Alimentação saudável ainda pesa no orçamento dos brasileiros

por Maria Gabriela Portugal
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alimentos saudáveis

A alimentação saudável é reconhecida como um dos pilares da prevenção de doenças crônicas, mas o acesso a uma dieta equilibrada continua sendo um desafio econômico para milhões de brasileiros. A questão vai além das escolhas individuais: envolve renda, preços, distribuição de alimentos e condições de vida que determinam o que chega à mesa das famílias.

Segundo dados divulgados em 2026 pela Agência Brasil, com base em relatório das Nações Unidas, 44,8 milhões de brasileiros não tinham condições financeiras de arcar com uma alimentação saudável em 2025, o equivalente a 21,1% da população. Embora o indicador tenha melhorado em relação aos anos anteriores, os números mostram que a renda ainda representa uma barreira importante ao acesso a alimentos adequados.

O problema ganha dimensão quando se considera que a alimentação influencia diretamente a saúde ao longo da vida. Dietas com baixo consumo de frutas, verduras, legumes e outros alimentos nutritivos podem comprometer a qualidade nutricional e contribuir para o desenvolvimento de doenças crônicas. Ao mesmo tempo, o consumo frequente de produtos ultraprocessados está associado a diversos problemas de saúde, especialmente quando esses alimentos ocupam uma parcela significativa da dieta.

Quando o orçamento determina o que vai para o prato

Para famílias com renda limitada, a compra de alimentos precisa competir com despesas essenciais, como aluguel, transporte, energia elétrica e medicamentos. Nesse cenário, o preço, a durabilidade e a praticidade dos produtos podem pesar mais do que suas características nutricionais.

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A dificuldade não se resume ao preço de um alimento isolado. A disponibilidade de mercados, feiras e estabelecimentos que ofereçam produtos frescos também interfere nas escolhas. Em determinadas regiões, a distância dos pontos de venda, os custos de transporte e a falta de variedade ampliam as barreiras ao acesso a uma alimentação adequada.

Um estudo divulgado pela Universidade Federal de Minas Gerais em agosto de 2026 identificou mudanças na relação entre os preços de alimentos saudáveis e ultraprocessados no Brasil. A pesquisa apontou que, entre 2018 e 2024, os preços dos alimentos in natura e minimamente processados sofreram pressões importantes, enquanto os ultraprocessados apresentaram redução relativa em determinados períodos.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que a discussão sobre alimentação saudável precisa considerar não apenas a orientação nutricional, mas também o poder de compra da população.

As consequências para a saúde pública

A dificuldade de acesso a uma dieta equilibrada pode contribuir para um ciclo de desigualdades. Famílias que enfrentam restrições financeiras têm menos margem para diversificar a alimentação, enquanto os efeitos de uma nutrição inadequada podem aumentar a necessidade de atendimento médico ao longo do tempo.

O impacto também alcança crianças e adolescentes, cuja alimentação é fundamental para o crescimento e o desenvolvimento. A qualidade das refeições oferecidas em casa e nas escolas pode influenciar a formação de hábitos que persistirão na vida adulta.

A prevenção, portanto, não depende exclusivamente de campanhas que recomendem mudanças individuais. É necessário considerar as condições materiais que permitem ou dificultam a adoção desses hábitos.

O papel das políticas públicas

A ampliação do acesso a alimentos saudáveis envolve diferentes frentes: fortalecimento da agricultura familiar, abastecimento de mercados locais, alimentação escolar, políticas de segurança alimentar e iniciativas que facilitem a compra de produtos frescos pelas famílias de menor renda.

Também é importante avaliar como a inflação dos alimentos afeta diferentes grupos sociais. Quando uma parcela maior do orçamento é destinada à alimentação, a elevação dos preços pode comprometer outras necessidades e reduzir a capacidade de manter uma dieta variada.

A questão central é como transformar o acesso à alimentação adequada em uma condição efetiva, e não apenas em uma recomendação de saúde pública.

O Brasil possui uma produção agropecuária expressiva e uma diversidade de alimentos que fazem parte de sua tradição culinária. Entretanto, a capacidade de produzir alimentos não garante, por si só, que todos tenham condições econômicas e geográficas de consumi-los.

Garantir uma alimentação saudável exige, portanto, aproximar as políticas de saúde das políticas econômicas e sociais. Afinal, a qualidade da dieta não depende apenas do conhecimento sobre o que comer, mas também das condições concretas para colocar esse conhecimento em prática.

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