Boulevard São João volta ao centro do debate após o fim da consulta pública on-line, que reuniu milhares de respostas sobre o futuro do cruzamento mais famoso de São Paulo. Os dados das perguntas fechadas e abertas mostram uma população majoritariamente crítica aos painéis de LED, cansada da falta de zeladoria e que cobra prioridades mais básicas para o centro histórico.
Quem respondeu à consulta?
As respostas fechadas indicam que a maior parte de quem participou do debate sobre o Boulevard São João se declara frequentador ocasional da área central. Na pergunta “Qual a sua relação com a área de análise?”, 63,4% marcaram “frequentador ocasional”, 19,8% se assumiram moradores, 11,6% trabalhadores da região e 5,2% escolheram “outro”.
Em outra questão, sobre uso para lazer e permanência, metade dos respondentes disse usar o perímetro “às vezes”, 34,6% afirmaram frequentá-lo “com frequência” e apenas 15,4% declararam não utilizar o local para esse tipo de atividade. Ou seja, o debate sobre o Boulevard São João foi puxado por quem conhece o centro no cotidiano, seja morando, trabalhando ou circulando ali com alguma regularidade.
Como os participantes enxergam o centro hoje
Antes de entrar diretamente no Boulevard São João, a consulta avaliou as condições atuais do espaço público na região. Os resultados apontam um cenário de forte insatisfação com calçadas, acessibilidade, ruído, áreas verdes e mobiliário urbano, o que ajuda a explicar a resistência a um projeto centrado em telões luminosos.
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Entre 274 respostas sobre as calçadas, 55,1% se declararam insatisfeitas (ruim ou péssimo), 35% avaliaram como “regular” e só 9,9% disseram estar satisfeitas. Na análise das áreas verdes, 66% consideraram a condição e a oferta “ruim” ou “péssima”, 26,6% “regular” e apenas 7,3% disseram estar satisfeitos.
A acessibilidade para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida foi outro ponto crítico: 65,9% insatisfeitos, 26,8% neutros e só 7,3% satisfeitos. O nível de ruído teve o pior resultado: 69,5% classificaram como “ruim” ou “péssimo”, 23% como “regular” e 7,4% como “bom” ou “ótimo”.
Mesmo a iluminação pública, em tese um dos pilares da proposta do Boulevard São João, aparece com saldo negativo. Na pergunta sobre iluminação de ruas e calçadas, 45,1% se disseram insatisfeitos, 40,8% avaliaram como “regular” e só 14,2% declararam satisfação.
A única dimensão onde há maioria de satisfeitos é a integração entre transporte público e circulação de pedestres: 48,6% satisfeitos, 31,5% neutros e 19,8% insatisfeitos.
Esse quadro sugere que, para quem respondeu à consulta, o centro precisa primeiro de calçadas arrumadas, menos barulho, mais verde e acessibilidade antes de ganhar grandes telas digitais.
O que a pergunta sobre as telas revelou
A pergunta mais próxima do coração do projeto Boulevard São João foi formulada assim: “Você gostaria que esta área de análise tivesse informações visuais dinâmicas e conteúdo cultural? Se sim, de que forma?”. Foram 247 respostas abertas, com opiniões que vão de um “sim” entusiasmado a um “não” taxativo, passando por sugestões intermediárias, como projeções discretas ou apenas conteúdo artístico, sem publicidade.
Ao analisar o conjunto, cerca de 31,2% das respostas foram classificadas como favoráveis à ideia geral de ter algum tipo de informação visual dinâmica e conteúdo cultural nessa área. Outros 23,5% se posicionaram claramente contra, enquanto 45,3% usaram o espaço para comentar o projeto de forma mais complexa, sem declarar apoio ou rejeição de maneira direta.
Entre as respostas que respondem de forma objetiva “sim” ou “não” à ideia, há uma leve vantagem dos que veem com bons olhos algum tipo de intervenção visual, desde que com forte recorte cultural.
Mas muitos desses mesmos participantes fazem ressalvas firmes aos painéis de LED de grande porte propostos para o Boulevard São João.
Quando a discussão vira painéis de led
Quando se olha apenas para as respostas que mencionam explicitamente “LED” ou “painéis de LED”, o tom muda e o projeto Boulevard São João passa a ser visto com bem mais desconfiança. Ao todo, 173 comentários abertos citam diretamente os telões, e boa parte deles repete expressões como “poluição visual”, “retrocesso” e “ameaça à Lei Cidade Limpa”.
Pelo menos 48% desses textos foram classificados como claramente contrários à instalação dos painéis, enquanto apenas 11,6% defendem a proposta de forma inequívoca; o restante discute o tema com críticas e ressalvas que muitas vezes apontam na mesma direção da rejeição, mas sem usar frases-chaves padronizadas.
Somente 11,6% se declaram a favor do projeto
Um recorte qualitativo desses comentários mostra que a palavra “Times Square paulistana”, popularizada na imprensa para descrever o Boulevard São João, costuma aparecer em tom irônico ou crítico, associada à ideia de cópia cafona de um modelo estrangeiro.
Moradores relatam preocupação com a luz invadindo janelas de apartamentos, com a descaracterização de fachadas históricas e com o risco de que, na prática, o espaço cultural previsto nos telões acabe sendo ocupado por publicidade de apostas on-line e grandes marcas. Há também o medo de que a flexibilização pontual da Lei Cidade Limpa no eixo do Boulevard São João abra precedentes para a volta de grandes anúncios em outras regiões da cidade.
Mesmo quem admite algum interesse em ver a esquina da São João com a Ipiranga “mais viva” questiona se isso precisa passar necessariamente por quatro telas gigantes voltadas para consumo.
O que os participantes pedem no lugar dos telões
As respostas abertas também ajudam a desenhar o que esses moradores e frequentadores gostariam de ver no Boulevard São João em vez dos grandes painéis digitais. Várias mensagens pedem mais árvores em calçadas e praças, jardins de chuva para amenizar calor e alagamentos e maior cuidado com as áreas verdes já existentes. Outras insistem em banheiros públicos de qualidade, calçadas planas e acessíveis, menos faixas para carros e mais espaço para pedestres, ciclistas e transporte coletivo de superfície, como um futuro VLT.
Também aparecem sugestões de mais teatros de rua, cinemas de bairro, feiras gastronômicas populares, arte urbana e programação cultural permanente que não dependa da lógica dos grandes shows patrocinados.
Um fio comum é a defesa de que o Boulevard São João aproveite a arquitetura já existente e o comércio de rua, em vez de tentar importar a lógica de uma “Times Square” tropicalizada. Há preocupação explícita com gentrificação: parte dos respondentes teme que a valorização acelerada em torno dos painéis acabe expulsando comércio popular e moradores de baixa renda que hoje dão vida ao centro.
A sensação de abandono social também surge com força, com perguntas diretas sobre o que será feito em relação à população em situação de rua, tema pouco detalhado na apresentação oficial do projeto.
Prefeitura mantém o projeto Boulevard São João
Enquanto as críticas se acumularam na consulta, o projeto Boulevard São João avançou nos órgãos técnicos da própria Prefeitura de São Paulo. Antes mesmo do fim da participação popular, o termo de cooperação já havia sido aprovado pelo Conpresp, conselho de preservação do patrimônio, e pela Comissão de Proteção à Paisagem Urbana (CPPU), guardiã da Lei Cidade Limpa.
O acordo prevê a instalação de quatro painéis de LED de grande porte em edifícios do eixo São João–Ipiranga e uma projeção mapeada na empena do Edifício Independência II, onde fica o Bar Brahma. Como contrapartida, a empresa responsável se compromete a investir cerca de R$ 6 milhões em restauro de monumentos, recuperação de fachadas históricas e melhoria de calçadas e mobiliário urbano ao longo de três anos.
Pelas regras definidas pela CPPU, 70% do tempo de exibição dos telões deverá ser destinado a conteúdo cultural e informações de utilidade pública, e até 30% poderá mostrar a identificação institucional dos patrocinadores. Estão vetadas propagandas de varejo, apostas, conteúdo adulto, violência e mensagens político-religiosas, e os painéis só poderão funcionar entre 5h e 23h.
A Prefeitura de São Paulo segue apresentando o Boulevard São João como “iniciativa estratégica de requalificação urbana e ativação tecnológica” no centro, em parceria com a iniciativa privada e sem custo direto para os cofres municipais.
Na Câmara Municipal, o tema já motivou a convocação de audiência pública pela Comissão de Política Urbana, que pretende ouvir técnicos, empresários e representantes da sociedade civil sobre o projeto.
Uma disputa que vai além do cruzamento famoso
Com o fim da consulta no Participe+, o Boulevard São João deixa de ser apenas um desenho e passa a ser um termômetro de como São Paulo negocia sua própria imagem. Os números mostram um centro visto, ao mesmo tempo, como espaço de enorme potencial e grande frustração, onde a maioria dos participantes se diz insatisfeita com o básico — calçadas, ruído, acessibilidade, áreas verdes e zeladoria.
Nas respostas sobre telas e painéis, a população parece dizer que topa discutir novas formas de iluminação, arte e conteúdo cultural, mas resiste à ideia de fazer isso por meio de telões associados à publicidade em um lugar onde a Lei Cidade Limpa virou símbolo de uma conquista coletiva. Ao avançar com o termo de cooperação, o poder público indica que pretende seguir adiante com o Boulevard São João, mesmo diante de uma consulta em que o entusiasmo com os telões está longe de ser consenso.
Se as obras começarem nos próximos meses, como desejam os defensores do projeto, os painéis de LED vão se tornar parte da paisagem. Mas os arquivos da consulta pública deixam um registro detalhado das preocupações de quem vive e circula ali, e tendem a alimentar novos embates sobre qual deve ser o próximo capítulo do centro histórico de São Paulo.

