Economia sob pressão: Brasil e mundo hoje e após as eleições

por Marco Antonio Portugal
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A economia brasileira e mundial atravessa uma combinação de turbulências que vai muito além da disputa presidencial no Brasil. Enquanto o noticiário nacional concentra as atenções no segundo turno de 25 de outubro, os mercados financeiros enfrentam uma nova escalada do petróleo, tensões geopolíticas, dúvidas sobre os juros internacionais e sinais de enfraquecimento de importantes setores da economia global.

Na Bolsa de São Paulo, a volatilidade ganhou força. O Ibovespa encerrou quarta-feira, 21 de outubro, aos 206.495 pontos, em queda de 0,86%, e voltou a recuar na abertura desta quinta-feira. O dólar retomou a faixa dos R$ 5,04, enquanto o petróleo Brent ultrapassou US$ 112 por barril. No exterior, bolsas asiáticas e europeias também registraram perdas, e o ouro caiu para seus menores níveis em mais de dois meses.

Os movimentos não indicam necessariamente uma crise financeira generalizada, mas revelam um ambiente no qual riscos políticos, inflação e expectativas de crescimento passaram a influenciar simultaneamente as decisões dos investidores. A eleição brasileira pode provocar uma reação expressiva na próxima semana. Entretanto, o resultado das urnas não eliminará os problemas internacionais que hoje pressionam ações, moedas e commodities.

Bolsa brasileira: a queda das ações tem causas diferentes

O comportamento recente da B3 precisa ser analisado a partir de um dado importante: a Bolsa brasileira não vinha de um período exclusivamente negativo. Pelo contrário, registrou uma valorização excepcional depois do primeiro turno, em 4 de outubro.

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Na sessão seguinte à votação, o Ibovespa avançou mais de 7% e ultrapassou pela primeira vez os 200 mil pontos. O movimento refletiu principalmente expectativas de investidores sobre uma possível mudança na condução da política econômica.

Parte dessa valorização estava relacionada à percepção de que uma vitória de Flávio Bolsonaro poderia favorecer reformas fiscais, maior disciplina nos gastos públicos e uma trajetória de redução dos juros. Tratava-se, porém, de uma expectativa de mercado, não de um resultado econômico já assegurado.

À medida que novas pesquisas passaram a indicar uma disputa mais apertada com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os investidores começaram a reduzir posições e ampliar mecanismos de proteção.

A pesquisa Quaest divulgada em 21 de outubro mostrou Flávio Bolsonaro com 45% e Lula com 44% das intenções de voto, configurando empate técnico. A diferença foi suficiente para aumentar a incerteza sobre o cenário que vinha sendo incorporado aos preços dos ativos.

Além da eleição, cada empresa enfrenta condições próprias.

A Vale, por exemplo, perdeu aproximadamente 2,15% na sessão de quarta-feira. A mineradora sofre com a deterioração das perspectivas para o minério de ferro, pressionado pela demanda chinesa e pelo aumento da oferta internacional.

Em outubro, contratos de minério negociados em Singapura chegaram a ficar abaixo de US$ 90 por tonelada, próximos dos menores níveis em mais de dois anos. Para uma companhia fortemente dependente das exportações dessa matéria-prima, a tendência afeta expectativas de receitas e margens.

A Embraer apresenta uma situação diferente. Suas ações acumularam oscilações relevantes durante o mês, mas subiram 1,11% em 21 de outubro, contrariando a queda do índice. A companhia depende de encomendas, entregas de aeronaves, condições de financiamento e perspectivas do transporte aéreo mundial. Além disso, suas receitas internacionais podem se beneficiar de um dólar mais valorizado.

Nos bancos, a preocupação envolve tanto a incerteza eleitoral quanto o crescimento econômico. Juros elevados podem favorecer determinadas operações financeiras, mas também encarecem o crédito, dificultam a expansão dos empréstimos e aumentam o risco de inadimplência.

O resultado é um mercado no qual ações de setores diferentes podem cair simultaneamente, embora por razões distintas.

Petróleo em alta: o principal risco externo para inflação e crescimento

O petróleo tornou-se um dos principais fatores de instabilidade da economia mundial.

Nesta quinta-feira, o Brent, referência internacional de preços, alcançou aproximadamente US$ 112 por barril, impulsionado por novos ataques à infraestrutura energética na Arábia Saudita e pelo agravamento das tensões no Oriente Médio.

Embora elevado, esse valor não representa um recorde histórico do Brent, que superou US$ 145 em 2008. O aspecto preocupante é a combinação entre preços persistentemente altos, interrupções no abastecimento e capacidade limitada de resposta dos produtores.

A guerra envolvendo o Irã e seus adversários afetou o transporte marítimo de petróleo e derivados pelo Golfo Pérsico, especialmente nas rotas próximas ao Estreito de Ormuz, passagem estratégica para o comércio energético internacional.

Segundo relatório divulgado em 14 de outubro pela Agência Internacional de Energia, os estoques mundiais observados de petróleo estavam, ao final de setembro, aproximadamente 509 milhões de barris abaixo dos níveis anteriores ao conflito.

A agência também identificou dificuldades particularmente graves no abastecimento de diesel. Em setembro, algumas referências internacionais desse combustível ultrapassaram US$ 200 por barril, atingindo níveis recordes.

O problema vai além do preço da gasolina

Diesel mais caro eleva despesas com transporte rodoviário, produção agrícola, navegação e distribuição de mercadorias. Esses custos podem chegar aos alimentos, produtos industrializados e serviços.

No Brasil, a Petrobras pode se beneficiar de preços internacionais elevados do petróleo bruto. Entretanto, esse efeito positivo sobre receitas e rentabilidade não significa necessariamente vantagem para toda a economia nacional.

O país produz e exporta petróleo, mas também está exposto aos custos internacionais dos combustíveis e às condições de oferta de derivados. Assim, uma valorização do barril pode melhorar resultados de determinadas empresas enquanto pressiona consumidores e setores produtivos.

A perspectiva de melhora depende fundamentalmente da segurança das rotas comerciais e da recuperação do fornecimento. A Agência Internacional de Energia prevê recomposição da oferta em 2027, mas alerta que novos ataques podem comprometer essa trajetória.

Estados Unidos, Europa e China ampliam a instabilidade global

A turbulência não está concentrada no mercado energético.

Nos Estados Unidos, investidores passaram a questionar o ritmo e a rentabilidade dos investimentos bilionários em inteligência artificial.

A divulgação dos resultados da Meta reacendeu preocupações sobre o volume de capital comprometido pelas grandes empresas de tecnologia. O movimento atingiu fabricantes de semicondutores e companhias industriais relacionadas à infraestrutura digital.

Na quinta-feira, o índice MSCI All-World, que acompanha ações de diferentes mercados, recuava aproximadamente 0,4%. Na Europa, o STOXX 600 apresentava queda próxima de 0,7%.

Outro foco de instabilidade está nas contas públicas europeias. Na França, os juros exigidos pelos investidores para financiar a dívida pública de dez anos ultrapassaram 5%, diante de preocupações com gastos governamentais e instabilidade política. O rendimento desses títulos chegou a superar o equivalente norte-americano, situação incomum nos últimos anos.

Na Ásia, a China continua sendo determinante para o comércio internacional. A economia chinesa cresceu 4,5% no terceiro trimestre em comparação com o mesmo período do ano anterior, mas o desempenho das exportações contrasta com fragilidades da demanda interna e da atividade imobiliária.

Para o Brasil, isso tem consequências diretas. Menor consumo de aço pela economia chinesa reduz o potencial de valorização do minério de ferro, afetando empresas exportadoras como a Vale.

Ao mesmo tempo, a expansão da oferta de minério, inclusive a partir de novos projetos na África, aumenta a competição internacional.

Essa combinação ajuda a explicar por que o petróleo pode subir intensamente enquanto o minério de ferro permanece pressionado.

Ouro em queda: por que o ativo de proteção também perdeu valor?

A desvalorização recente do ouro parece contraditória.

Tradicionalmente, investidores compram o metal precioso quando aumentam as incertezas políticas, os riscos de inflação ou as perspectivas de instabilidade financeira.

Entretanto, o ouro também é influenciado pelas taxas de juros. Em 22 de outubro, sua cotação internacional caiu para a região de US$ 4.070 a US$ 4.100 por onça-troy, atingindo os menores patamares desde agosto.

A explicação está principalmente na mudança das expectativas sobre a política monetária norte-americana.

Com o petróleo mais caro e indicadores recentes de inflação acima do esperado, investidores passaram a considerar a possibilidade de que o Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, mantenha juros elevados por mais tempo.

Como o ouro não paga juros ou dividendos, sua atratividade relativa diminui quando títulos públicos oferecem rendimentos elevados.

Isso não significa que o metal tenha perdido definitivamente sua função de proteção patrimonial. Significa apenas que diferentes riscos produzem efeitos conflitantes sobre sua cotação.

O comportamento do ouro também reforça uma característica da atual turbulência: não existe um movimento uniforme de transferência de recursos para um único ativo considerado seguro.

Parte dos investidores procura títulos públicos, outros reduzem exposição a ações, enquanto determinadas moedas recebem recursos. Essas decisões podem mudar rapidamente conforme surgem novas informações.

Economia brasileira enfrenta inflação persistente e crescimento mais fraco

A situação doméstica já apresentava dificuldades antes da recente deterioração internacional.

O Boletim Focus divulgado pelo Banco Central em 19 de outubro mostrou que o mercado financeiro espera inflação de 5,22% em 2026, acima do limite de tolerância de 4,5% estabelecido para a meta oficial.

Ao mesmo tempo, a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto foi reduzida de 1,85% para 1,83%.

Para 2027, a estimativa de expansão econômica caiu para apenas 1,32%, sinalizando preocupação com a capacidade de crescimento no próximo ano.

A taxa Selic permanece em 13,75% ao ano, enquanto o mercado projeta 13,25% no encerramento de 2026. Esses números mostram que o Brasil enfrenta simultaneamente inflação elevada, crédito caro e expectativa de atividade econômica moderada.

O problema fiscal também permanece central. Independentemente do vencedor da eleição, o próximo governo terá de administrar uma dívida pública elevada, despesas obrigatórias crescentes e pressão por investimentos e políticas sociais.

Uma política fiscal percebida como sustentável pode reduzir os juros exigidos pelos investidores para financiar o governo. Esse movimento tende a favorecer empresas, crédito e investimentos produtivos.

Por outro lado, promessas de expansão de despesas sem fontes consistentes de financiamento podem pressionar o dólar, os juros futuros e as expectativas de inflação.

A eleição definirá quem conduzirá essas decisões, mas não resolverá automaticamente seus efeitos.

Existe ainda uma variável externa importante: se o petróleo continuar subindo e a inflação internacional permanecer resistente, o Banco Central brasileiro poderá encontrar menos espaço para reduzir a Selic, mesmo diante da desaceleração da economia.

O que esperar da Bolsa e do dólar na semana após o segundo turno?

A semana de 26 a 30 de outubro reúne fatores capazes de provocar movimentos expressivos nos mercados brasileiros.

O primeiro será a reação ao resultado da eleição presidencial de domingo, 25 de outubro. O segundo virá do exterior, com a reunião do Federal Reserve nos dias 27 e 28 e a divulgação, em 29 de outubro, de novos dados de inflação dos Estados Unidos.

Além disso, empresas brasileiras importantes, incluindo a Vale e instituições financeiras, terão resultados trimestrais divulgados ao longo da semana.

Existem três cenários principais para o comportamento dos ativos nacionais.

O primeiro é uma valorização expressiva da Bolsa, acompanhada de recuo do dólar e dos juros futuros. Esse movimento poderá ocorrer caso o resultado eleitoral seja interpretado como favorável à consolidação fiscal e à formação de uma equipe econômica considerada confiável pelos investidores.

Uma vitória de Flávio Bolsonaro poderia inicialmente favorecer essa reação, considerando as expectativas incorporadas ao mercado desde o primeiro turno. Entretanto, parte desse otimismo já apareceu nos preços das ações, limitando a possibilidade de novas altas automáticas.

O segundo cenário é uma correção negativa dos ativos brasileiros. Uma reeleição de Lula poderá provocar vendas de investidores posicionados para uma alternância de governo, especialmente em empresas mais sensíveis aos juros e às expectativas fiscais.

A intensidade da reação, porém, dependerá também dos sinais transmitidos sobre política econômica, composição do governo e relacionamento com o Congresso.

Uma sinalização consistente de responsabilidade fiscal poderá reduzir eventuais perdas. Portanto, não seria correto interpretar qualquer resultado eleitoral como garantia de valorização ou desvalorização prolongada.

O terceiro cenário é a continuidade da volatilidade, independentemente do vencedor. Ele poderá prevalecer caso o petróleo permaneça elevado, a inflação norte-americana surpreenda negativamente ou o Federal Reserve reforce uma postura de juros altos.

Nesse caso, mesmo notícias consideradas favoráveis no Brasil poderão ser neutralizadas por movimentos internacionais.

A segunda-feira, 26 de outubro, tende a oferecer uma primeira indicação sobre a avaliação dos investidores. Entretanto, uma leitura mais consistente exigirá observar o comportamento conjunto do Ibovespa, do dólar, dos juros futuros e dos fluxos de capital estrangeiro durante vários pregões.

A próxima reunião do Comitê de Política Monetária brasileiro ocorrerá nos dias 3 e 4 de novembro. Até lá, as condições financeiras internacionais e as expectativas sobre o próximo governo serão decisivas para a trajetória dos juros.

Há perspectivas de melhora para a economia brasileira e mundial?

Apesar da deterioração recente dos mercados, as projeções internacionais não apontam necessariamente para uma recessão mundial.

No relatório de outubro, o Fundo Monetário Internacional estimou crescimento global de 3,1% em 2026 e de 3,4% em 2027.

A instituição também projetou inflação mundial de 4,7% neste ano, com desaceleração para 4,1% no próximo.

Essas estimativas sugerem que a economia internacional ainda apresenta capacidade de expansão, embora esteja sujeita a riscos elevados. O próprio FMI ressalta que novos conflitos, dificuldades fiscais e uma eventual reavaliação dos investimentos em inteligência artificial podem comprometer o cenário.

Uma estabilização do petróleo, associada à recuperação das cadeias de fornecimento e à redução das tensões internacionais, poderia aliviar a inflação e abrir espaço para políticas monetárias menos restritivas.

No Brasil, uma combinação de maior previsibilidade fiscal, redução sustentada da inflação e recuperação da demanda chinesa também poderia favorecer a Bolsa e o investimento produtivo.

Mas essas possibilidades exigem mudanças concretas nas condições econômicas. Não dependem exclusivamente do resultado eleitoral.

A principal conclusão é que a economia brasileira enfrenta dois movimentos simultâneos: uma transição política capaz de alterar expectativas sobre juros e contas públicas e um ambiente internacional que se tornou mais difícil.

A próxima semana poderá produzir fortes oscilações, inclusive uma recuperação significativa das ações brasileiras. Isso, contudo, não deve ser confundido com a solução dos problemas econômicos.

Mais importante do que a direção da Bolsa na primeira sessão após as eleições será observar se o novo cenário político consegue produzir confiança duradoura, enquanto petróleo, inflação e juros internacionais deixam de pressionar o crescimento.

O resultado das urnas poderá mudar o humor do mercado rapidamente. A recuperação sustentável da economia, por sua vez, dependerá de decisões e acontecimentos que ultrapassam o calendário eleitoral.

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