Eleições em Israel: Netanyahu enfrenta teste decisivo

por Maria Gabriela Portugal
0 comentários 17 vistas

Eleições em Israel: Netanyahu enfrenta teste decisivo após anos de guerra.

Israel realiza nesta terça-feira, eleições gerais para escolher os 120 integrantes do Knesset, o Parlamento nacional, em uma votação que pode redefinir o futuro político do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. A disputa ocorre após três anos marcados pelas consequências dos ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, pela guerra em Gaza e pela ampliação das tensões militares no Oriente Médio.

Com aproximadamente 7,33 milhões de eleitores registrados, o país volta às urnas para decidir não apenas quais partidos ocuparão o Legislativo, mas também quais forças terão condições de formar o próximo governo. Netanyahu, líder do Likud e uma das figuras mais longevas da política israelense, enfrenta adversários que associam sua permanência no poder às falhas de segurança de 2023 e às controvérsias acumuladas durante os conflitos.

A votação, entretanto, não funciona como uma eleição presidencial. O resultado dependerá da distribuição das cadeiras parlamentares e da capacidade dos partidos de negociar uma coalizão. Por isso, mesmo uma eventual derrota do Likud em número de votos ou assentos não determina, isoladamente, quem será o próximo primeiro-ministro.

Publicidade

Uma eleição marcada pelo trauma de 7 de outubro

Os ataques de 7 de outubro de 2023 transformaram a segurança nacional no centro da política israelense. A ofensiva liderada pelo Hamas matou cerca de 1.200 pessoas em Israel, segundo números amplamente divulgados por autoridades israelenses e veículos internacionais, e levou ao sequestro de centenas de pessoas. A resposta militar israelense desencadeou uma guerra devastadora na Faixa de Gaza e contribuiu para uma escalada regional que envolveu outros atores e frentes de conflito.

O governo Netanyahu sustentou que a campanha militar era necessária para enfraquecer o Hamas e impedir novos ataques. Seus críticos, por outro lado, questionam a capacidade do governo de prevenir a ofensiva, a condução da guerra, os custos humanos e diplomáticos e a ausência de responsabilização política considerada suficiente pelos opositores.

A eleição coloca essas interpretações em confronto. Para parte do eleitorado, a experiência de guerra reforça a necessidade de uma liderança que projete força e continuidade. Para outros, a dimensão da falha de segurança e o prolongamento das crises indicam que o país precisa de uma mudança de comando.

O debate eleitoral também ocorre em meio a divergências sobre o serviço militar obrigatório, a relação entre religião e Estado, a independência do Judiciário e a situação dos palestinos. Esses assuntos atravessam a sociedade israelense e tornam a escolha dos partidos mais complexa do que uma simples avaliação de desempenho econômico ou militar.

Netanyahu e Gadi Eisenkot concentram a disputa

Benjamin Netanyahu disputa a continuidade de sua liderança à frente do Likud, partido de direita que ocupa posição central na política israelense. Sua trajetória combina períodos prolongados no poder, capacidade de articulação parlamentar e uma imagem internacional fortemente associada à política de segurança do país.

A campanha do primeiro-ministro procura valorizar sua experiência em conflitos e sua relação com os Estados Unidos. Seus apoiadores argumentam que Israel precisa de uma liderança experiente diante das ameaças regionais. Os adversários, no entanto, afirmam que a experiência acumulada não elimina a responsabilidade do governo pelos acontecimentos de outubro de 2023 nem pelas decisões tomadas desde então.

Um dos principais concorrentes é Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel e líder do partido centrista Yashar. Sua trajetória militar lhe permite disputar credibilidade na área de segurança, ao mesmo tempo que apresenta uma alternativa política a Netanyahu. Eisenkot perdeu um filho durante a guerra em Gaza, experiência que também integra a percepção pública de sua trajetória.

A oposição, contudo, não se resume a Eisenkot. Naftali Bennett e Yair Lapid articulam uma alternativa conjunta, enquanto outras forças, como os Democratas e o Yisrael Beiteinu, tentam conquistar espaço entre eleitores insatisfeitos com o governo. Essas organizações não compartilham necessariamente a mesma visão sobre todas as questões, o que pode dificultar a formação de uma coalizão estável.

Do outro lado, Netanyahu depende da relação com partidos religiosos e de direita nacionalista. Entre eles estão o Otzma Yehudit, associado a Itamar Ben-Gvir, e o partido do Sionismo Religioso, liderado por Bezalel Smotrich, além das legendas ultraortodoxas Shas e Judaísmo Unido da Torá.

Essa dependência pode ampliar o poder de negociação dos aliados menores. Mesmo que o Likud tenha o melhor desempenho individual, as exigências desses partidos em temas como religião, assentamentos, segurança e serviço militar podem determinar as condições de governabilidade.

Por que o sistema eleitoral israelense torna o resultado imprevisível

Israel adota um sistema parlamentar de representação proporcional. Os eleitores votam em listas partidárias nacionais, e as 120 cadeiras do Knesset são distribuídas conforme o desempenho eleitoral das listas que superam a cláusula de barreira.

Para conquistar representação parlamentar, uma lista precisa obter pelo menos 3,25% dos votos válidos. A regra torna a disputa pelos últimos pontos percentuais especialmente importante: uma legenda próxima do limite pode conquistar várias cadeiras ou ficar completamente fora do Parlamento.

Nenhum partido israelense conquistou sozinho uma maioria absoluta no Knesset. Para governar, uma aliança precisa reunir o apoio de pelo menos 61 dos 120 parlamentares. Isso significa que a maior legenda não necessariamente será capaz de formar o governo, enquanto partidos menores podem exercer influência desproporcional ao seu número de votos.

As pesquisas divulgadas antes da votação apontaram uma disputa competitiva e divergiram quanto à distribuição das cadeiras entre os blocos. A tendência geral não oferecia uma garantia clara de que Netanyahu ou seus adversários conseguiriam reunir uma maioria parlamentar funcional.

As sondagens, porém, não são resultados eleitorais. Elas dependem de amostras, metodologias, participação estimada e desempenho dos partidos menores. O comparecimento efetivo e a quantidade de listas que ultrapassarem a cláusula de barreira poderão modificar a distribuição final das cadeiras.

O peso dos partidos árabes e dos eleitores indecisos

Os partidos que representam parte importante dos cidadãos árabes de Israel também podem influenciar o equilíbrio parlamentar. A população árabe-israelense corresponde a uma parcela significativa da sociedade, mas suas preferências eleitorais são diversas e não se traduzem automaticamente em apoio a uma única legenda ou estratégia política.

A Lista Conjunta e a Ra’am estão entre as forças que buscam representar eleitores árabes, com diferenças de orientação e de relacionamento com os partidos sionistas. Questões como segurança cotidiana, combate à criminalidade, igualdade de direitos, moradia e serviços públicos têm peso particular para essas comunidades.

A participação eleitoral desse segmento pode alterar o resultado, sobretudo se a disputa entre os blocos tradicionais terminar apertada. Ainda assim, a possibilidade de esses partidos integrarem uma coalizão depende das posições dos demais grupos e da disposição de seus líderes para negociar.

Os eleitores indecisos e as legendas próximas da cláusula de barreira também merecem atenção. Em uma eleição fragmentada, pequenas variações podem modificar a composição do Parlamento e, por consequência, a capacidade de cada campo político de alcançar os 61 assentos necessários.

Guerra, serviço militar e instituições no centro do debate

A segurança continua sendo um dos temas dominantes, mas a discussão não se limita à condução das operações militares. A guerra trouxe consequências humanas, econômicas e diplomáticas, enquanto a sociedade debate como distribuir os custos do serviço militar e quais responsabilidades devem ser atribuídas aos dirigentes políticos e militares.

A isenção ou o adiamento do serviço militar para parte dos homens ultraortodoxos tornou-se um dos pontos de atrito entre partidos religiosos e setores que defendem obrigações mais equitativas. O assunto tem potencial para afetar diretamente a estabilidade de qualquer coalizão, pois envolve compromissos políticos importantes para os partidos que tradicionalmente apoiam governos de direita.

Outro eixo é a relação entre o Executivo, o Judiciário e os mecanismos de controle institucional. As controvérsias sobre reformas judiciais e independência das instituições alimentaram manifestações e aprofundaram divisões internas. Para os críticos de Netanyahu, a questão envolve os limites do poder governamental; para seus apoiadores, envolve a legitimidade de alterar estruturas institucionais por meio da política parlamentar.

A situação dos palestinos também permanece decisiva, embora a campanha tenha dedicado atenção limitada a algumas questões humanitárias e ao futuro político de Gaza. O próximo governo terá de lidar com as consequências da guerra, com a pressão internacional e com decisões sobre segurança, reconstrução, governança e perspectivas de negociação regional.

Relações com os Estados Unidos e impacto no Oriente Médio

O resultado israelense será acompanhado de perto em Washington e nas capitais do Oriente Médio. Os Estados Unidos são o principal aliado estratégico de Israel, com cooperação militar, diplomática e tecnológica. A relação bilateral, contudo, não elimina divergências sobre a condução dos conflitos, a proteção de civis e os objetivos políticos de longo prazo.

Uma mudança de governo poderia alterar o tom diplomático e a forma de negociar com aliados e parceiros regionais, mas não significaria automaticamente uma transformação das prioridades de segurança israelenses. Eisenkot e outros adversários de Netanyahu também possuem trajetórias e posições firmes em questões de defesa, ainda que apresentem diferenças sobre a condução política do país.

Para os palestinos, a eleição poderá influenciar decisões sobre Gaza, a Cisjordânia, a circulação de pessoas e bens e o futuro de qualquer processo político. Para países árabes que mantêm ou buscam relações com Israel, o comportamento do próximo governo será relevante para a normalização diplomática e a cooperação regional.

O Brasil também tem interesse nos desdobramentos. A guerra e as tensões no Oriente Médio afetam a diplomacia brasileira, a atuação em organismos multilaterais, a proteção de cidadãos na região e a estabilidade de mercados estratégicos. Os efeitos econômicos, como os relacionados a energia e transporte internacional, dependerão sobretudo da evolução concreta dos conflitos e das rotas comerciais, não apenas da identidade do vencedor eleitoral.

Quando saem os resultados e o que acontece depois

A votação ocorre nesta terça-feira, 27 de outubro, com a maioria das seções eleitorais funcionando das 7h às 22h no horário local. No início do dia, não há resultado oficial que permita declarar um vencedor. As pesquisas de boca de urna divulgadas após o encerramento podem oferecer uma primeira indicação, mas não substituem a contagem oficial.

A apuração das cédulas e a distribuição provisória das cadeiras poderão avançar durante a noite e nos dias seguintes. A Comissão Eleitoral Central prevê a publicação dos resultados finais até 4 de novembro, prazo que permite conferir os votos e concluir os procedimentos legais.

Depois da apuração, o presidente Isaac Herzog consultará representantes dos partidos e encarregará o parlamentar que considerar mais bem posicionado de tentar formar um governo. O indicado poderá dispor de até 42 dias para construir uma coalizão. Se não conseguir, outro candidato poderá receber a oportunidade, conforme as regras institucionais.

O processo pode resultar em negociações prolongadas, concessões a partidos menores ou até na necessidade de novas eleições, caso não se forme uma maioria capaz de sustentar um governo. Portanto, a noite eleitoral não encerra necessariamente a disputa pelo poder.

A votação de 2026 representa um teste político para Netanyahu depois de um período extraordinário de guerra e controvérsia. Mas a pergunta decisiva não é apenas qual partido terminará em primeiro lugar. Será necessário observar quem consegue reunir 61 parlamentares, quais compromissos serão assumidos e se a coalizão resultante terá condições de responder às questões de segurança, governança e relações internacionais que dividem Israel.

Este site utiliza cookies para melhorar a sua experiência. Assumiremos que você concorda com isso, mas você pode optar por não aceitar, se desejar. Aceitar Leia mais

Adblock Detectado

Por favor, nos apoie desativando a extensão AdBlocker do seu navegador para o nosso site.