BRICS na Índia: Brasil busca acordos e alinhamento

por Marco Antonio Portugal
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BRICS

BRICS esteve no centro da agenda diplomática em Nova Délhi nos dias 14 e 15 de maio de 2026, com a reunião de chanceleres do bloco sob presidência da Índia e participação do ministro brasileiro Mauro Vieira. O encontro serviu como etapa preparatória para a cúpula de líderes e concentrou debates sobre governança global, crises internacionais, cooperação econômica e articulações bilaterais do Brasil com parceiros do grupo.

Como foi a reunião na Índia

BRICS reuniu os ministros das Relações Exteriores em Nova Délhi, com programação oficial distribuída em três sessões de trabalho, uma audiência conjunta com o primeiro-ministro Narendra Modi e um jantar oferecido pelo chanceler indiano Subrahmanyam Jaishankar. A agenda divulgada pelo governo da Índia marcou a chegada das delegações na manhã do dia 14, duas sessões no primeiro dia e uma terceira sessão no dia 15.

O encontro ocorreu no Bharat Mandapam e teve peso político por abrir a presidência indiana de 2026 no bloco. Segundo a chancelaria indiana e o Itamaraty, Mauro Vieira participou da reunião ministerial nos dois dias, em um momento em que o BRICS tenta consolidar posições comuns antes da reunião de chefes de Estado prevista para o segundo semestre.

Além dos membros plenos, o segundo dia foi desenhado para envolver países parceiros em um formato ampliado. Essa ampliação confirma a fase mais recente do BRICS, que busca combinar coordenação política entre os fundadores e novos integrantes com uma agenda mais ampla do chamado Sul Global.

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Pautas discutidas pelo bloco

BRICS levou para a mesa temas globais e regionais de interesse comum, com destaque para cooperação econômica, segurança internacional e reforma das instituições multilaterais. Entre os assuntos apontados antes da reunião estavam a reforma do Conselho de Segurança da ONU, do FMI e do Banco Mundial, além de mecanismos para ampliar a voz dos países em desenvolvimento.

A pauta energética também apareceu com força. Reportagens sobre a preparação do encontro indicaram discussões sobre segurança energética, transição energética e o avanço de plataformas conjuntas, como iniciativas em pesquisa energética, investimentos e integração logística e financeira.

Outro eixo foi a tentativa de formular respostas comuns para crises em curso. Antes e durante a reunião, veículos e fontes ligadas à cobertura diplomática apontaram que guerras no Oriente Médio e na Ucrânia, com seus efeitos econômicos e políticos, entraram nas conversas entre os chanceleres.

No dia 15, a sessão ampliada foi organizada sob o tema “BRICS@20: Building for Resilience, Innovation, Cooperation and Sustainability”, seguida por outra dedicada às reformas da governança global e do sistema multilateral. Essa estrutura mostra que a Índia buscou ligar o debate político à imagem de um bloco voltado a resiliência, inovação e sustentabilidade.

Encontros bilaterais do Brasil

BRICS também abriu espaço para encontros bilaterais do Brasil à margem da programação principal. Segundo apuração publicada no Brasil, Mauro Vieira se reuniu em Nova Délhi com os chanceleres Sergey Lavrov, da Rússia, Ronald Lamola, da África do Sul, e Abbas Araghchi, do Irã.

Na conversa com Lavrov, a pauta incluiu o G20 e a sucessão do secretariado-geral das Nações Unidas, além da busca de coordenação diplomática em temas multilaterais. Outra cobertura internacional afirmou que os dois lados trocaram avaliações sobre desdobramentos no Golfo Pérsico e na América Latina e reafirmaram o compromisso de fortalecer a parceria estratégica entre Moscou e Brasília.

No caso do Irã, a cobertura indicou debate sobre ampliação da cooperação entre os países membros e sobre a crise no Oriente Médio. O tema ganhou sensibilidade extra porque, no plenário do bloco, o representante iraniano defendeu condenação às ações de Israel e dos Estados Unidos, o que elevou a pressão por uma linguagem de consenso entre os integrantes.

A agenda com a África do Sul foi citada entre as bilaterais de Vieira, embora os detalhes públicos tenham sido mais limitados. Ainda assim, o simples registro do encontro revela o esforço brasileiro de manter diálogo ativo com parceiros tradicionais do núcleo original do BRICS enquanto o grupo passa por expansão e maior heterogeneidade.

Houve acordos firmados?

BRICS, nesta etapa ministerial de maio, não apresentou até aqui um pacote amplo de acordos bilaterais formalmente assinados pelo Brasil nos dias 14 e 15 com detalhamento público equivalente ao de uma cúpula presidencial. As informações disponíveis indicam que o foco do encontro esteve mais na coordenação política, na preparação de posições comuns e no avanço de conversas bilaterais do que na assinatura de instrumentos de grande porte anunciados oficialmente nesses dois dias.

Isso não significa ausência de resultado. Em diplomacia, encontros ministeriais costumam funcionar como terreno de negociação, teste de linguagem e alinhamento prévio para decisões posteriores. Nesse sentido, a rodada em Nova Délhi serviu para organizar pautas, medir convergências e reduzir atritos em temas delicados, como guerras, reforma da ordem internacional e mecanismos de cooperação econômica.

No caso específico da relação com a Índia, há um pano de fundo econômico importante. Mauro Vieira já havia citado, em outra ocasião, tratativas para ampliar o acordo de comércio preferencial entre Mercosul e Índia, hoje considerado limitado em cobertura tarifária. Esse histórico ajuda a explicar por que a presença brasileira em Nova Délhi foi observada também sob a ótica comercial, embora não haja confirmação pública, nas fontes consultadas, de assinatura de novo acordo Brasil-Índia nesses dois dias.

O que a agenda sinaliza para o Brasil

BRICS funcionou, para o Brasil, como vitrine de uma diplomacia voltada à reforma da governança global e à defesa de maior espaço para emergentes nas instituições internacionais. A presença de Mauro Vieira e suas bilaterais sugerem uma estratégia de equilíbrio: manter canais com países de perfis muito distintos e, ao mesmo tempo, buscar convergência mínima do bloco em torno de temas multilaterais.

Há também uma dimensão prática. Ao priorizar energia, finanças, logística e sustentabilidade, o bloco tenta converter discurso político em áreas concretas de cooperação. Para o Brasil, isso interessa porque combina objetivos tradicionais da política externa, como multilateralismo e reforma institucional, com agendas econômicas que podem ganhar tração ao longo da presidência indiana.

Em Nova Délhi, portanto, o saldo imediato foi menos o de anúncios espetaculares e mais o de construção diplomática. O encontro dos dias 14 e 15 reforçou o papel do BRICS como espaço de articulação política do Sul Global e mostrou o Brasil atuando para preservar diálogo, ampliar interlocução bilateral e preparar disputas maiores que chegarão à mesa da cúpula de líderes.

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