quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Tornado inédito atinge sul do Brasil

por Marco Antonio Portugal
0 comentários 51 vistas
TORNADO

Tornado de fúria inédita devastou o município de Rio Bonito do Iguaçu, no Centro-Sul do Paraná, marcando um dos eventos meteorológicos mais trágicos da história recente do Brasil. A passagem do fenômeno, ocorrida na tarde da última sexta-feira, deixou um rastro de destruição que rapidamente mobilizou equipes de resgate e a atenção de todo o país. A intensidade do tornado foi tamanha que cerca de 80% da área urbana da cidade foi severamente danificada, com casas destelhadas, estruturas metálicas retorcidas e o colapso de inúmeras construções.

Tamanha tragédia resultou em um saldo preliminar de seis mortos e centenas de feridos, sendo que o número de pessoas afetadas, entre desalojados e desabrigados, ultrapassou a marca de 2 mil. O cenário encontrado pelas equipes de socorro foi descrito como um “cenário de guerra”, afirmou o subcomandante-geral do Corpo de Bombeiros, evidenciando a magnitude da catástrofe. A cidade ficou sem energia elétrica e com o abastecimento de água comprometido, agravando a situação das vítimas e dificultando os trabalhos de resgate e assistência. A resposta imediata envolveu o deslocamento de equipes de várias regiões do Paraná e a montagem de um hospital de campanha para atender a alta demanda de feridos.

O tornado que atingiu o Paraná foi classificado como F3 na escala Fujita, o que corresponde a ventos com velocidade superior a 250 km/h. Essa intensidade é considerada menos comum no Brasil, onde a maioria dos tornados registrados se enquadra na categoria F1, com ventos de até 180 km/h. A severidade do evento o colocou na lista dos mais letais das últimas décadas no país, superando em número de fatalidades a maioria dos registros históricos.

A complexa gênese do tornado e o contexto climático

A formação do tornado devastador está intrinsecamente ligada a um complexo quadro meteorológico que atuava sobre a Região Sul do Brasil. O fenômeno foi resultado de uma intensa linha de instabilidade associada a um ciclone extratropical. Ciclones extratropicais são sistemas de baixa pressão que se formam fora dos trópicos e são comuns na costa sul do Brasil, mas a combinação de fatores que levou à formação de um tornado de tal magnitude é o que o torna notável.

Publicidade

O avanço da linha de instabilidade pelo Paraná gerou múltiplas células de tempestade, algumas delas classificadas como supercélulas. As supercélulas são as tempestades mais severas e duradouras, caracterizadas pela presença de um mesociclone, uma corrente de ar ascendente e rotativa. É dentro dessas supercélulas que as condições se tornam ideais para a formação de tornados de grande intensidade. A interação entre o ar quente e úmido vindo da Amazônia e o ar frio que acompanha o ciclone extratropical cria a instabilidade atmosférica necessária para o desenvolvimento dessas tempestades violentas.

A energia liberada por essa combinação de massas de ar, somada à presença de um forte cisalhamento do vento (mudança na velocidade e direção do vento com a altitude), potencializou a rotação e a intensidade do funil do tornado. O cisalhamento do vento é um ingrediente crucial, pois ele “inclina” a rotação horizontal do ar para a vertical, dando origem ao mesociclone e, consequentemente, ao tornado.

Apesar de ser um evento extremo, a ocorrência de tornados no Sul do Brasil não é uma anomalia. A região é conhecida como o “Corredor de Tornados da América do Sul”, que se estende pelo Paraguai, Uruguai, Argentina e Sul do Brasil. Este corredor é uma das áreas do mundo com maior incidência de tornados fora dos Estados Unidos.

Tornados no Sul: Fenômeno esperado ou anomalia?

A Região Sul do Brasil tem uma média de nove tornados por ano, segundo um estudo que analisou quatro décadas de registros. Portanto, a ocorrência do fenômeno em si é esperada. O que distingue o evento de Rio Bonito do Iguaçu é a sua intensidade e o fato de ter atingido uma área urbana com tanta força, resultando em um alto número de vítimas e destruição.

A maior parte dos tornados na região ocorre em áreas rurais, onde o potencial de danos e vítimas é menor. Quando um tornado cruza uma área urbana, como aconteceu no Paraná, o impacto é catastrófico. O evento se soma a outros tornados históricos que causaram grande destruição no Sul e em outras partes do Brasil, como o de Palmas (PR) em 1959, um dos mais letais, e o de Maravilha (SC) em 1984.

Tabela 1: Comparativo de Tornados Notáveis no Brasil

Evento de TornadoLocalizaçãoAnoFatalidadesIntensidade (escala Fujita)
Rio Bonito do IguaçuParaná20256F3
PalmasParaná195935Não classificada
MaravilhaSanta Catarina198410Não classificada
IvinhemaMato Grosso do Sul198916Não classificada
ItuSão Paulo199115Não classificada
Nova LaranjeirasParaná19974Indícios de F4
Antônio PradoRio Grande do Sul20035Não classificada
GuaraciabaSanta Catarina20094Estimada F4
XanxerêSanta Catarina20152F3

A recorrência de tornados na Região Sul está ligada à sua posição geográfica e às características climáticas. A região é uma zona de transição entre o clima tropical e o temperado, o que favorece o encontro de massas de ar com características muito distintas, um pré-requisito para a formação de tempestades severas.

O futuro e a preparação para novos tornados

A ciência meteorológica aponta que a região continuará a ser palco de tornados. A questão central não é se eles vão se repetir, mas sim a frequência e a intensidade com que ocorrerão, especialmente em um cenário de mudanças climáticas. Embora a relação direta entre mudanças climáticas e o aumento de tornados ainda seja objeto de estudo, o aumento da frequência de eventos climáticos extremos, em geral, é uma tendência observada globalmente.

A preparação e a conscientização são as ferramentas mais eficazes para mitigar os danos de futuros tornados. O investimento em sistemas de alerta precoce, a educação da população sobre como agir durante o fenômeno e a adoção de códigos de construção mais resistentes são medidas cruciais. O evento de Rio Bonito do Iguaçu serve como um doloroso lembrete da vulnerabilidade das comunidades e da necessidade de políticas públicas mais robustas para a gestão de riscos de desastres naturais.

A Defesa Civil e os órgãos de meteorologia têm um papel fundamental na emissão de alertas. A população, por sua vez, deve estar atenta aos sinais de tempestades severas, como o céu esverdeado, nuvens baixas e escuras em rotação e o som de um “trem de carga” se aproximando, que são indicativos da iminência de um tornado.

A reconstrução de Rio Bonito do Iguaçu será um processo longo e desafiador. Contudo, a solidariedade demonstrada pela sociedade e a resposta rápida das autoridades são um sinal de esperança. O legado deste tornado deve ser a urgência em se preparar para a inevitabilidade de futuros eventos, transformando a tragédia em um catalisador para uma cultura de prevenção e resiliência no Sul do Brasil.

Este site utiliza cookies para melhorar a sua experiência. Assumiremos que você concorda com isso, mas você pode optar por não aceitar, se desejar. Aceitar Leia mais

Adblock Detectado

Por favor, nos apoie desativando a extensão AdBlocker do seu navegador para o nosso site.