O silêncio de Donald Trump em sua agenda internacional, longe de ser um recuo, revela uma sofisticada reconfiguração de sua política externa. A criação do “Board of Peace” e a renegociação de tarifas com o BRICS sinalizam uma fase de transição para uma ordem mundial mais transacional e menos multilateral, com implicações significativas para o Brasil e a China.
Nos últimos meses, a cena política internacional tem observado uma curiosa mudança no comportamento de Donald Trump. A retórica belicosa, as ameaças de tarifas e sanções, e a iminência de ações militares que marcaram o início de seu segundo mandato parecem ter dado lugar a uma fase de menor estridência. Essa aparente calmaria, no entanto, não deve ser confundida com um abrandamento de suas ambições. Pelo contrário, uma análise aprofundada das movimentações recentes do governo americano sugere uma estratégia calculada, que visa remodelar a ordem global de maneira mais sutil, mas igualmente impactante, especialmente para nações como o Brasil e a China, membros proeminentes do BRICS.
O “Board of Peace”: Uma Alternativa à Ordem Multilateral
No cerne dessa nova abordagem está a iniciativa do “Board of Peace” (Conselho de Paz). Concebido inicialmente com um mandato específico da Resolução 2803 do Conselho de Segurança da ONU para a reconstrução de Gaza, o projeto rapidamente transcendeu suas origens. Trump, com sua característica audácia, expandiu a proposta para abranger a resolução de conflitos globais, posicionando-se como presidente vitalício de uma nova entidade. Essa iniciativa tem sido interpretada por analistas como uma tentativa de criar uma estrutura paralela à Organização das Nações Unidas, desafiando diretamente a arquitetura de segurança coletiva estabelecida após a Segunda Guerra Mundial.
Especialistas em política externa veem o Board of Peace como um projeto imperial, uma tentativa de suplantar a ordem global existente por um modelo mais personalista e ágil. A ideia é substituir a complexidade das instituições multilaterais por um fórum onde as decisões podem ser tomadas de forma mais direta, alinhadas aos interesses de Washington e de um grupo seleto de nações parceiras. A resposta do BRICS a essa iniciativa tem sido mista. China, por exemplo, recusou o convite, reafirmando seu compromisso com o sistema da ONU e a importância do multilateralismo. O Brasil, por sua vez, tem demonstrado uma postura mais cautelosa, negociando sua participação e buscando limitar o escopo do conselho à questão de Gaza, ao mesmo tempo em que questiona cláusulas que poderiam consolidar a influência americana de forma desproporcional.
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O Jogo das Tarifas: Pressão e Renegociação com o BRICS
A política tarifária de Trump, embora menos ruidosa, continua sendo um pilar fundamental de sua estratégia. Longe de abandonar as tarifas, o governo americano as utiliza como uma ferramenta de pressão e negociação, adaptando-as conforme seus objetivos geopolíticos. O caso do Brasil ilustra bem essa dinâmica. Após a imposição de uma tarifa de 40% sobre diversos produtos brasileiros em 2025, houve um recuo estratégico em novembro do mesmo ano, com a isenção de itens agrícolas cruciais como carne e café. Essa flexibilização, no entanto, não eliminou a ameaça subjacente, que continua a ser um instrumento para alinhar o Brasil às pautas americanas, incluindo a possível adesão ao Board of Peace.
Com a China, a história é semelhante, mas em uma escala ainda maior. Após um período de intensa guerra comercial, que viu as tarifas americanas sobre produtos chineses atingirem picos de 125%, um acordo foi alcançado em novembro de 2025. Esse pacto resultou em uma redução significativa das taxas para 10%, em troca de compromissos chineses na compra de produtos agrícolas americanos e no controle da exportação de precursores de fentanil. Essa abordagem bilateral, que prioriza acordos específicos em detrimento de confrontos generalizados, tem o efeito colateral de enfraquecer a coesão do BRICS, que, em sua essência, busca uma frente unida contra o protecionismo e a unilateralidade.
O Silêncio Antes da Reordenação Global
O que muitos interpretaram como um “silêncio” de Trump é, na verdade, uma evolução de sua estratégia. A fase das ameaças diretas e imprevisíveis, exemplificada pela quase anexação da Groenlândia e pela invasão da Venezuela, deu lugar a uma abordagem mais calculada e focada na construção de estruturas paralelas de poder. Em vez de simplesmente desmantelar a ordem existente, com esse aparente silêncio, Trump parece empenhado em construir uma nova, baseada em relações transacionais e alianças personalistas. Essa nova ordem privilegia acordos bilaterais e clubes exclusivos, como o Board of Peace, em detrimento de instituições multilaterais como a ONU e a OMC.
Para o BRICS, o desafio é complexo. Manter a unidade interna diante de uma estratégia de “dividir para conquistar” torna-se crucial. As nações do bloco precisam decidir se participarão e tentarão reformar por dentro as novas estruturas de poder propostas por Washington, ou se as rejeitarão, correndo o risco de isolamento. A calmaria atual, portanto, não é um sinal de paz duradoura, mas sim o prelúdio de uma reordenação global ainda mais profunda, onde o poder se sobrepõe às regras e a diplomacia se torna um jogo de interesses diretos, com pouca consideração por princípios universais. O mundo está testemunhando nesse silêncio não um recuo, mas uma metamorfose na política externa de Trump, cujas consequências continuam por se desdobrar.

