A crise financeira que abalou o Paraguai transformou-se em uma crise política de grandes proporções. O presidente Santiago Peña enfrenta uma ofensiva dentro do próprio Congresso, com parlamentares governistas rompendo o apoio ao governo e aderindo ao pedido de impeachment apresentado pela oposição.
O estopim foi a intervenção do Banco Central paraguaio no Ueno Bank, instituição financeira que deixou milhões de clientes sem acesso às suas contas. O episódio atingiu diretamente a confiança dos cidadãos no sistema bancário e abriu uma disputa sobre a responsabilidade das autoridades públicas.
Nesta quinta-feira (5), a Câmara dos Deputados realiza uma sessão extraordinária para discutir a abertura do processo de julgamento político contra Peña e também contra o vice-presidente Pedro Alliana.
O que provocou a crise?
O Banco Central determinou, na madrugada de 3 de novembro, o procedimento de resolução do Ueno Bank, após identificar problemas graves nos indicadores de solvência da instituição.
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O banco, que chegou a reunir aproximadamente três milhões de clientes, também administrava volumes expressivos de recursos públicos. Entre os valores envolvidos estão depósitos vinculados ao Instituto de Previsión Social (IPS), responsável pela previdência e pela saúde dos trabalhadores paraguaios.
A situação ganhou dimensão política porque Peña manteve participação acionária no grupo empresarial controlador da instituição até março de 2025, segundo informações divulgadas pela imprensa internacional.
O presidente havia deixado a sociedade antes da intervenção, mas seus antigos vínculos empresariais passaram a integrar o centro dos questionamentos políticos.
O caso também provocou a renúncia do presidente do Banco Central e a detenção de dirigentes do banco. A investigação criminal envolve suspeitas de irregularidades nas operações financeiras da instituição.
O próprio partido do presidente mudou de posição
O pedido de impeachment foi formalizado por 35 deputados, que apresentaram acusações relacionadas a possíveis conflitos de interesses, operações com empresas vinculadas, aplicação de recursos previdenciários e atuação dos órgãos de fiscalização.
Nesta quinta-feira, o cenário mudou significativamente. Uma bancada de nove deputados governistas anunciou apoio ao julgamento político de Peña, enquanto outros parlamentares do Partido Colorado também sinalizaram adesão.
O presidente do Partido Colorado, Horacio Cartes, também manifestou apoio à iniciativa. A movimentação representa um enfraquecimento político importante para o presidente, que chegou ao poder com o respaldo da tradicional força política paraguaia.
Até as 11h16 desta quinta-feira, a imprensa paraguaia noticiava a formação de uma maioria favorável à aprovação da acusação, mas ainda não havia confirmação oficial do resultado final da votação.
Peña pode perder a Presidência?
O processo segue o artigo 225 da Constituição paraguaia. A Câmara dos Deputados precisa aprovar a acusação por dois terços dos votos dos parlamentares presentes. Se isso acontecer, o caso segue para o Senado, responsável pelo julgamento.
A condenação exige também maioria de dois terços dos integrantes do Senado, equivalente a 30 dos 45 senadores.
Portanto, a aprovação na Câmara não significa a destituição imediata do presidente. Representa a abertura de uma etapa decisiva, na qual Peña terá de enfrentar o julgamento político.
A crise ultrapassou os limites de um problema bancário. Colocou em discussão as relações entre poder político, interesses empresariais, fiscalização financeira e proteção dos recursos públicos.
O desfecho poderá representar uma das mais importantes mudanças políticas do Paraguai desde a destituição de Fernando Lugo, em 2012.

