormuz — representariam um choque energético comparável ao de 2022. O FMI alerta para impactos “muito grandes” em inflação, crescimento e volatilidade financeira. Cadeias de suprimentos globais, já fragilizadas pelas tarifas americanas, seriam duramente afetadas — de microchips a alimentos básicos.
O mundo em suspenso
O secretário-geral da ONU, António Guterres, fez um apelo público pelo fim das hostilidades. A China, pressionada internacionalmente a usar sua influência sobre Teerã, recebeu o chanceler do Paquistão em Pequim na última semana, num sinal de que Islamabad tenta se posicionar como mediadora. Nenhum dos movimentos, por ora, foi suficiente para mudar a equação.
Às 21h desta terça, o mundo saberá se Trump acionará o próximo nível da escalada ou se, mais uma vez, o ultimato ganhará uma nova data.

