Tornado de fúria inédita devastou o município de Rio Bonito do Iguaçu, no Centro-Sul do Paraná, marcando um dos eventos meteorológicos mais trágicos da história recente do Brasil. A passagem do fenômeno, ocorrida na tarde da última sexta-feira, deixou um rastro de destruição que rapidamente mobilizou equipes de resgate e a atenção de todo o país. A intensidade do tornado foi tamanha que cerca de 80% da área urbana da cidade foi severamente danificada, com casas destelhadas, estruturas metálicas retorcidas e o colapso de inúmeras construções.
Tamanha tragédia resultou em um saldo preliminar de seis mortos e centenas de feridos, sendo que o número de pessoas afetadas, entre desalojados e desabrigados, ultrapassou a marca de 2 mil. O cenário encontrado pelas equipes de socorro foi descrito como um “cenário de guerra”, afirmou o subcomandante-geral do Corpo de Bombeiros, evidenciando a magnitude da catástrofe. A cidade ficou sem energia elétrica e com o abastecimento de água comprometido, agravando a situação das vítimas e dificultando os trabalhos de resgate e assistência. A resposta imediata envolveu o deslocamento de equipes de várias regiões do Paraná e a montagem de um hospital de campanha para atender a alta demanda de feridos.
O tornado que atingiu o Paraná foi classificado como F3 na escala Fujita, o que corresponde a ventos com velocidade superior a 250 km/h. Essa intensidade é considerada menos comum no Brasil, onde a maioria dos tornados registrados se enquadra na categoria F1, com ventos de até 180 km/h. A severidade do evento o colocou na lista dos mais letais das últimas décadas no país, superando em número de fatalidades a maioria dos registros históricos.
A complexa gênese do tornado e o contexto climático
A formação do tornado devastador está intrinsecamente ligada a um complexo quadro meteorológico que atuava sobre a Região Sul do Brasil. O fenômeno foi resultado de uma intensa linha de instabilidade associada a um ciclone extratropical. Ciclones extratropicais são sistemas de baixa pressão que se formam fora dos trópicos e são comuns na costa sul do Brasil, mas a combinação de fatores que levou à formação de um tornado de tal magnitude é o que o torna notável.
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O avanço da linha de instabilidade pelo Paraná gerou múltiplas células de tempestade, algumas delas classificadas como supercélulas. As supercélulas são as tempestades mais severas e duradouras, caracterizadas pela presença de um mesociclone, uma corrente de ar ascendente e rotativa. É dentro dessas supercélulas que as condições se tornam ideais para a formação de tornados de grande intensidade. A interação entre o ar quente e úmido vindo da Amazônia e o ar frio que acompanha o ciclone extratropical cria a instabilidade atmosférica necessária para o desenvolvimento dessas tempestades violentas.
A energia liberada por essa combinação de massas de ar, somada à presença de um forte cisalhamento do vento (mudança na velocidade e direção do vento com a altitude), potencializou a rotação e a intensidade do funil do tornado. O cisalhamento do vento é um ingrediente crucial, pois ele “inclina” a rotação horizontal do ar para a vertical, dando origem ao mesociclone e, consequentemente, ao tornado.
Apesar de ser um evento extremo, a ocorrência de tornados no Sul do Brasil não é uma anomalia. A região é conhecida como o “Corredor de Tornados da América do Sul”, que se estende pelo Paraguai, Uruguai, Argentina e Sul do Brasil. Este corredor é uma das áreas do mundo com maior incidência de tornados fora dos Estados Unidos.
Tornados no Sul: Fenômeno esperado ou anomalia?
A Região Sul do Brasil tem uma média de nove tornados por ano, segundo um estudo que analisou quatro décadas de registros. Portanto, a ocorrência do fenômeno em si é esperada. O que distingue o evento de Rio Bonito do Iguaçu é a sua intensidade e o fato de ter atingido uma área urbana com tanta força, resultando em um alto número de vítimas e destruição.
A maior parte dos tornados na região ocorre em áreas rurais, onde o potencial de danos e vítimas é menor. Quando um tornado cruza uma área urbana, como aconteceu no Paraná, o impacto é catastrófico. O evento se soma a outros tornados históricos que causaram grande destruição no Sul e em outras partes do Brasil, como o de Palmas (PR) em 1959, um dos mais letais, e o de Maravilha (SC) em 1984.
Tabela 1: Comparativo de Tornados Notáveis no Brasil
| Evento de Tornado | Localização | Ano | Fatalidades | Intensidade (escala Fujita) |
|---|---|---|---|---|
| Rio Bonito do Iguaçu | Paraná | 2025 | 6 | F3 |
| Palmas | Paraná | 1959 | 35 | Não classificada |
| Maravilha | Santa Catarina | 1984 | 10 | Não classificada |
| Ivinhema | Mato Grosso do Sul | 1989 | 16 | Não classificada |
| Itu | São Paulo | 1991 | 15 | Não classificada |
| Nova Laranjeiras | Paraná | 1997 | 4 | Indícios de F4 |
| Antônio Prado | Rio Grande do Sul | 2003 | 5 | Não classificada |
| Guaraciaba | Santa Catarina | 2009 | 4 | Estimada F4 |
| Xanxerê | Santa Catarina | 2015 | 2 | F3 |
A recorrência de tornados na Região Sul está ligada à sua posição geográfica e às características climáticas. A região é uma zona de transição entre o clima tropical e o temperado, o que favorece o encontro de massas de ar com características muito distintas, um pré-requisito para a formação de tempestades severas.
O futuro e a preparação para novos tornados
A ciência meteorológica aponta que a região continuará a ser palco de tornados. A questão central não é se eles vão se repetir, mas sim a frequência e a intensidade com que ocorrerão, especialmente em um cenário de mudanças climáticas. Embora a relação direta entre mudanças climáticas e o aumento de tornados ainda seja objeto de estudo, o aumento da frequência de eventos climáticos extremos, em geral, é uma tendência observada globalmente.
A preparação e a conscientização são as ferramentas mais eficazes para mitigar os danos de futuros tornados. O investimento em sistemas de alerta precoce, a educação da população sobre como agir durante o fenômeno e a adoção de códigos de construção mais resistentes são medidas cruciais. O evento de Rio Bonito do Iguaçu serve como um doloroso lembrete da vulnerabilidade das comunidades e da necessidade de políticas públicas mais robustas para a gestão de riscos de desastres naturais.
A Defesa Civil e os órgãos de meteorologia têm um papel fundamental na emissão de alertas. A população, por sua vez, deve estar atenta aos sinais de tempestades severas, como o céu esverdeado, nuvens baixas e escuras em rotação e o som de um “trem de carga” se aproximando, que são indicativos da iminência de um tornado.
A reconstrução de Rio Bonito do Iguaçu será um processo longo e desafiador. Contudo, a solidariedade demonstrada pela sociedade e a resposta rápida das autoridades são um sinal de esperança. O legado deste tornado deve ser a urgência em se preparar para a inevitabilidade de futuros eventos, transformando a tragédia em um catalisador para uma cultura de prevenção e resiliência no Sul do Brasil.

