Trump cobra Brasil, mas armas dos EUA alimentam o crime

por Maria Gabriela Portugal
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EUA cobram Brasil por narcotráfico, mas armas americanas alimentam o crime

Trump aumenta pressão sobre facções brasileiras enquanto tráfico de armas a partir dos Estados Unidos expõe outra face do problema

O governo de Donald Trump aumentou a pressão sobre o Brasil no combate ao narcotráfico, colocando o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) no centro de sua política de segurança para a região. O discurso americano, porém, convive com uma contradição: os próprios Estados Unidos também aparecem como origem de armas e componentes desviados ilegalmente para o Brasil.

Em documento encaminhado ao Congresso americano em setembro, Trump afirmou que o governo brasileiro não conseguiu enfrentar adequadamente PCC e CV e declarou que as organizações transformaram o Brasil em um centro relevante para os fluxos internacionais de cocaína.

Há uma ressalva importante: apesar da crítica, o Brasil não foi colocado pelos Estados Unidos entre os principais países produtores ou de trânsito de drogas na lista correspondente ao ano fiscal de 2027.

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A ofensiva americana contra as facções brasileiras não se limita ao discurso. O Departamento do Tesouro sancionou brasileiros e empresas acusados de integrar uma rede ligada ao PCC e afirmou que integrantes da organização atuam nos próprios Estados Unidos, particularmente na Flórida, utilizando o sistema financeiro americano para lavar recursos provenientes do narcotráfico.

Washington, portanto, possui razões de segurança interna para acompanhar a expansão internacional das facções brasileiras.

Mas existe o outro lado dessa rota.

Em março deste ano, o próprio Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou a condenação de um brasileiro envolvido em um esquema para contrabandear componentes de armas automáticas dos EUA para o Brasil. Segundo as autoridades americanas, as peças seriam escondidas em remessas aparentemente legais e poderiam posteriormente ser utilizadas na montagem de armamento automático.

O episódio demonstra que o fluxo criminoso não acontece em apenas uma direção. Enquanto drogas e recursos ilícitos atravessam fronteiras em direção ao mercado internacional, armas e componentes adquiridos ou desviados nos Estados Unidos também podem seguir o caminho inverso.

Essa realidade torna mais complexa a cobrança de Washington sobre Brasília. O combate ao crime organizado transnacional depende tanto de impedir a saída da cocaína da América Latina quanto de bloquear armas, dinheiro e outros recursos utilizados pelas organizações criminosas.

O governo brasileiro rejeitou a avaliação de Trump de que o país não estaria enfrentando adequadamente as facções. No mesmo dia em que a crítica americana ganhou repercussão, a Polícia Federal informou uma grande operação integrada em 19 estados, com 106 mandados de prisão e 173 de busca e apreensão contra tráfico de drogas, tráfico de armas, lavagem de dinheiro e organizações criminosas.

A controvérsia ganha dimensão ainda maior porque ocorre durante um período de forte tensão entre os dois países.

Desde 2025, o governo Trump adotou medidas econômicas diretamente contra o Brasil. A Casa Branca chegou a declarar uma emergência nacional relacionada a determinadas ações do governo brasileiro e estabeleceu tarifas adicionais de 40% sobre diversos produtos.

Na justificativa oficial, Washington não tratou apenas de comércio. A Casa Branca mencionou explicitamente Jair Bolsonaro, decisões do Judiciário brasileiro e conflitos envolvendo liberdade de expressão e empresas americanas.

Isso significa que a atual pressão americana sobre o Brasil não pode ser compreendida exclusivamente pela questão das drogas. Comércio, tecnologia, política externa, decisões judiciais, segurança e crime organizado passaram a ocupar simultaneamente a relação entre os dois países.

É nesse contexto que o recente alerta atribuído à Agência Brasileira de Inteligência (Abin) ganha importância. Segundo reportagens sobre um relatório reservado enviado ao governo e ao Tribunal Superior Eleitoral, a agência identifica uma tendência de aumento da pressão americana sobre o Brasil no período eleitoral.

Isso não comprova que o combate ao narcotráfico esteja sendo utilizado por Trump como pretexto para interferir nas eleições brasileiras. As evidências públicas disponíveis não permitem chegar a essa conclusão.

Mas a coincidência entre o endurecimento do discurso sobre PCC e CV, sanções financeiras, disputas comerciais e outras pressões sobre o Brasil torna legítimo perguntar quais objetivos de segurança, econômicos e geopolíticos estão presentes na estratégia de Washington.

O narcotráfico é um problema transnacional. Cocaína, armas, dinheiro e organizações criminosas atravessam fronteiras e utilizam estruturas existentes em diferentes países.

Por isso, responsabilizar apenas um lado da rota oferece uma visão incompleta.

Se Washington considera o PCC e o Comando Vermelho ameaças à sua própria segurança nacional, o combate efetivo às organizações exige também enfrentar aquilo que acontece dentro do território americano: lavagem de dinheiro, mercado ilegal de armas, contrabando e redes que permitem que recursos cheguem às organizações criminosas.

A questão, portanto, não é apenas por que Trump está preocupado com o narcotráfico brasileiro.

É também até onde os Estados Unidos estão dispostos a enfrentar a parte americana do mesmo problema.

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