A agenda econômica da semana de 2 a 6 de novembro de 2026 começa com uma pergunta que a Bolsa brasileira ainda não conseguiu responder: depois de perder 18,12% em cinco pregões, o Ibovespa encontrará condições para se recuperar ou seguirá pressionado pelo dólar e pela desconfiança fiscal? A decisão do Copom, os balanços empresariais e o emprego nos Estados Unidos oferecerão respostas parciais a partir de terça-feira.
O índice encerrou outubro aos 167.921,80 pontos, após cinco sessões consecutivas de baixa. O dólar à vista terminou a sexta-feira, 30, em R$ 5,446 e acumulou valorização semanal de 9,15%, segundo a Agência Brasil. Foi uma combinação incomum de queda das ações e encarecimento da moeda americana, com efeitos sobre expectativas de inflação, crédito e investimento.
A B3 permanecerá fechada na segunda-feira, feriado de Finados. No retorno, os investidores terão de avaliar simultaneamente a reunião do Banco Central, as eleições legislativas americanas e notícias sobre a orientação econômica do próximo governo brasileiro. O ambiente externo também pode ampliar movimentos iniciados em outubro.
O que explica a maior queda semanal da Bolsa desde 2020
A correção ganhou força em 26 de outubro, primeiro pregão depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. A perda foi tão intensa que a B3 acionou o circuit breaker, suspensão temporária destinada a conter negociações durante quedas excepcionais. A Bolsa não voltava a usar o mecanismo desde a turbulência da pandemia.
Publicidade
O recuo semanal de 18,12% foi o maior desde março de 2020; no acumulado de outubro, a desvalorização chegou a 9,88%. Parte do movimento refletiu a desmontagem de apostas feitas antes da votação e a revisão de expectativas para as contas públicas, a equipe econômica e a trajetória da Selic.
Os fluxos de investidores ajudam a explicar a intensidade, mas exigem cuidado na leitura. Dados da B3 divulgados pelo mercado apontam retirada líquida de R$ 2,85 bilhões de estrangeiros em ações em 26 de outubro e de cerca de R$ 2,04 bilhões no dia seguinte. Ainda assim, o saldo acumulado de outubro até 27 de outubro permanecia positivo em aproximadamente R$ 11,3 bilhões. Uma reversão brusca de posições não equivale à saída de todo o capital estrangeiro aplicado no mês.
A questão agora é saber se a venda de ativos já incorporou os riscos percebidos ou se novas informações obrigarão investidores a rever novamente os preços.
Copom decidirá se interrompe a redução da Selic
O Comitê de Política Monetária se reúne em 3 e 4 de novembro, com anúncio da decisão na noite de quarta-feira. A Selic está em 13,75% ao ano desde setembro, quando o Banco Central reduziu a taxa em 0,25 ponto percentual. A alta recente do dólar tornou a próxima decisão especialmente sensível.
Levantamento da B3 publicado em 29 de outubro, baseado nos preços de opções observados no fechamento do dia 26, indicava probabilidade implícita de 63,1% de manutenção dos juros. A possibilidade de corte de 0,25 ponto percentual aparecia com 28%, e a de redução de 0,50 ponto, com 4,2%. São probabilidades extraídas de contratos financeiros em uma data específica, não previsões oficiais nem resultados assegurados.
A comunicação do Copom poderá pesar tanto quanto a taxa anunciada. Investidores buscarão sinais sobre quanto a desvalorização cambial poderá contaminar os preços, como evoluem as expectativas inflacionárias e se a incerteza fiscal altera o espaço para novos cortes.
Para famílias e empresas, a Selic afeta o custo de financiamento e a remuneração de aplicações, embora sua transmissão aos juros cobrados pelos bancos não seja imediata.
Proposta de Lara Resende reabre debate sobre juros e dívida pública
Outro assunto pode entrar no radar de Brasília. Conforme informação atribuída à coluna de Lauro Jardim, de O Globo, o economista André Lara Resende deverá se reunir com Lula nesta semana para discutir sua proposta de mudança na política de juros. Até a conclusão desta apuração, não havia confirmação pública oficial de data e horário. A reunião noticiada tampouco significa adesão do governo ao plano.
Um dos formuladores do Plano Real, Lara Resende detalhou sua tese no ensaio publicado em setembro. Ele propõe reduzir gradualmente a Selic para perto de 7,5% ao ano em aproximadamente 12 meses e, depois de uma transição, situá-la normalmente em uma faixa de 3% a 5,5%. Sugere ainda um Conselho Fiscal e Monetário Nacional para coordenar objetivos fiscais e monetários por períodos de quatro a cinco anos.
O centro da argumentação é que juros persistentemente superiores ao crescimento nominal da economia podem alimentar o aumento da dívida pública, dificultando o próprio ajuste fiscal. Segundo o Banco Central, nos 12 meses terminados em setembro o setor público consolidado registrou déficit nominal de R$ 1,275 trilhão, equivalente a 9,51% do PIB. Desse total, R$ 1,205 trilhão correspondeu aos juros nominais contabilizados por competência, e R$ 70,1 bilhões ao déficit primário.
O resultado primário compara receitas e despesas antes dos juros; o nominal incorpora esse encargo. Os números mostram o peso financeiro da dívida, mas não provam que o equilíbrio das receitas e despesas primárias seja dispensável. A dívida bruta atingiu R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do PIB, em setembro.
Lara Resende estima que reduzir o custo médio da dívida de cerca de 13% para 7,5% poderia produzir economia anual próxima de quatro pontos percentuais do PIB depois da transmissão aos títulos. Trata-se de simulação condicionada à composição da dívida, à renovação dos vencimentos e à reação dos investidores. Não se deve confundi-la com uma economia já realizada ou com o total efetivamente contabilizado de juros pelo Banco Central.
A maior objeção envolve a taxa de câmbio. Juros menores reduzem o incentivo a manter aplicações em reais e, se acompanhados de perda de confiança, podem aumentar a procura por dólares. Isso encareceria importações e poderia dificultar o controle da inflação. Lara Resende propõe intervenções cambiais para suavizar movimentos excessivos; as reservas internacionais estavam em US$ 362,8 bilhões em setembro, mas não são proteção ilimitada contra fugas de capital.
A proposta também enfrenta exigências institucionais. A Lei Complementar nº 179/2021 estabelece a autonomia do Banco Central. Um encontro com o presidente não altera as atribuições legais da instituição nem substitui uma decisão do Copom.
Agenda econômica da semana: emprego, indústria e eleições
Na terça-feira, 3, o Boletim Focus apresentará novas expectativas para inflação, câmbio, PIB e Selic. O PMI industrial brasileiro ajudará a aferir a atividade nas fábricas. Nos Estados Unidos, o relatório JOLTS de vagas disponíveis será divulgado no mesmo dia, enquanto os eleitores escolherão toda a Câmara dos Representantes e parte do Senado. O resultado poderá influenciar expectativas sobre tributação, comércio e orçamento federal americano.
Na quarta-feira, 4, o Ministério do Trabalho divulgará às 14h30 os dados do Novo Caged relativos a setembro, enquanto o Copom anunciará sua decisão a partir das 18h30. A leitura sobre contratações formais será confrontada com a taxa de desemprego de 5,2% no trimestre encerrado em setembro, divulgada pelo IBGE, a menor para um terceiro trimestre desde o início da série em 2012.
Na quinta-feira, 5, o IBGE publicará a produção industrial de setembro. O Banco da Inglaterra também decidirá sobre juros, adicionando informações sobre a política monetária em outra grande economia. Na sexta-feira, 6, o relatório oficial de emprego dos Estados Unidos, conhecido como payroll, está previsto para as 10h30 de Brasília. O número de vagas, a taxa de desemprego e os salários poderão alterar apostas sobre os próximos passos do Federal Reserve.
A balança comercial brasileira está prevista para sexta-feira.
Balanços empresariais e novo horário da B3 entram no radar
A temporada de resultados do terceiro trimestre ajudará a distinguir empresas cuja situação financeira mudou daquelas que sofreram principalmente com a queda geral dos preços. Na terça-feira, Itaú Unibanco, BB Seguridade e ISA Energia estão entre as companhias com balanços programados. Na quarta, a agenda inclui Axia Energia, PRIO, Minerva, TOTVS e Vibra. Na quinta, será a vez de Sabesp, Localiza, Suzano, Lojas Renner e Assaí, entre outras.
Lucros, geração de caixa, endividamento e projeções das administrações terão peso especial. Mesmo números positivos podem provocar queda das ações quando ficam abaixo das expectativas, enquanto resultados modestos podem gerar reação favorável caso sejam melhores do que o mercado antecipava.
Há também uma mudança prática: a partir de terça-feira, com o fim do horário de verão nos Estados Unidos, a negociação regular de ações na B3 ocorrerá das 10h às 17h55, seguida pelo leilão de fechamento até as 18h. O horário ampliado não altera os fundamentos das empresas, mas muda o período de exposição dos investidores a notícias e movimentos internacionais.
O que indicará uma recuperação sustentável do Ibovespa
Uma alta expressiva depois de cinco dias de perdas pode ser apenas um repique, causado por recomposição de posições ou compras oportunistas. Para avaliar se há recuperação mais consistente, importa observar o conjunto dos sinais: dólar menos pressionado, juros futuros mais estáveis, melhora dos fluxos de capital e resultados corporativos compatíveis com os preços atuais.
Um cenário favorável dependeria de menor incerteza fiscal, comunicação monetária previsível e balanços capazes de sustentar expectativas de lucro. Uma estabilização parcial, com alternância de altas e baixas, também é possível. Se a moeda americana continuar se valorizando e as expectativas de inflação piorarem, novas quedas não podem ser descartadas.
Nenhum desses cenários é uma previsão garantida ou recomendação de compra e venda. A semana de 2 a 6 de novembro poderá mostrar se o choque de outubro começou a ser absorvido, mas o teste decisivo será a coerência entre política econômica, confiança institucional e desempenho efetivo das empresas. Para a Bolsa, recuperar pontos é diferente de reconstruir as condições que sustentam uma valorização duradoura.

