quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

SP156 acumula anos de espera em serviços essenciais

por Marco Antonio Portugal
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SP156

SP156 é o principal canal de comunicação entre o cidadão paulistano e a administração pública municipal, mas os dados revelam um cenário preocupante de gargalos e filas intermináveis. Ao analisar os números de solicitações de serviços na capital paulista, percebe-se que a plataforma, criada para agilizar soluções e administrar prioridades, tornou-se um depósito de pendências. O volume de chamados é gigantesco, refletindo uma cidade que clama por manutenção básica, mas o que mais chama a atenção é o tempo de resposta para demandas críticas.

Os registros mostram que a zeladoria urbana continua sendo o “carro-chefe” das reclamações, mas há uma camada invisível de problemas que não são resolvidos com a rapidez necessária. Enquanto a Prefeitura divulga balanços de atendimentos, milhares de protocolos permanecem abertos, acumulando pendências no SP156. Além de reclamações de buracos ou lixo, há questões de sossego público e fiscalização que impactam diretamente a saúde mental e a segurança dos moradores.

Neste contexto, é fundamental mergulhar nos dados para entender a realidade por trás das estatísticas oficiais. A transparência dos números revela onde exatamente a máquina pública emperra e quais temas sofrem com o abandono.

O abismo da fiscalização e do silêncio

Onde o SP156 mais falha em entregar resultados rápidos é, ironicamente, onde o cidadão mais precisa de intervenção imediata: o sossego público. A análise da base de dados de pendências aponta um cenário alarmante para quem sofre com barulho excessivo. O serviço de “Reclamação de poluição sonora – PSIU” lidera o ranking de pendências com uma margem assustadora. São mais de 74 mil solicitações aguardando uma solução definitiva. O que choca, contudo, não é apenas o volume, mas o tempo de espera.

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A média de tempo para que esses chamados sejam atendidos ou finalizados ultrapassa a marca de 700 dias. Isso significa que, em média, um cidadão espera quase dois anos para que uma fiscalização de barulho seja efetiva. Em casos extremos registrados na base, a espera pode chegar a mais de 2.000 dias. Durante esse período, o estabelecimento barulhento continua operando, e o morador que buscou ajuda no SP156 permanece desamparado.

Além da poluição sonora, a fiscalização de obras particulares é outro ponto crítico. Com quase 40 mil pedidos pendentes, a média de espera supera os 900 dias. A cidade cresce, reformas acontecem, mas a capacidade do município de fiscalizar irregularidades não acompanha o ritmo. O resultado é uma sensação de impunidade e desordem urbana, onde as regras de convivência e construção parecem valer apenas no papel.

A liderança absoluta dos buracos

Quando olhamos para o volume total de solicitações, o SP156 confirma o que todo motorista paulistano sente na suspensão e nos pneus do veículo: o asfalto é o maior problema. O serviço de “Tapa-buraco” é, historicamente, o mais demandado. Em 2023, foram registrados mais de 188 mil pedidos. Embora tenha havido uma queda no volume em 2024 e 2025, os números ainda são expressivos, mantendo-se na casa dos 90 a 110 mil chamados anuais.

Essa demanda constante por reparos na via pública indica uma malha viária envelhecida e, muitas vezes, reparos de baixa durabilidade que obrigam o cidadão a reabrir chamados para o mesmo local. Logo atrás dos buracos, o problema do entulho e grandes objetos em via pública se destaca, com mais de 120 mil solicitações em 2024. A cidade luta para se manter limpa, mas o descarte irregular e a demora na coleta transformam calçadas em pontos viciados de lixo.

É importante notar, entretanto, que a alta demanda no SP156 para esses serviços de zeladoria rápida (tapa-buraco e entulho) acaba mascarando problemas mais complexos. Como o fluxo desses serviços é mais dinâmico, eles geram estatísticas de “atendimentos realizados” que elevam a média geral de eficiência da Prefeitura, escondendo a ineficiência crônica em áreas de fiscalização e ordenamento urbano citadas anteriormente.

O perigo a cada passo nas calçadas

Se para os veículos o asfalto é um problema, para o pedestre, caminhar pela cidade é um desafio diário de acessibilidade. Os registros do SP156 revelam uma realidade cruel para quem precisa se locomover a pé, especialmente idosos e pessoas com deficiência. A categoria de “Acessibilidade – solicitar avaliação de obstáculo na calçada” acumula quase 11 mil solicitações pendentes. O dado mais alarmante, contudo, é a demora: a média de espera por uma resposta é de 836 dias, ou seja, mais de dois anos.

Esse atraso colossal no SP156 reflete uma negligência direta com a Lei de Acessibilidade. Enquanto o cidadão aguarda por solução, o obstáculo, seja um degrau irregular, um poste mal posicionado ou entulho, permanece na via, bloqueando a passagem e forçando pedestres a disputarem espaço com os veículos na rua.

Além dos obstáculos físicos, a fiscalização da manutenção também engatinha. Existem mais de 8 mil denúncias paradas referentes a calçadas particulares danificadas ou inexistentes. Embora a responsabilidade primária seja do proprietário do imóvel, a falha do município em fiscalizar e multar retratada pela reclamações registradas no SP156 perpetua a precariedade. O resultado é uma cidade hostil, onde o direito de ir e vir fica condicionado à agilidade de um sistema que, segundo os próprios dados, demora anos para agir.

A ilusão dos chamados concluídos

Um aspecto que os dados brutos do SP156 não mostram explicitamente, mas que é de conhecimento prático da população e de especialistas em gestão pública, é a natureza da “conclusão” de grande parte dos chamados. O encerramento de um protocolo no sistema não significa que o problema foi de fato resolvido. Essa é uma das maiores queixas dos usuários da plataforma.

Existem inúmeros relatos e evidências de que demandas de limpeza, por exemplo, são dadas como “concluídas” com uma resposta padrão informando que o serviço entrou na programação para uma data futura. Ou seja, para o sistema estatístico, o caso foi resolvido; para o cidadão, o lixo continua na rua. O mesmo ocorre com solicitações para a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego). Pedidos de manutenção ou alteração de sinalização são encerrados com a justificativa de que um “projeto” foi elaborado e aguardará por implantação, contudo, sem previsão.

Essa prática distorce a realidade da eficiência do SP156. Ao transformar uma promessa de serviço ou a elaboração de um projeto em “encerrado”, a administração pública cria uma falsa sensação de dever cumprido. O passivo real de problemas na cidade é, portanto, muito maior do que os números de pendências sugerem. Se considerássemos essas “promessas” como pendências reais, os índices de atraso seriam ainda mais dramáticos.

Carros abandonados e o uso do espaço público

Outro gargalo significativo revelado pelos dados do SP156 é a remoção de veículos e carcaças abandonados nas vias públicas. Atualmente, existem quase 40 mil solicitações pendentes nesta categoria. Um carro abandonado não é apenas um problema estético; ele se torna um foco de doenças, acumulando água parada, e um ponto de insegurança para a vizinhança.

Espera média na remoção dos veículos é 733,33% superior ao prazo máximo.

A média de espera para a remoção desses veículos é superior a 500 dias. Destaca-se, a propria prefeitura informa que o prazo máximo para realização desse serviço é de 60 dias. Enquanto isso, o espaço público, que deveria ser destinado à circulação ou ao lazer, é privatizado por sucata e risco à saúde. Esse cenário reflete a deficiência da prefeitura em gerir seu próprio território e impor ordem.

Da mesma forma, a questão das árvores em calçadas e praças é sensível. Embora o volume de solicitações para avaliação de poda e remoção seja alto (mais de 70 mil pedidos em 2023 e 2024), ainda há mais de 10 mil casos pendentes com tempos de espera consideráveis. Em uma cidade que sofre com tempestades e quedas de árvores cada vez mais reecorrentes, um dia de atraso na avaliação de uma árvore doente representa um risco real à vida e ao patrimônio dos cidadãos.

O futuro do atendimento ao cidadão

Para que o SP156 cumpra sua função, é necessário mais do que tecnologia; é preciso gestão eficiente e transparência nos dados. A plataforma digital é robusta e acessível, mas ela é apenas a porta de entrada. O problema reside na capacidade operacional da prefeitura de atender essa demanda represada.

Os números analisados mostram que a cidade cresceu e seus problemas se tornaram mais complexos, exigindo respostas que vão além de um “tapa-buraco”. A fiscalização de posturas municipais, o controle do ruído e a manutenção da ordem urbana exigem equipes capazes e processos ágeis.

A transparência é o primeiro passo para a mudança. Reconhecer que um chamado encerrado com uma “promessa” não é um problema resolvido seria um avanço institucional importante. Enquanto o SP156 continuar operando com filas de anos para serviços básicos de fiscalização e maquiando estatísticas de conclusão, o cidadão paulistano continuará sentindo que sua voz, registrada no protocolo, ecoa no vazio.

Justificar o caos afirmando que “a cidade é grande demais” é ignorar a magnitude de seu orçamento e afrontar a inteligência do contribuinte; para quem arca com um dos IPTUs mais caros do Brasil, São Paulo não é grande demais para ser cuidada, é rica demais para ser negligenciada.

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