Sabesp virou, desde a privatização, um caso que vai além da disputa ideológica sobre o papel do Estado. Os números reunidos até abril de 2026 sustentam uma pergunta incômoda: ao vender o controle da companhia por R$ 67 por ação (atualmente em R$ 176), o governo de São Paulo pode ter aceitado um preço que já nascia defasado e, com isso, abriu mão de um valor que dificilmente será recuperado pelo poder público.
O negócio que redefiniu a Sabesp
Sabesp era, antes da venda, um dos ativos mais relevantes do estado, com operação consolidada, presença maciça no saneamento paulista e histórico de lucratividade que ajudava a explicar o interesse do mercado. Ao longo de 2023 e do primeiro semestre de 2024, as ações da empresa exibiram trajetória de valorização, saindo de cerca de R$ 51,83 em janeiro de 2023 para aproximadamente R$ 74,50 em junho de 2024.
Ainda assim, a oferta que selou a privatização foi fechada em R$ 67 por ação, valor aceito pelo governo paulista em julho de 2024. Pela operação, o estado vendeu 32% dos papéis, arrecadou cerca de R$ 14,7 bilhões e reduziu sua participação de 50,3% para 18,3%. Desse total, 15% foram comprados pela Equatorial por aproximadamente R$ 6,9 bilhões, e a companhia foi a única a apresentar proposta para se tornar investidora de referência.
Esse detalhe ajuda a explicar por que a discussão sobre preço nunca foi apenas técnica. Quando há um ativo estratégico, em um setor essencial, e o processo termina com uma única proposta vinculante para o bloco central da operação, cresce a percepção de assimetria entre o valor do bem vendido e o poder de barganha do vendedor. Em linguagem simples, o estado negociou um patrimônio raro em condições pouco favoráveis para extrair o maior preço possível.
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Onde nasce a tese da subprecificação
A crítica à precificação da Sabesp ganhou corpo porque o preço de R$ 67 não foi apenas contestado por opositores da privatização; ele já parecia baixo na comparação imediata com o mercado. No fechamento da véspera da liquidação, as ações estavam por volta de R$ 82, e reportagens da época registraram que o valor da oferta embutia desconto de 18,3% em relação à cotação de tela. Em poucos dias, o mercado já precificava a companhia acima do valor aceito pelo governo, o que enfraqueceu a narrativa de que o preço refletia com precisão o valor econômico disponível naquele momento.
O ponto central permanece de pé, mesmo sem adotar a estimativa de preço mais dura. Se um ativo é vendido abaixo da cotação corrente, em uma operação com baixa competição e com demanda forte por ações, a suspeita de subprecificação deixa de ser retórica e passa a ter base concreta.
Há outro aspecto importante nessa conta. O governo vendeu uma empresa que já carregava atributos que, mais tarde, seriam celebrados pelo mercado: escala, geração de caixa, posição monopolista em grande parte do estado e protagonismo em uma agenda de investimento de longo prazo. Se esses fundamentos já estavam postos, parte da valorização posterior não representa criação de valor do zero, e sim reconhecimento tardio, ou venda antecipada demais, de um valor que já existia dentro da companhia.
É aqui que surge a ideia do valor irrecuperável. Quando o controlador público vende barato um ativo escasso, ele arrecada menos na largada e transfere ao novo arranjo societário a captura de ganhos futuros que poderiam ter sido monetizados em benefício do caixa estatal ou distribuídos em investimentos públicos. Depois de concluída a oferta, esse diferencial deixa de ser uma hipótese acadêmica e vira dinheiro que não volta mais.
A escalada das ações e o dinheiro perdido
Os números posteriores à privatização são o combustível mais forte dessa tese. O valor da ação SBSP3 já aparecia a R$ 82 em 22 de julho de 2024, poucos dias após a conclusão da venda. Em janeiro de 2025, ela alcançou R$ 133,39, e em 20 de abril de 2026 chegou a R$ 176,04.
A distância entre R$ 67 e R$ 176,04 impressiona por si só, embora não prove, de forma automática, que todo esse ganho estava disponível no instante da oferta. Mercado financeiro incorpora expectativas, revisa riscos e costuma premiar empresas quando enxerga melhora regulatória, governança mais amigável ao investidor e perspectiva de expansão. Mesmo assim, a valorização posterior é grande demais para ser tratada como mero detalhe de volatilidade.
Ela sugere que o estado pode ter aceitado um desconto excessivo num ativo que já despertava apetite expressivo. A demanda total pelas ações da Sabesp chegou a R$ 187 bilhões, segundo cobertura da época, o que mostra que havia forte interesse do mercado no papel. Se havia tanta procura, e se o preço final ficou abaixo da cotação corrente, a pergunta inevitável é se o governo correu para garantir a operação em vez de maximizar o retorno do contribuinte.
Esse ponto é central em qualquer discussão sobre patrimônio público. Quando uma gestão vende uma empresa lucrativa por um valor que depois parece modesto diante da reação do mercado, o prejuízo político é imediato, mas o prejuízo econômico é mais profundo. O caixa do estado recebeu os R$ 14,7 bilhões da operação, porém abriu mão de uma parcela adicional de riqueza que, uma vez transferida aos novos acionistas, se torna praticamente impossível de reaver.
Estado vendeu por R$ 14,7 bilhões o que hoje vale R$ 38,62 bilhões
Essa disparidade é ilustrada pela valorização de 162,75% que separa o preço de liquidação de R$ 67,00 da cotação de R$ 176,04. Em termos nominais, isso significa que a operação de R$ 14,7 bilhões teria saltado para R$ 38,62 bilhões caso tivesse sido balizada pelo potencial de valor de mercado revelado em menos de dois anos. Ao abrir mão desses R$ 23,92 bilhões adicionais, o poder público não apenas subestimou o ativo, mas aceitou um custo de oportunidade que supera o próprio montante arrecadado, consolidando uma transferência de riqueza que torna o argumento da eficiência na alienação tecnicamente frágil diante da magnitude do que foi deixado na mesa.
O argumento oficial e o teste do interesse público
O governo de São Paulo defendeu a privatização com base em metas de universalização, promessa de mais investimentos e expectativa de tarifas mais baixas. Em dezembro de 2025, a comunicação oficial passou a afirmar que a tarifa da Sabesp privatizada ficou 15% menor do que ficaria no modelo estatal, sob uma regra que considera inflação e condiciona revisões a investimentos realizados.
Se a nova estrutura de controle de fato acelou obras, ampliou coberturas e segurou tarifa, o governo sustentará que a operação deve ser medida pelos benefícios futuros, e não só pelo preço da ação no dia da oferta. Contudo, essa é uma retórica complexa, sobretudo em um setor no qual os investimentos são de longo prazo e os resultados demoram a aparecer.
Ainda assim, uma coisa não anula a outra. É possível que a privatização produza ganhos operacionais e, ao mesmo tempo, tenha sido fechada por um valor muito abaixo do que o estado poderia obter. Em outras palavras, a discussão sobre eficiência futura não elimina a suspeita de erro na precificação inicial.
Para o contribuinte, esse é o ponto mais sensível. O debate real não se resume a ser a favor ou contra a privatização da Sabesp, mas a perguntar se São Paulo negociou bem um ativo estratégico que era seu. Quando a valorização posterior é tão intensa, quando havia forte demanda e quando a operação-chave teve apenas um candidato para o posto de investidor de referência, a hipótese de que o governo jogou fora um valor irrecuperável deixa de ser slogan de insastifação de opositores políticos.
O que ainda precisa ser apurado
Sabesp continuará no centro desse debate porque a história não terminou com a assinatura da oferta. Nos próximos meses, a apuração sobre a empresa terá de acompanhar três frentes ao mesmo tempo: evolução das tarifas, entrega das metas de universalização e comparação entre o valor arrecadado em 2024 e a riqueza transferida ao mercado desde então.
Se os resultados sociais forem robustos e comprovados, o governo ganhará argumentos para dizer que a operação positivamente transformadora. Se, por outro lado, as metas não forem cumpridas ou as vantagens ao consumidor ficarem aquém do prometido, a crítica à subprecificação ficará ainda mais pesada, porque o estado terá vendido barato e sem contrapartida suficiente. Até aqui, porém, a fotografia mais nítida é esta: a Sabesp saiu por R$ 67, o mercado a levou rapidamente a outro patamar, e essa diferença alimenta a suspeita de que São Paulo pode ter aberto mão de um pedaço valioso de seu patrimônio por um preço que já parecia uma pechincha no dia da venda.

