Centro histórico SP: obras atrasadas geram prejuízos

por Marco Antonio Portugal
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CENTRO HISTÓRICO

O centro histórico de São Paulo, que um dia já foi coração pulsante da maior metrópole da América do Sul, vive um paradoxo. Ao mesmo tempo em que um ambicioso projeto de requalificação de calçadas promete revitalizar a região, comerciantes e moradores enfrentam uma rotina de obras paralisadas, prejuízos e incertezas. A iniciativa, que começou com a promessa de um futuro mais acessível e seguro, hoje se arrasta em meio a um emaranhado de desafios técnicos, disputas administrativas e impactos socioeconômicos que afetam diretamente quem vive e trabalha no local.

O projeto de requalificação e suas promessas

Anunciado oficialmente em dezembro de 2022, o projeto de requalificação do centro histórico de São Paulo previa a renovação de quase 100 mil metros quadrados de calçadas, divididos em duas grandes fases. A primeira, no Triângulo Histórico, contempla 23 ruas e uma área de 62,2 mil metros quadrados, com investimento de R$ 63 milhões. A segunda fase, na região da República, abrange 12 endereços e 37,7 mil metros quadrados, com investimento adicional de R$ 36,6 milhões.

A promessa era substituir as antigas pedras portuguesas, instaladas na década de 1970, por um piso de concreto mais resistente e acessível. Além disso, o projeto incluía modernização da infraestrutura subterrânea de drenagem, instalação de galerias técnicas para ordenamento das redes de telecomunicações, nova iluminação funcional e cênica de edifícios históricos, sinalização turística e mobiliário urbano. O objetivo era valorizar o patrimônio, fomentar o turismo e impulsionar a economia local, beneficiando os mais de 2 milhões de pedestres que circulam diariamente pela área.

Atrasos, paralisações e o jogo de empurra

O que observamos atualmente, no entanto, é um panorama bastante distinto das promessas iniciais. Na Rua Dom José de Barros, por exemplo, o canteiro de obras está paralisado há mais de um mês. A imensa trincheira aberta no centro da rua, sem a presença de trabalhadores, indica a falta de progresso nas intervenções. A maior parte da via permanece interditada, e os pedestres só conseguem acessar os comércios por um estreito corredor.

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A Prefeitura de São Paulo alega que o ritmo foi reduzido enquanto se aguarda autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) para o início das escavações. O IPHAN, por sua vez, afirma que aguarda documentação complementar dos profissionais de arqueologia contratados pela prefeitura e que não houve atraso nas análises que cabem ao instituto.

Nesse jogo de empurra, a situação se complica ainda mais com a disputa entre a prefeitura e a concessionária de energia Enel. Em agosto de 2025, o prefeito Ricardo Nunes acusou publicamente a empresa de atrasar as obras em dois meses e de apresentar uma cobrança de R$ 7 milhões para o enterramento de fios elétricos, valor que a prefeitura se recusa a pagar. Nunes argumentou que, enquanto a Sabesp, a Comgás e as empresas de telecomunicações realizam suas adequações sem cobrar, somente a Enel tentou repassar os custos.

A Enel, em resposta, informou que não cobrou pela readequação da estrutura, iniciada em 31 de julho. A companhia destacou ainda que a rede de distribuição de energia tem características e complexidade totalmente diferentes das redes de água e gás, com média tensão de 13.800 volts, o que exige cuidados redobrados.

Comerciantes em meio ao caos e prejuízos

No meio desse imbróglio administrativo e técnico, os comerciantes do centro histórico de São Paulo amargam prejuízos significativos. Relatos de queda de faturamento de até 60%, aluguéis atrasados e perda de clientes são comuns entre os que trabalham na região afetada pelas obras.

O dono de um bar na Rua Dom José de Barros, afirma que seu faturamento caiu 60% desde o início das obras. Com o aluguel atrasado há dois meses, ele cobra que os trabalhos sejam retomados logo.

Em outro local, o administrador de uma lanchonete no mesmo endereço, viu seu movimento cair pela metade. Se antes vendia 50 almoços por dia, agora vende somente 25. Além do prejuízo financeiro, há problemas com segurança, com relato furtos durante a madrugada. O relato é de que os criminosos aproveitaram o canteiro de obras para se esconder dos policiais, mesmo estando a menos de 100 metros de uma base da Polícia Militar.

Já o recepcionista de um hotel na região, também relata que o estabelecimento tem sido prejudicado. Ele ainda observa que os trabalhadores da obra costumam passar pouco tempo no local, somente três ou quatro horas, e não um período completo de oito horas.

Centro histórico sofre com abandono

Na última segunda-feira, dia 6, uma vistoria realizada na região revelou que as obras não estão em andamento. Trechos das ruas, que anteriormente funcionavam como calçadões, transformaram-se em valas abertas, restringindo a circulação a uma estreita faixa em cada lateral. Um tapume de baixa altura cerca essas áreas, permitindo a visualização das escavações.

Restos de entulho, terra, madeira, além de cabos e tubos, ocupam desordenadamente as valas. A execução das poucas atividades vistas se concentra em dois pontos específicos, onde menos de dez trabalhadores realizam tarefas de baixa complexidade. A maior parte do canteiro de obras permanece abandonada, sem a presença de operários.

Na região, cerca de 80% dos imóveis estão fechados. Aqueles que permanecem abertos enfrentam dificuldades devido à interdição parcial em suas frentes, o que prejudica a circulação local, a movimentação de cargas e o acesso das pessoas.

Desafios técnicos e descobertas arqueológicas

A Associação Comercial de São Paulo (ACSP) acompanha a situação de perto, intermediando o diálogo entre os comerciantes, a SP Obras e o consórcio executor. Em reunião realizada em abril de 2024, representantes do consórcio admitiram os desafios enfrentados. O representante do consórcio explicou que o principal desafio é a ocupação desordenada dos subterrâneos pelas concessionárias, em especial as de telecomunicações, que transformaram as galerias em um “emaranhado de cabos”.

Além disso, a descoberta de sítios arqueológicos paralisou temporariamente os trabalhos. Em outubro de 2023, a prefeitura identificou dois sítios arqueológicos durante as obras. O primeiro, chamado Trilhos da Light, na Rua José Bonifácio, revelou remanescentes das antigas linhas de bonde da empresa canadense Light, responsável pelo serviço a partir de 1900. A prefeitura propôs ao IPHAN e ao Centro de Arqueologia de São Paulo (CASP) manter os trilhos em local visível, por se tratar de importante registro histórico.

O segundo sítio, na Rua Senador Paulo Egídio, conserva remanescentes de moradias do século XX, incluindo fragmentos de cerâmica com características do período colonial. Todo o material encontrado está sendo exposto e registrado por meio de croqui e escaneamento 3D, e os bens móveis serão catalogados para análise do IPHAN.

Impactos e perspectivas futuras

Os impactos da obra são sentidos em diversas frentes. Economicamente, o prejuízo a curto prazo para os comerciantes é evidente, com quedas drásticas de faturamento e risco de fechamento de estabelecimentos. Socialmente, a sensação de insegurança aumenta, com relatos de furtos e assaltos na região das obras, e a mobilidade fica prejudicada, afetando os 2 milhões de pedestres que circulam diariamente pelo centro histórico.

Por outro lado, os benefícios esperados a longo prazo são significativos. Um centro histórico mais acessível, com calçamento de concreto que facilita a locomoção de cadeirantes, pessoas com deficiência visual e idosos, reduzindo o risco de quedas e acidentes. A reestruturação da infraestrutura subterrânea de drenagem promete reduzir o risco de alagamentos, enquanto a instalação de galerias técnicas vai ordenar as redes de telecomunicações e reduzir a poluição visual.

Do ponto de vista ambiental, as antigas pedras portuguesas não serão descartadas. Elas passarão por usinas de britagem e poderão ser reutilizadas como sub-base de outros pisos, promovendo economia circular na construção civil. A nova iluminação e o paisagismo também prometem valorizar a região.

A requalificação do centro histórico de São Paulo é uma obra complexa e necessária, mas que expõe as dificuldades de gestão e coordenação em grandes projetos urbanos. A falta de sincronia entre as concessionárias, os desafios arqueológicos e as disputas administrativas têm gerado atrasos que impactam diretamente a vida de quem depende da região para trabalhar e viver. Enquanto as promessas de um futuro melhor não se concretizam, comerciantes e moradores seguem aguardando uma solução, equilibrando-se entre a esperança da revitalização e os transtornos de um presente de obras intermináveis. A previsão de conclusão total do projeto, que inicialmente era para o fim de 2024, foi adiada para o segundo semestre de 2026.

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