Uma rede de financiamento e articulação política criada nos Estados Unidos pelo atual vice-presidente J.D. Vance tornou-se personagem de uma controvérsia na eleição presidencial brasileira. A Rockbridge Network, organização conservadora que reúne empresários, investidores e grandes doadores da direita norte-americana, é apontada por adversários de Flávio Bolsonaro como possível fonte de apoio à sua campanha.
A acusação ganhou força depois que Renan Santos, candidato à Presidência pelo Missão, afirmou que a Rockbridge teria se aproximado da campanha de Flávio e prometeu apresentar documentos e contatos que, segundo ele, poderiam comprovar a relação. Até o momento, porém, não foi apresentada publicamente prova de transferência de recursos da organização norte-americana para a candidatura do senador.
Fundada em 2019 por J.D. Vance e pelo investidor e estrategista conservador Chris Buskirk, a Rockbridge está longe de ser apenas um grupo informal de simpatizantes republicanos. Investigação da Reuters mostrou que a rede foi construída para financiar uma infraestrutura política conservadora nos Estados Unidos, reunindo nomes ligados ao Vale do Silício, investidores e grandes financiadores da direita. Suas iniciativas incluem mobilização eleitoral, mídia, pesquisas de opinião e organizações voltadas à atuação política e religiosa.
Em 2026, a influência da Rockbridge continuou crescendo. Em setembro, a rede reuniu centenas de empresários, políticos e financiadores republicanos em um encontro privado em Dallas, num momento em que Vance passou a ser tratado como um dos principais nomes para a sucessão de Donald Trump em 2028.
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No Brasil, dois nomes aparecem com frequência nas reportagens sobre as conexões da rede: os empresários Tallis Gomes, fundador da G4 Educação, e Pedro Sang.
Sang confirmou ter mantido contato com integrantes da Rockbridge, mas negou ter intermediado qualquer aporte financeiro do grupo para campanhas brasileiras. Ele também afirmou que a organização chegou a avaliar investimentos em tecnologia no país, mas teria desistido de avançar com o projeto. Até agora, não há comprovação pública de que Sang tenha transferido recursos estrangeiros para a campanha de Flávio.
Tallis Gomes, por sua vez, também rejeitou a acusação de que tenha atuado na arrecadação de dinheiro para a candidatura. Sua proximidade política com Flávio Bolsonaro, entretanto, é pública.
Em entrevistas recentes, Gomes afirmou ter conversado dezenas de vezes com Flávio sobre propostas econômicas e disse que o candidato demonstrou interesse em incorporar ideias suas ao programa de governo. Entre elas estão a atração de grandes investimentos estrangeiros para infraestrutura de inteligência artificial, instalação de data centers, exploração de minerais estratégicos e reformas econômicas.
É justamente nesse ponto que a discussão sobre terras raras ganhou dimensão política.
Gomes sustenta que a combinação de reservas minerais, energia renovável, território e disponibilidade de água poderia transformar o Brasil em uma plataforma mundial de inteligência artificial e data centers. Em debate recente, defendeu negociações com empresas como Amazon, Meta, OpenAI e Anthropic, condicionando investimentos à transferência de tecnologia e à geração de capacidade produtiva dentro do país.
Reportagem sobre suas propostas econômicas também registra a defesa de leilões de terras raras, lítio, grafite e outras concessões, incentivos para infraestrutura de inteligência artificial e privatizações destinadas, entre outras finalidades, a financiar um programa de transferência de renda batizado de “Dividendo Brasil”. A campanha de Flávio Bolsonaro, contudo, não havia confirmado formalmente a incorporação dessas propostas ao seu programa quando procurada pela reportagem.
A aproximação econômica de Flávio com os Estados Unidos não é apenas uma interpretação de seus adversários. O próprio candidato defende uma mudança significativa na política externa brasileira, com maior aproximação de Washington e Israel e afastamento do Brics. Também já admitiu uma possível parceria com os Estados Unidos na área de minerais estratégicos.
Isso, por si só, não comprova qualquer irregularidade eleitoral.
A questão juridicamente relevante é outra: saber se uma organização estrangeira forneceu dinheiro, serviços, publicidade, estrutura ou qualquer outro benefício economicamente mensurável à candidatura.
O artigo 24 da Lei nº 9.504/1997 proíbe expressamente que partidos ou candidatos recebam, direta ou indiretamente, doações em dinheiro ou estimáveis em dinheiro procedentes de entidade ou governo estrangeiro. O próprio Tribunal Superior Eleitoral reafirmou para as eleições de 2026 que recursos de origem estrangeira constituem fonte vedada de financiamento eleitoral.
Por isso, seria precipitado afirmar que a mera relação entre brasileiros ligados à campanha e integrantes da Rockbridge configura automaticamente crime eleitoral ou levaria necessariamente à cassação de Flávio Bolsonaro. Para que existam consequências desse nível, seria necessário comprovar a existência do benefício, sua origem estrangeira, a relação com a campanha e as responsabilidades dos envolvidos.
O caso, no entanto, já ultrapassou a disputa retórica entre candidatos. O deputado federal Lindbergh Farias pediu ao Supremo Tribunal Federal a abertura de investigação sobre a possível ligação entre a campanha de Flávio e financiamento estrangeiro. O pedido menciona Tallis Gomes e Pedro Sang e solicita a análise de movimentações financeiras, contratos e contas de campanha, além de eventual cooperação com autoridades dos Estados Unidos.
A prestação de contas parcial divulgada até agora não oferece prova pública de transferência de recursos da Rockbridge. Reportagens que analisaram os dados disponíveis apontam predominância de recursos provenientes do próprio PL na campanha de Flávio Bolsonaro.
O que existe, portanto, é um conjunto de relações que merece escrutínio: uma poderosa rede política norte-americana fundada por J.D. Vance; empresários brasileiros que tiveram contato com essa estrutura; proximidade desses empresários com Flávio Bolsonaro; discussões sobre minerais estratégicos, inteligência artificial e grandes investimentos americanos; e uma acusação pública de financiamento estrangeiro que chegou às autoridades.
O que ainda falta é a peça decisiva: prova documental ou financeira de que a Rockbridge efetivamente forneceu recursos ou serviços à campanha.
Até que essa evidência apareça, o caso deve ser tratado como uma suspeita sob investigação, e não como financiamento estrangeiro comprovado. Isso não reduz sua relevância. Pelo contrário: em uma eleição presidencial, esclarecer se interesses econômicos e políticos estrangeiros ultrapassaram o limite da aproximação ideológica e entraram efetivamente na estrutura de uma campanha é uma questão de transparência eleitoral e soberania nacional.

