Tilápia entrou em recente discussão diante da decisão do governo federal de incluir a espécie na Lista Nacional Oficial de Espécies Exóticas Invasoras, por meio da Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio). Isso gerou uma onda de críticas e preocupação no setor produtivo nacional. A repercussão foi imediata e, em muitos casos, extrema, com produtores e associações temendo a proibição do cultivo e um colapso econômico em uma das cadeias mais dinâmicas do agronegócio nacional. Este cenário levanta questões cruciais: a medida governamental foi um erro de avaliação? Em um contexto de produção recorde, como o preço da tilápia no varejo evoluiu nos últimos dez anos? A análise dos dados e dos fatos é fundamental para entender o real impacto dessa classificação e se o aumento da produção se traduziu em benefícios para o consumidor.
A polêmica da tilápia invasora: a medida do governo foi um erro?
Ter a classificação da tilápia como invasora baseia-se em argumentos ambientais sólidos. Uma espécie é considerada exótica invasora quando é introduzida em um ecossistema fora de sua área de distribuição natural e causa impactos negativos na biodiversidade local. A tilápia, originária da África, é conhecida por sua alta capacidade de adaptação, reprodução rápida e resistência, características que a tornam um competidor voraz por alimento e espaço, além de predadora de ovos e larvas de espécies nativas brasileiras. A Conabio, ligada ao Ministério do Meio Ambiente (MMA), propôs a inclusão justamente para mitigar esses riscos ecológicos.
No entanto, a reação do setor produtivo foi veemente. A tilápia é, de longe, o peixe mais cultivado no Brasil, representando cerca de 60% da produção nacional de peixes de cultivo. O Paraná, por exemplo, é o maior produtor do país, e a cadeia produtiva gera milhares de empregos e movimenta bilhões de reais. Para os piscicultores, a medida é um “equívoco” que criminaliza uma atividade econômica consolidada e essencial para a segurança alimentar. Eles argumentam que a maioria da produção ocorre em sistemas fechados, como tanques-rede e viveiros escavados, onde o risco de fuga e invasão é controlado.
A pressão do agronegócio e a forte repercussão levaram o MMA a emitir notas de esclarecimento. O Ministério descartou a possibilidade de banir o cultivo da tilápia, mas sinalizou que as mudanças devem focar em regras mais rígidas para o controle da espécie, como a exigência de barreiras físicas mais eficazes e o monitoramento de efluentes. A controvérsia, portanto, reside na abordagem: enquanto o governo busca proteger a biodiversidade, o setor produtivo clama por regulamentação que não inviabilize a produção. A classificação de tilápia invasora não significa a proibição imediata, mas impõe um novo patamar de exigências ambientais que, para muitos, representa um custo adicional e uma ameaça à expansão do negócio.
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Evolução do preço da tilápia no varejo nos últimos dez anos
A análise da evolução do preço da tilápia no varejo brasileiro nos últimos dez anos revela um cenário complexo, que desafia a lógica econômica mais simplista. Em tese, o aumento expressivo da produção deveria levar a uma estabilidade ou queda nos preços para o consumidor final. Contudo, os dados demonstram que, embora a produção tenha disparado, os preços no varejo seguiram uma trajetória de alta, especialmente nos últimos anos.
A produção nacional de tilápia mais que dobrou na última década, saltando de 285 mil toneladas em 2015 para cerca de 579 mil toneladas em 2023, com projeções de ultrapassar 660 mil toneladas em 2024. Esse crescimento de mais de 100% é um indicativo claro da eficiência e da expansão da tilapicultura brasileira.
No entanto, enquanto o preço do filé de tilápia congelado se manteve relativamente estável entre 2015 e 2020, o preço da cotação do peixe (geralmente o peixe inteiro ou eviscerado, que serve de base para a indústria) apresentou um aumento significativo. Entre 2020 e o início de 2024, a cotação subiu mais de 70%, passando de R$ 9,89/kg para R$ 16,83/kg. Essa alta seria explicada um reflexo direto de diversos fatores que pressionaram os custos de produção, como o aumento no preço da ração (que representa a maioria do custo), energia elétrica e logística.
Produção recorde e o paradoxo dos preços
O paradoxo da tilápia é evidente: a produção atinge picos históricos, mas o preço para o consumidor não acompanha essa tendência de queda esperada pela maior oferta. O que explica essa desconexão? A resposta está na combinação de fatores de custo, demanda e agregação de valor.
Primeiramente, o aumento da demanda tem sido tão expressivo quanto o da oferta. O consumo per capita de tilápia no Brasil quase dobrou na última década, impulsionado pela qualidade da carne, versatilidade e preço ainda competitivo em relação a outras proteínas. A demanda crescente absorveu o aumento da produção, impedindo que a maior oferta forçasse uma queda nos preços.
Em segundo lugar, a pressão dos custos de produção é um fator determinante. A tilapicultura moderna exige insumos caros, principalmente a ração, baseada em grãos como soja e milho, cujos preços são cotados em dólar e sofrem com a volatilidade do mercado internacional. Em 2024, o custo total de produção por quilo de tilápia já girava em torno de R$ 6,51 a R$ 7,09, dependendo da região. Esse custo elevado limita a margem para redução do preço final.
Por fim, a agregação de valor transforma o produto. A maioria da tilápia é processada em filé, um produto de maior valor agregado, e exige custos de industrialização, embalagem e refrigeração. A estabilidade relativa do preço do filé, mesmo com o aumento da cotação do peixe vivo, sugere que a indústria absorveu parte dos custos ou que a demanda por filé de alta qualidade sustenta o preço.
Portanto, o aumento na produção de tilápia invasora não se traduziu em preços significativamente mais baixos para o consumidor porque o crescimento da demanda e o aumento dos custos de produção atuaram como contrapesos. O setor se expandiu, mas a rentabilidade foi mantida ou pressionada pelos custos, repassando a alta para o varejo. A recente classificação como espécie invasora adiciona uma nova camada de incerteza, pois futuras exigências ambientais podem elevar ainda mais os custos operacionais, impactando novamente o preço final e a competitividade da tilapicultura brasileira.

