Crise em Estreito de Ormuz ameaça fertilizantes e acende alerta para alta global dos alimentos.
Crise em Ormuz ameaça fertilizantes e acende alerta para alta global dos alimentos
As interrupções na navegação pelo Estreito de Ormuz começam a produzir efeitos que vão além do mercado de petróleo e gás e podem atingir diretamente a produção mundial de alimentos. O alerta é de John Denton, secretário-geral da Câmara de Comércio Internacional (ICC), que aponta riscos crescentes para o abastecimento global de fertilizantes.
Segundo Denton, aproximadamente um terço dos embarques mundiais de fertilizantes depende da passagem pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta. As dificuldades no transporte pela região já teriam reduzido significativamente a capacidade disponível de produção e fornecimento, retirando milhões de toneladas de fertilizantes do mercado internacional.
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O problema pode criar uma cadeia de impactos sobre a agricultura. A redução da oferta tende a elevar o preço dos fertilizantes, aumentando os custos de produção justamente em países altamente dependentes desses insumos. Caso o cenário persista, agricultores podem diminuir a quantidade aplicada nas lavouras, comprometendo a produtividade das próximas safras.
A Câmara de Comércio Internacional já advertiu que um choque prolongado em Ormuz poderia produzir consequências severas para o mercado agrícola. Em um cenário extremo analisado pela entidade, o uso de fertilizantes nitrogenados poderia cair cerca de 37%, enquanto a produtividade dos cereais poderia recuar até 10%. Os preços internacionais dos cereais, nesse cenário, poderiam alcançar níveis até 81% superiores aos registrados em 2020.
Os números representam projeções para uma situação de interrupção prolongada e não significam que esses aumentos necessariamente ocorrerão. Ainda assim, revelam a dimensão da dependência da agricultura mundial das cadeias de energia, transporte marítimo e fertilizantes.
A situação preocupa especialmente porque os fertilizantes nitrogenados dependem fortemente do gás natural em seu processo de fabricação. Dessa forma, uma crise energética no Golfo Pérsico pode rapidamente se transformar também em uma crise agrícola.
Brasil também pode sentir os efeitos
Para o Brasil, um dos maiores produtores e exportadores agrícolas do mundo, a questão é particularmente relevante. Apesar da enorme produção de soja, milho, café, açúcar, carnes e outros produtos, o país depende fortemente da importação de fertilizantes.
Uma redução da oferta internacional ou uma forte valorização desses produtos pode aumentar os custos das lavouras brasileiras. Mesmo que não haja falta física de alimentos, esse encarecimento pode percorrer toda a cadeia produtiva e chegar posteriormente ao consumidor.
O risco, portanto, não está restrito aos países diretamente envolvidos nas tensões do Oriente Médio. O Estreito de Ormuz funciona como um ponto crítico da economia mundial: petróleo, gás e fertilizantes que atravessam a região alimentam cadeias produtivas espalhadas por vários continentes.
Se as interrupções persistirem, aquilo que começou como um choque no mercado energético poderá atingir as lavouras e, posteriormente, os supermercados. A duração da crise será determinante para saber se o mundo enfrentará apenas um período de preços mais elevados ou uma pressão mais profunda sobre a segurança alimentar global.

