Êxodo argentino: 40 mil cruzam a fronteira e obtêm CPF no Brasil em 2025

por Maria Gabriela Portugal
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Número é cinco vezes maior que a média anual anterior e revela impacto humano das políticas de ajuste de Javier Milei; trabalhadores buscam agro, construção e serviços

Enquanto o governo do presidente argentino Javier Milei comemora a desaceleração da inflação mensal, uma imagem silenciosa mas contundente se repete na província de Misiones, na tríplice fronteira: longas filas de argentinos atravessando para o lado brasileiro. O destino, na maioria das vezes, não é o turismo de compras, mas o mercado de trabalho formal no Brasil.

Dados obtidos com exclusividade pela reportagem junto à Receita Federal do Brasil mostram que 40.172 cidadãos argentinos obtiveram o Cadastro de Pessoa Física (CPF) no país em 2025. O número representa um aumento de 400% em relação à média anual dos cinco anos anteriores, quando cerca de 8 mil argentinos por ano tiravam o documento.

Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que o salto é o primeiro retrato quantitativo do êxodo laboral provocado pela crise argentina agravada sob o governo Milei.

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De “golondrinos” a novos residentes

Os CPFs concedidos revelam um perfil diverso de migração. Há desde trabalhadores temporários, conhecidos no jargão regional como “golondrinos” (andorinhas, em espanhol) – que cruzam a fronteira na safra da laranja, da erva-mate ou da soja e retornam –, até famílias inteiras que buscam fixar residência em cidades como Foz do Iguaçu (PR), Chapecó (SC) e Porto Alegre (RS).

“Aqui consigo pagar o aluguel e ainda sobra para mandar ajuda para meus pais em Buenos Aires. Na Argentina, com o mesmo trabalho, não dava mais”, relata Carlos Martínez, 34 anos, pedreiro que saiu de Posadas (capital de Misiones) e hoje vive em São Miguel do Oeste (SC). Ele obteve o CPF em março de 2025.

Segundo a Receita Federal, a exigência do CPF para qualquer trabalhador formal – inclusive temporário ou sazonal – fez do documento a principal porta de entrada para a legalidade no mercado de trabalho brasileiro. Os setores que mais absorvem esses migrantes são:

  • Agronegócio (colheitas, frigoríficos, erva-mate)
  • Construção civil (ajudantes, pedreiros, serventes)
  • Serviços (delivery, limpeza, comércio)

A conta do ajuste de Milei

Economistas consultados traçam uma linha direta entre as políticas do presidente libertário e o fenômeno migratório.

Javier Milei assumiu em dezembro de 2023 com um plano de choque: desvalorização do peso em mais de 50%, corte de subsídios a transportes e energia, suspensão de obras públicas e demissão de funcionários públicos. O resultado foi uma recessão com queda de quase 4% do PIB no primeiro ano, desemprego em dois dígitos e uma pobreza que ultrapassou 50% da população.

“O câmbio artificialmente atrasado – que Milei mantém como âncora anti-inflação – gera duas faces: o turista argentino com dólares no bolso se sente rico no Brasil, mas o trabalhador que ganha em pesos vê seu salário derreter. Esse segundo perfil é o que forma as filas na fronteira para obter o CPF”, explica Laura Gutiérrez, pesquisadora de migrações na Universidade de Buenos Aires (UBA).

O paradoxo é que a mesma política cambial que atrai turistas argentinos ao litoral brasileiro (com recordes de consumo em Florianópolis e Balneário Camboriú) é a que expulsa trabalhadores para o mercado formal do país vizinho.

Turismo de compras vs. migração de sobrevivência

Autoridades brasileiras em cidades de fronteira confirmam a dupla dinâmica.

“É comum vermos argentinos com bom poder aquisitivo vindo para comprar eletrônicos, roupas e até carros. Mas, ao mesmo tempo, as filas da Polícia Federal para solicitar residência ou da Receita para o CPF estão cada vez maiores com perfis mais humildes”, relata Fernando Silveira, secretário de Desenvolvimento de Foz do Iguaçu.

Dados do Ministério do Turismo brasileiro mostram que o gasto médio de turistas argentinos no Brasil cresceu 35% em 2025. Contudo, o número de pedidos de residência temporária ou permanente de argentinos mais que dobrou no mesmo período – fenômeno que as autoridades migratórias classificam como “fuga de mão de obra”.

O que diz o governo Milei?

Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da Presidência da Argentina afirmou, em nota, que “as reformas econômicas estão no caminho correto para estabilizar o país” e que “a saída de trabalhadores é um fenômeno temporário, comum em processos de transição”. A nota ainda ressaltou que a inflação caiu de 25% mensais (dez/2023) para 2,7% em outubro de 2025.

No entanto, críticos apontam que o custo social do ajuste tem sido a expulsão de centenas de milhares de argentinos – não apenas para o Brasil, mas também para Uruguai, Chile e Espanha.

“O CPF no Brasil virou uma espécie de ‘termômetro da desesperança’ na Argentina. Cada número novo é uma família que desistiu de esperar a recuperação prometida por Milei”, sintetiza o sociólogo Ricardo Dagnino, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Cenário futuro

A tendência é de aceleração. A Receita Federal já registra, nos primeiros dois meses de 2026, uma média de 4,5 mil novos CPFs para argentinos por mês – o que, se mantido, projeta um novo recorde anual acima de 50 mil.

Enquanto isso, nas cidades gêmeas da fronteira – como Puerto Iguazú (Argentina) e Foz do Iguaçu (Brasil) –, o movimento diário de trabalhadores com CPF na mão virou cena corriqueira. Eles saem de casa antes do amanhecer, cruzam a ponte Tancredo Neves e voltam ao anoitecer. São os novos operários fronteiriços de uma crise que não respeita mapas.

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