Tecnologia urbana: a conta que não fecha

por Marco Antonio Portugal
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Tecnologia urbana virou sinônimo de futuro em grandes cidades: câmeras inteligentes, centrais de monitoramento, projetos de requalificação com mobiliário novo e iluminação cênica, sensores e wi-fi público se espalham por editais e anúncios oficiais. Ao mesmo tempo, moradores seguem sem o básico, convivendo com lixo acumulado, praças degradadas e buracos em vias básicas, numa equação na qual a conta da zeladoria urbana não fecha.

Um laboratório de tecnologia urbana no Largo da Batata

O Largo da Batata, em Pinheiros, bairro de São Paulo, virou um dos símbolos da aposta paulistana em tecnologia urbana e requalificação “de vitrine”. A área, inserida na Operação Urbana Consorciada Faria Lima, já consumiu centenas de milhões de reais em obras anteriores e agora é alvo de novos projetos de reurbanização, com foco em mobiliário urbano, paisagismo, iluminação e espaços para eventos.

Em 2023, a Prefeitura firmou um acordo de cooperação com o Instituto IDEA, selecionado por chamamento público, para elaborar estudos preliminares e o projeto básico de requalificação do Largo. O escopo do projeto inclui ampliar áreas de permanência, qualificar o mobiliário urbano, melhorar o paisagismo, refazer pavimentação e implantar estruturas para atividades culturais, esportivas e de lazer. Na prática, o Largo vira laboratório de tecnologia urbana: redesenho de calçadas, nova iluminação, mobiliário modular e possibilidade de incorporar sensores, wi-fi e sistemas de monitoramento ao pacote de “cidade inteligente”.

Paralelamente, a São Paulo Urbanismo, empresa pública municipal, vinculada à Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL), responsável pelo planejamento, estudos e projetos de desenvolvimento urbano de São Paulo, mantém desde 2025 uma série de licitações ligadas a requalificações urbanas e intervenções em espaços estratégicos, reforçando a agenda de tecnologia urbana como eixo de transformação física da cidade. Entre elas está o edital 021/SP-URB/2025, para contratar empresa ou consórcio responsável por estudos de campo, projetos e EIA-Rima do Boulevard Marquês de São Vicente, em área que também integra o mosaico de intervenções de urbanismo “de alta complexidade” na capital.

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Smart Sampa e a expansão das câmeras inteligentes

No mesmo tabuleiro da tecnologia urbana está o programa Smart Sampa, apresentado pela Prefeitura como o maior sistema de videomonitoramento por câmeras inteligentes da América Latina. Em julho de 2024, a gestão municipal inaugurou a central de monitoramento do programa em um prédio histórico no Centro, integrando câmeras, algoritmos de análise de imagens, banco de dados e sistemas de resposta rápida a ocorrências.

A meta oficial previa 20 mil câmeras instaladas e em operação até o fim de 2024, com possibilidade de chegar a 40 mil equipamentos ao integrar dispositivos privados de empresas, concessionárias e moradores em uma plataforma única. As câmeras contam com recursos como leitura de placas, reconhecimento de padrões, monitoramento de enchentes por telemetria, sensores térmicos em áreas verdes para detectar focos de incêndio, além da integração com serviços de mobilidade e emergência, como CET e SAMU.

Do ponto de vista orçamentário, trata-se de tecnologia urbana de alto custo, com contrato de grande porte e infraestrutura sofisticada, envolvendo centenas de profissionais entre Guarda Civil Metropolitana e Defesa Civil na central de monitoramento. O objetivo declarado é garantir mais segurança, rapidez na resposta a incidentes e gestão de dados em tempo real, numa lógica de cidade inteligente voltada à vigilância e à coordenação de serviços.

Requalificação e sensores vs. lixo e praças degradadas

Enquanto a agenda oficial fala em tecnologia urbana, moradores da região do Largo da Batata e de seu entorno seguem apontando problemas de zeladoria que se repetem há anos. Em diagnóstico apresentado numa consulta pública sobre o projeto de requalificação, a Associação dos Amigos de Alto dos Pinheiros (SAAP) lista calçadas em mau estado, drenagem insuficiente, pontos recorrentes de alagamento, canteiros cheios de lixo, poucas árvores e malcuidadas, praças sempre sujas e mobiliário urbano desgastado e danificado.

Segundo a entidade, a manutenção é ruim e irregular: canteiros acumulam resíduos, as praças não recebem limpeza adequada e a iluminação é considerada fraca, o que afeta a sensação de segurança. O próprio histórico recente do Largo mostra como, mesmo após uma reforma que consumiu cerca de 150 milhões de reais ao longo de mais de uma década, o resultado foi um grande platô de concreto com pouca vegetação, cuja humanização passou a depender de iniciativas de moradores e coletivos locais.

A SAAP defende que, além de um bom projeto de requalificação, é indispensável um trabalho “constante e bem-feito” de manutenção cotidiana – poda, varrição, limpeza de canteiros, conservação do mobiliário – para o espaço ser de fato utilizável pela população. Em outras palavras, sensores, câmeras e arquitetura de vanguarda não compensam lixeiras transbordando, bancos quebrados e calçadas esburacadas ao redor.

Zeladoria urbana: o gargalo que persiste

Relatos de falta de zeladoria não se restringem ao Largo da Batata. Em 2025, ouvintes da Rádio Bandeirantes descreveram lixeiras lotadas por dias em diferentes regiões de São Paulo, incluindo áreas centrais e bairros de classe média, com mau cheiro, acúmulo de resíduos e sensação de abandono do espaço público. Os jornalistas registraram situações em que, num raio de poucos quarteirões, praticamente todas as lixeiras estavam cheias, o que indica falha de rotina na coleta.​

Questionada, a Prefeitura mencionou mutirões de limpeza e uma operação denominada “São Paulo Limpa”, com ações aos sábados nas 32 subprefeituras e retirada de milhares de toneladas de resíduos das ruas ao longo do ano. A própria comunicação oficial enfatiza, em diferentes momentos, iniciativas concentradas de zeladoria: podas, remoção de árvores, tapa-buracos, varrição e limpeza em bairros como Vila Ipojuca, Jardim Humaitá e Vila Jaguara, numa estratégia de “força-tarefa” para reduzir filas de pedidos feitos ao canal 156.

Mas, na prática, moradores e associações de bairro relatam um vaivém entre ações pontuais e longos períodos de pouca presença do poder público na manutenção cotidiana. Em Pinheiros, a SAAP insiste na necessidade de reforçar limpeza e manutenção na região do Largo da Batata, mesmo enquanto avança o projeto de requalificação apoiado pela Prefeitura. O contraste fica evidente: bairros usados como vitrine de tecnologia urbana seguem esperando por rotinas básicas de limpeza, conservação de praças, calçadas e equipamentos simples como lixeiras e bancos.

Tecnologia urbana, para quem e para quê?

A expansão da tecnologia urbana em São Paulo – seja pela via do Smart Sampa, seja por grandes projetos de requalificação em áreas estratégicas como o Largo da Batata, Marquês de São Vicente e JK/Faria Lima – levanta uma pergunta central: para quem essa inovação é prioridade e que problemas ela pretende resolver primeiro. Enquanto editais e acordos desenham uma cidade com mais sensores, câmeras e espaços reformados, os dados e relatos de falta de zeladoria expõem a distância entre o discurso da “cidade inteligente” e a experiência cotidiana de quem pisa no chão.​

A própria documentação oficial ressalta que requalificações devem responder a demandas ambientais, sociais e de mobilidade, com melhor iluminação, mobiliário e áreas de permanência. Associações de moradores reforçam que isso passa por varrer, podar, consertar, recolher lixo e manter a infraestrutura em dia, antes de qualquer promessa alta-tecnologia. No Largo da Batata e em outros bairros, a equação ainda não fecha: a tecnologia urbana avança, mas o básico da zeladoria continua atrasado.

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