Maior produtor de ouro da América Central, a Nicarágua usa a mineração para sustentar o regime autoritário de Ortega, driblar sanções internacionais e aprofundar seu isolamento político.
O ouro que sustenta o poder
Maior produtor de ouro da América Central, a Nicarágua transformou o metal precioso em um dos principais pilares financeiros do regime de Daniel Ortega, no poder há cerca de 20 anos. Em 2024, o setor aurífero movimentou aproximadamente US$ 1 bilhão, tornando-se a principal fonte de divisas do país.
Embora grande parte das mineradoras que atuam no território nicaraguense seja de origem canadense e britânica, cerca de 80% do ouro produzido é vendido aos Estados Unidos, expondo uma contradição central: o mesmo mercado que aplica sanções ao regime segue como destino majoritário do produto que o financia.
É justamente por isso que Washington passou a considerar sanções específicas contra o ouro, na tentativa de asfixiar financeiramente a ditadura e pressionar o governo a adotar padrões mínimos reconhecidos internacionalmente como democráticos.
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Duas décadas de poder concentrado
Daniel Ortega governou a Nicarágua entre 1979 e 1990, retornando ao cargo em 2006. Desde então, foi reeleito sucessivamente em 2011, 2016 e 2021, esta última em um pleito não reconhecido pela maior parte da comunidade internacional.
Antes da eleição de 2021, o governo prendeu ao menos sete candidatos da oposição, eliminando qualquer disputa real. Ortega governa hoje ao lado da esposa, Rosario Murillo, que ocupa o cargo de vice-presidente, consolidando um modelo de poder familiar e autoritário.
Desde as grandes manifestações de 2018, reprimidas com violência pelo Estado, Estados Unidos e União Europeia vêm ampliando sanções econômicas e diplomáticas contra o país.
A repressão à Igreja Católica
Um dos aspectos mais visíveis da repressão interna é a perseguição à Igreja Católica. Durante os protestos, templos religiosos serviram como abrigo para manifestantes e líderes da oposição, o que transformou a Igreja em alvo direto do regime.
Padres e bispos foram presos, expulsos ou perseguidos, enquanto ONGs, rádios comunitárias e instituições ligadas à Igreja foram fechadas ou forçadas a deixar o país. O governo enxerga a atuação religiosa como uma ameaça política, sobretudo por sua defesa de direitos humanos e acolhimento a perseguidos.
Da Teologia da Libertação ao conflito aberto
A ruptura entre Ortega e a Igreja é especialmente simbólica. Durante as décadas de 1970 e 1980, setores da Igreja Católica, inspirados pela Teologia da Libertação, tiveram papel relevante no apoio à Revolução Sandinista, liderada pela Frente Sandinista de Libertação Nacional.
Ironia histórica: o mesmo líder que emergiu combatendo uma ditadura hoje reprime instituições que antes foram suas aliadas. Com o fim da Guerra Fria e a dissolução da União Soviética, a Nicarágua perdeu apoio internacional, e Ortega só retornou ao protagonismo político anos depois, já em um contexto regional diferente.
Censura e controle da informação
A Nicarágua vive hoje sob censura sistemática dos meios de comunicação. Leis recentes impuseram controle prévio de conteúdo, exigindo autorização governamental para qualquer produção audiovisual.
Veículos internacionais, como a CNN, foram atingidos. Atualmente, restam apenas dois canais independentes no país, enquanto os principais meios de comunicação migraram para o exílio.
Alinhamento com a Rússia
No cenário internacional, a Nicarágua se isolou ainda mais ao aprofundar laços com a Rússia. O país foi o único da América Latina a votar contra a resolução do Conselho de Segurança da ONU que condenou a invasão da Ucrânia.
A relação entre Manágua e Moscou remonta à Guerra Fria e inclui presença militar russa no território nicaraguense, reforçando a percepção de alinhamento estratégico fora do eixo ocidental e contribuindo para o isolamento diplomático.
Êxodo em massa
O resultado desse cenário é um êxodo crescente. Estima-se que mais de 100 mil nicaraguenses já vivam fora do país. Apenas em 2024, mais de 150 mil entraram nos EUA pela fronteira com o México, pressionando sistemas migratórios e gerando impactos regionais.
A crise nicaraguense, portanto, deixou de ser apenas interna. Tornou-se um problema humanitário, econômico e geopolítico, cujos efeitos se espalham por toda a comunidade internacional.

