New START: fim dos limites nucleares entre Rússia e EUA

por Marco Antonio Portugal
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Rússia ultimato militar ao Reino Unido

New START, tratado EUA e Rússia em vigor desde 2011, limitava a 1.550 o número de ogivas estratégicas implantadas por cada lado e estabelecia um regime de inspeções recíprocas e notificação de lançamentos de mísseis.

O tratado já vinha esvaziado desde 2023, quando Vladimir Putin anunciou a suspensão da participação russa, embora tenha prometido manter, de forma voluntária, os limites numéricos centrais e as notificações de lançamentos, em especial para honrar compromissos no âmbito do Tratado de Não Proliferação (TNP). Na narrativa doméstica, essa combinação, suspensão formal, mas preservação parcial das práticas, é usada como prova de que Moscou se vê como ator responsável, mesmo em ruptura com Washington.

A partir desta semana, porém, a palavra New START ganha outro peso: o tratado expirou, e pela primeira vez desde os anos 1970 não há qualquer instrumento que imponha teto legal aos arsenais estratégicos de Washington e Moscou. O tom da imprensa russa reflete esse ponto de virada, oscilando entre a denúncia do “desinteresse americano”, a reafirmação de que a Rússia continuará “moderada” e sinais de que o fim do New START abre uma era de incerteza nuclear.

A linha oficial: responsabilidade russa, culpa americana

New START aparece nos canais estatais e pró-governo russo como peça central de uma narrativa de vitimização estratégica. A chancelaria russa, em comunicados e entrevistas recentes, repete que Moscou foi forçada a suspender a implementação “diante da hostilidade dos EUA e da OTAN”, mas que mesmo assim honrou, até o fim, os limites numéricos acordados. O discurso tem três eixos principais:

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  • Os EUA teriam “politizado” o New START ao vincular inspeções e diálogo nuclear à guerra na Ucrânia e a sanções contra Moscou.
  • Washington seria o verdadeiro responsável pela erosão do regime de controle de armas, desde a saída de outros acordos, como o INF e o Tratado de Céu Aberto, até a falta de resposta clara à proposta russa de manter, por um ano, os limites do New START após a expiração formal.
  • A Rússia, ao propor esse “congelamento” por mais um ano, teria feito um gesto de boa vontade que não exigia negociações complexas, apenas uma declaração política de Washington.

A mídia próxima ao Kremlin ecoa essa linha. Textos em veículos alinhados à diplomacia russa enfatizam que o New START “poderia ter sobrevivido politicamente” se os EUA aceitassem a prorrogação técnica dos limites, mesmo sem um tratado formal em vigor. Nesse enquadramento, o fim do New START é apresentado menos como colapso de um acordo negociado a dois e mais como consequência da suposta recusa americana em negociar em condições “de igualdade e respeito”.

Putin e o New START: sinal misto entre freio e ameaça

New START também aparece na cobertura russa como chave para entender a própria estratégia de Putin. A imprensa lembra que foi Putin quem anunciou, em fevereiro de 2023, a suspensão da participação no tratado, justificando que não fazia sentido permitir inspeções americanas em instalações estratégicas em plena guerra na Ucrânia. Ao mesmo tempo, seus pronunciamentos posteriores são citados para mostrar que Moscou não queria “rasgar” o legado do acordo.

Em 2023 e 2024, veículos russos deram espaço à promessa do Kremlin de continuar respeitando os limites centrais e de manter notificações de testes de mísseis balísticos intercontinentais, inscrevendo esse comportamento na lógica de “potência responsável”. Em 2025, quando Putin propôs manter por mais um ano as restrições numéricas do New START após sua expiração formal, jornais e agências destacaram a frase em que ele alertava que a renúncia total ao legado do tratado seria um “erro grave e míope”.

Ainda assim, a cobertura não é isenta de ambiguidade. Analistas próximos ao governo lembram que a Rússia tem investido em sistemas estratégicos fora da cobertura do New START – como o míssil de cruzeiro Burevestnik e o torpedo nuclear Poseidon – e mantê-los fora de qualquer regime de verificação foi, desde o início, parte do cálculo do Kremlin. Essa dualidade – denunciar o fim do New START e, ao mesmo tempo, valorizar a liberdade de desenvolver novos armamentos – aparece com frequência em colunas de militares e ex-diplomatas publicados em sites especializados russos.

Vozes especializadas: entre alerta e pragmatismo

New START é tema recorrente em think tanks e centros de pesquisa russos voltados a segurança internacional. Publicações recentes discutem o que chamam de “fim de ciclo” dos tratados bilaterais de limitação estratégica e projetam cenários sem qualquer teto formal para arsenais. Nos debates internos, emergem três linhas de avaliação:

  • A linha alarmista: alerta para o risco de uma nova corrida armamentista, argumentando que, sem o New START, tanto EUA quanto Rússia podem se sentir pressionados a aumentar ogivas e vetores para não aparentar vulnerabilidade, especialmente diante da ascensão nuclear chinesa.
  • A linha pragmática: defende que Moscou não tem interesse objetivo em um grande aumento de ogivas – dada a pressão econômica e o custo industrial – e que a prioridade é manter capacidade de dissuasão credível, com foco em modernização, não em quantidade.
  • A linha revisionista: vê o fim do New START como oportunidade para redesenhar o regime de controle de armas, incluindo outros atores nucleares, e para forçar os EUA a negociar em um quadro em que Rússia e China apareçam como polos de poder coordenados.

Textos de diplomatas veteranos, publicados em veículos ligados à academia russa, insistem na ideia de que Moscou “nunca fechou a porta” ao diálogo sobre armas estratégicas, mas que esse diálogo, daqui para frente, não pode ignorar sistemas ofensivos dos EUA na Europa e na Ásia, nem o crescimento do arsenal chinês. Nessa visão, o New START, mesmo valorizado como peça histórica, já não responderia à nova geometria nuclear, e sua expiração seria menos uma ruptura inesperada e mais a confirmação de que o modelo dos anos 1990 se esgotou.

Mídia independente: crítica ao risco e ao uso político do medo

New START também aparece em coberturas de veículos independentes em russo voltados a públicos urbanos e críticos ao Kremlin, embora muitos desses meios operem hoje no exílio. Em análises e reportagens, o foco recai sobre os riscos concretos do fim do tratado e sobre o uso interno da retórica nuclear pela liderança russa. Esses veículos enfatizam pontos que raramente ganham espaço na mídia estatal:

  • A perda dos mecanismos de verificação e inspeção, considerados essenciais para evitar mal-entendidos e erros de cálculo entre as duas potências nucleares.
  • A crescente “normalização” da linguagem nuclear no discurso público russo, em especial em talk shows de TV e comentários de figuras como Dmitri Medvedev, que alternam alerta sobre a importância do New START com ameaças de uso de armas estratégicas.
  • O impacto da militarização da política externa sobre a própria sociedade russa, que convive com a ideia de guerra nuclear como pano de fundo permanente desde 2022.

Comentadores críticos destacam o contraste entre, de um lado, a defesa do legado técnico do New START – seus limites, suas rotinas de notificação – e, de outro, a disposição do Kremlin de instrumentalizar a ameaça nuclear na disputa com o Ocidente sobre a Ucrânia. Para esses analistas, a narrativa oficial que culpa exclusivamente Washington pelo fim do tratado ignora que a suspensão russa em 2023 já havia corroído o edifício de confiança que sustentava o regime de verificação.

A nova paisagem nuclear sem o New START

New START é descrito, tanto na mídia estatal quanto em análises independentes, como o último pilar de uma arquitetura de segurança que emergiu do fim da Guerra Fria e que agora se desfaz em ritmo acelerado. Com sua expiração, diversos especialistas russos reconhecem que se abre um cenário inédito: dois arsenais estratégicos sem qualquer barreira formal, em um contexto em que China e outros atores nucleares ganham peso.

Veículos internacionais, reproduzidos ou comentados pela imprensa russa, falam em “nova era nuclear” e em “risco de nova corrida armamentista”, expressões que começam a aparecer também em análises domésticas, ainda que filtradas pelo enquadramento oficial. O temor central é que, sem o teto do New START, tanto Washington quanto Moscou se vejam pressionados por seus próprios setores militares e políticos a testar limites, seja ampliando estoques, seja flexibilizando doutrinas de uso.

Ao mesmo tempo, há uma percepção difundida em círculos russos de que qualquer eventual “New START 2.0” terá de nascer de um cenário de negociação muito mais complexo, envolvendo, além de Estados Unidos e Rússia, o papel nuclear da China e as capacidades de aliados como Reino Unido e França. Nesse quadro, a ausência de um tratado não significa, necessariamente, ausência de qualquer forma de contenção, mas indica uma transição arriscada, em que gestos unilaterais – como a proposta russa de manter os limites por mais um ano, ignorada por Washington – substituem mecanismos juridicamente vinculantes.

Na narrativa que ganha corpo em Moscou, o fim do New START funciona como espelho da crise mais ampla entre a Rússia e o Ocidente. O tratado, celebrado em 2010 como prova de que era possível administrar rivalidades nucleares com regras claras, termina sem substituto, enquanto a guerra na Ucrânia segue como pano de fundo para qualquer cálculo estratégico. No vácuo deixado por esse acordo, a mídia russa se divide entre quem vê apenas mais um capítulo da confrontação com os EUA e quem enxerga, no silêncio dos tratados, um risco que ultrapassa fronteiras e ideologias.

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