A queda do ouro nos últimos dias inverteu as sucessivas máximas históricas, que levaram a acumular uma alta de cerca de 60% no ano. O metal sofreu uma correção acentuada nas sessões de 27 e 28 de outubro. Na segunda-feira (27), o preço caiu quase 3%, chegando a romper brevemente o patamar de US$ 4.000 por onça na mínima intradiária. Esse recuo prolongou as perdas já observadas na semana anterior – por exemplo, em 21 de outubro o ouro despencou mais de 4% (maior queda diária desde 2020) após atingir um recorde de ~US$ 4.381 na véspera. Os analistas atribuem a correção nos dias 27 e 28 a uma combinação de fatores conjunturais e técnicos, entre os quais se destacam:
- Realização de lucros e mercado sobrecomprado: Após a disparada das semanas anteriores (cerca de +30% em dois meses até o pico), muitos investidores aproveitaram para realizar ganhos. O rali do ouro exibia sinais de excesso de otimismo técnico, com gestores alertando que o metal estava “sobrecarregado por todas as métricas técnicas”. Analistas do ING apontaram que o mercado se encontrava extremamente sobrecomprado, levando a um movimento de correção saudável diante do nervosismo crescente quanto à sustentabilidade da altas. Em outras palavras, o patamar elevado do ouro convidou fundos hedge e outros participantes a vender para embolsar lucros, desencadeando a queda.
- Apetite por risco e negociações EUA–China: O contexto geopolítico de final de outubro trouxe notícias que reduziram a procura por ativos de proteção (como ouro) em favor de ativos de risco. Em particular, houve avanços nas negociações comerciais entre Estados Unidos e China, alimentando expectativas de um acordo que evitaria novas tarifas. A Casa Branca confirmou um encontro entre o presidente Donald Trump e o presidente chinês Xi Jinping nessa semana, aumentando as esperanças de distensão na guerra comercial. O próprio Trump declarou ver “boa chance” de firmar um acordo, levando o mercado a adotar postura de maior apetite por risco e menor demanda imediata por ouro como proteção, conforme análise do Forex.com. Esse otimismo com uma possível trégua comercial impulsionou bolsas e outras classes de ativos, enquanto pressionou o ouro para baixo.
- Valorização do dólar americano: Durante o movimento de queda, o dólar ganhou força no mercado internacional, o que tradicionalmente pesa sobre o ouro. Como o metal é cotado em dólar, a alta da moeda americana torna o ouro mais caro para investidores de fora dos EUA, reduzindo sua demanda. No dia 21/10, por exemplo, o dólar subiu ~0,4%, contribuindo para o recuo do ouro naquela sessão. No fim do mês, a menor aversão a risco também levou a queda do dólar frente a moedas emergentes, mas ainda assim o dólar manteve um viés de alta semanal, limitando a atratividade do ouro.
- Juros e inflação nos EUA: Outro fator citado é o panorama de política monetária americana. Paradoxalmente, a correção do ouro ocorreu apesar da expectativa de que o Federal Reserve iniciaria em breve cortes de juros – algo que, em tese, favorece o ouro por reduzir custos de oportunidade. Contudo, antes da reunião do Fed (agendada para o final dessa semana), os investidores mostraram certa cautela. O anúncio do Índice de Preços ao Consumidor (CPI) de setembro nos EUA, adiado para 24/10, era aguardado de perto. Um CPI mais alto que o previsto poderia fortalecer o dólar e os rendimentos dos Treasuries, pressionando o ouro, enquanto uma leitura baixa reforçaria as apostas de afrouxamento monetário e sustentação ao metal. Assim, na dúvida, alguns agentes reduziram posição em ouro antes desses eventos. Além disso, os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA permaneciam em patamar elevado (a taxa de 10 anos rondando 4,15%), o que atuou como força de pressão sobre o ouro não remunerado, segundo analistas.
Em resumo, foi uma confluência de fatores que derrubou os preços do ouro em 27-28 de outubro: o mercado realizou lucros após um rally exagerado, a melhora no cenário comercial global reduziu a procura por refúgio, o dólar mais forte encareceu o metal, e houve realização preventiva antes de eventos do Fed e inflação. Não houve um catalisador único e óbvio para o tombo, mas sim uma correção que já vinha sendo prenunciada por especialistas devido à velocidade da alta recente. Alguns participantes citaram até vendas por bancos chineses somando-se ao movimento. Vale notar que, diferentemente de outros episódios, essa queda do ouro ocorreu num contexto em que os mercados acionários e de petróleo subiam ou ficavam estáveis, sinalizando que o recuo do metal foi pontual ao seu mercado e não reflexo de pânico generalizado.
Panorama Recente e Expectativas para o Ouro até o Final de 2025
Apesar da correção no fim de outubro, a tendência de fundo do ouro em 2025 permanece positiva, amparada por fatores estruturais. O metal vinha de várias semanas consecutivas de alta (nove semanas seguidas até meados de outubro) graças às expectativas de flexibilização monetária nos EUA e à forte demanda por ativos de refúgio em meio a incertezas geopolíticas. Mesmo após cair para cerca de US$ 4.100 na última semana de outubro, o ouro ainda acumulava quase 50% de valorização em 12 meses. Muitos analistas interpretam a recente queda como uma correção temporária dentro de um ciclo altista, em vez de uma reversão de tendência de longo prazo. Conforme observou a consultoria MKS PAMP, “mercados em alta sempre precisam de uma correção saudável para garantir longevidade ao ciclo”, ou seja, após um ajuste e alguma consolidação, a trajetória ascendente pode continuar de forma mais sustentável.
De fato, predomina um viés otimista entre instituições financeiras e especialistas quanto ao ouro no horizonte dos próximos trimestres. Segundo a Bloomberg, é difícil encontrar algum analista de metais preciosos que projete uma tendência de baixa prolongada; ao contrário, a maioria manteve previsões otimistas ao longo dos últimos dois anos. Essa confiança apoia-se em diversos fundamentos:
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- Compras de Bancos Centrais: Os BCs do mundo todo vêm acumulando ouro em ritmo recorde. Esse fluxo estrutural de demanda oficial – atualmente o dobro da média de cinco anos – foi um dos pilares da alta em 2025, reforçado por incertezas geopolíticas (ex.: sanções ao Banco Central russo em 2022 estimularam outros países a diversificar reservas). Analistas do JP Morgan observam que mesmo eventuais realizações de lucro tendem a encontrar compradores de mergulho (dip buyers) nesses outros segmentos de demanda, incluindo BCs e investidores físicos de longo prazo, mantendo as reversões relativamente superficiais. Ou seja, espera-se que os bancos centrais e grandes investidores aproveitem quedas para aumentar posição, dando suporte aos preços.
- Política Monetária dos EUA e dólar: O contexto macro indica um afrouxamento monetário iminente nos Estados Unidos, que historicamente favorece o ouro. Com a inflação americana recuando para cerca de 3% a.a. e riscos de desaceleração econômica, o mercado passou a precificar cortes na taxa básica do Fed já no final de 2025. Taxas de juros mais baixas reduzem o rendimento de ativos concorrentes (como títulos públicos) e tendem a enfraquecer o dólar, deixando o ouro mais atrativo. De fato, projeções apontam para um cenário de política monetária expansiva nos EUA em 2026, o que deve sustentar a busca por ouro como reserva de valor. Analistas do Goldman Sachs afirmam permanecer “estruturalmente otimistas” com o ouro, destacando que os cortes de juros do Fed e a diversificação de portfólios continuariam impulsionando entrada de capitais no metal. O Goldman, inclusive, vê viés de alta para sua projeção de preço, sugerindo potencial de o ouro superar as estimativas se a política frouxa levar a um dólar mais fraco do que o previsto.
- Demanda por proteção e tensões globais: 2025 tem sido marcado por um ambiente de frequentes choques geopolíticos e preocupações fiscais globais, o que sustenta o interesse no ouro como porto seguro. Conflitos regionais, risco de dívidas públicas insustentáveis em várias economias e mesmo incertezas políticas (como ameaças tarifárias renovadas por Trump contra a China) mantêm elevado o apelo do ouro para hedge. Sempre que surgem picos de risco ou volatilidade – por exemplo, escaladas em conflitos ou instabilidade nos mercados – os investidores tendem a recorrer ao ouro, o que limita quedas. Como comentou o HSBC, a expectativa é de alguma volatilidade no curto prazo, mas “qualquer aumento no risco deverá sustentar o ouro”. Em síntese, a conjuntura internacional ainda proporciona suporte: mesmo que haja alívios temporários (como a trégua comercial mencionada), permanecem no radar questões como inflação de longo prazo, conflitos e busca por proteção contra eventuais crises, fatores estes que favorecem o metal precioso.
Diante desses fundamentos, as projeções de mercado para o ouro foram revistas para cima em muitas casas de análise. Nos últimos relatórios de outubro, vários bancos elevaram suas estimativas de preço, indicando expectativa de preços robustos até o fim de 2025 e além. Por exemplo, o Goldman Sachs aumentou sua meta de longo prazo para US$ 4.900 em dezembro de 2026 (antes era US$ 4.300), prevendo que a forte demanda de investimento pode levar o ouro a um preço médio de US$ 4.525 em 2026, o que seria 33% acima da média esperada para 2025. Já o UBS, em nota de 3 de outubro, apontou que a onça poderia negociar em torno de US$ 4.200 nos próximos meses caso as condições atuais persistam – sinal de confiança de que o nível de US$ 4.000 não só se sustenta, como há espaço para retomada de altas moderadas. Grandes bancos europeus também se alinharam ao otimismo: o Commerzbank passou a projetar preço médio de US$ 4.000 em 2025 e US$ 4.200 em 2026, enquanto o Deutsche Bank estima que o ouro alcance cerca de US$ 4.300 no quarto trimestre de 2026 (acima do previsto anteriormente).
Mesmo no curto prazo (até dezembro de 2025), a leitura geral é de manutenção de preços em patamar historicamente elevado, com possibilidade de retomar gradualmente as máximas dependendo dos eventos macroeconômicos. Poucos analistas vislumbram queda acentuada daqui até o fim do ano – pelo contrário, a maioria espera estabilidade com viés de alta. Uma sondagem anual da London Bullion Market Association ilustra que quase todos os especialistas consultados previam preços maiores em 2025 (embora nenhum tenha antecipado níveis tão altos quanto US$ 4.300). Ou seja, o rali de 2025 superou até as previsões otimistas, o que reforça a necessidade de cautela, mas não invalida a tese de manutenção de preços fortes. Para o restante do ano, fatores como a decisão do Fed na virada de outubro/novembro, dados de inflação e a evolução de qualquer conflito geopolítico deverão ditar a volatilidade. Ainda assim, com base nas informações atuais, é razoável esperar que o ouro encerre 2025 próximo ou acima do patamar de US$ 4.000, possivelmente recuperando parte das perdas recentes caso se confirmem cortes de juros nos EUA ou se surjam novas ondas de aversão a risco no mercado global.
Importante destacar que há, sim, algumas vozes discordantes no mercado – embora minoritárias. A Capital Economics, por exemplo, argumenta que a trajetória do ouro se assemelha a “uma bolha de mercado em seu estágio final”, projetando que as cotações poderiam recuar para cerca de US$ 3.500 até o fim de 2026. Essa visão mais pessimista sugere que a disparada de 2025 não seria inteiramente sustentável e poderia inverter-se gradualmente. No entanto, contrapondo essa tese, instituições globais de grande porte como o HSBC estimam que o ouro se manterá valorizado: o banco espera um preço médio de US$ 4.600 em 2026, com possibilidade de atingir US$ 5.000 no início de 2026 caso os riscos continuem a respaldar compras de ouro. Ou seja, enquanto um ou outro analista teme um declínio mais profundo no longo prazo, a tônica predominante das projeções é de otimismo cauteloso – apostando em preços de ouro elevados, ainda que com oscilações, graças aos fundamentos (demanda forte e oferta limitada) e ao cenário macro favorável ao metal.
Manter ou Vender?
Consideremos agora a situação específica de um investidor que adquiriu ouro ao preço de US$ 4.000 por onça – via fundo multimercado no Banco do Brasil – com objetivo de preservação de capital no médio e longo prazo. Após a correção de final de outubro, esse investidor enfrenta um leve prejuízo não realizado (já que o ouro oscilou abaixo desse nível). A grande questão é: deve-se manter o investimento, confiando na recuperação futura, ou vender agora para evitar perdas maiores? A resposta exige ponderar as probabilidades de cada cenário com base na leitura atual do mercado.
- Cenário 1 – Manter o investimento (visão de longo prazo): A maior parte das análises recentes favorece a manutenção. Os fundamentos continuam apontando para um ouro forte adiante, e a queda de curto prazo é vista como episódica. Como descrito, praticamente nenhum grande analista vislumbra uma tendência de baixa persistente – na verdade, é consenso que o ouro segue em ciclo de alta estrutural (embora com possíveis correções pontuais). Bancos como Goldman Sachs, JPMorgan, HSBC, UBS, entre outros, reiteram perspectivas otimistas para 2025-2026, embasadas em demanda resiliente de bancos centrais, cortes de juros nos EUA e procura por hedge em cenários incertos. Isso sugere ser mais provável que o ouro recupere ou supere o patamar de US$ 4.000 no médio prazo, recompensando quem permanecer investido. Para um investidor focado em preservação de capital, vale lembrar que o ouro continua entre os ativos de melhor desempenho no ano e historicamente protege contra inflação e instabilidade. Mesmo após a maior queda em anos, o ouro mantinha-se quase 50% acima do nível de um ano antes, comprovando seu valor defensivo. Dessa forma, as chances de que manter o investimento resulte em benefício futuro são elevadas. Estimativas de mercado indicam uma probabilidade considerável (bem acima de 50%) de que o cenário altista prevaleça e o ouro se valorize novamente, dadas as condições favoráveis descritas. Em suma, para quem tem horizonte de médio a longo prazo, a recomendação predominante é de não se desfazer do ouro agora, pois os fatores de alta estrutural tendem a reassertar-se após a volatilidade de curto prazo. Além disso, vender neste momento cristalizaria um prejuízo num ativo cuja tese fundamental permanece intacta.
- Cenário 2 – Vender agora (visão de curto prazo ou de contenção de perdas): Por outro lado, há uma minoria de analistas que alerta para riscos de queda adicional, o que embasaria a decisão de venda imediata para proteger o capital. Esses poucos observadores mais pessimistas – exemplificados pela previsão da Capital Economics de ouro a US$ 3.500 em 2026 – veem a recente correção possivelmente como início de uma inversão de ciclo ou pelo menos como um topo importante. Argumentam que, após uma escalada tão rápida (bull market tão estendido), o ouro poderia enfrentar um período prolongado de ajuste ou marasmo. De fato, a história do mercado de ouro ensina cautela: em 2011, o ouro atingiu então um recorde e muitos estavam eufóricos, mas logo depois veio uma queda prolongada – e foram necessários nove anos para que o metal recuperasse aquele valor máximo de 2011. Esse precedente ilustra que, embora hoje poucos acreditem nisso, não se pode descartar completamente um cenário de colapso ou estagnação de vários anos caso os ventos mudem drasticamente (por exemplo, se a inflação sob controle e crescimento econômico reduzirem a atratividade do ouro, ou se os bancos centrais interromperem as compras). Alguns indicadores técnicos também merecem acompanhamento: o nível de US$ 4.000 é visto como um suporte psicológico importante, e uma quebra consistente abaixo dele poderia chamar mais vendas de curto prazo. Nesse contexto, as chances de que vender agora seja a melhor decisão são menores, mas não nulas. Poderíamos estimar que a probabilidade de um cenário baixista prolongado (que justificaria sair do investimento) esteja abaixo de 30%, considerando o consenso de mercado atual. Em outras palavras, trata-se de uma possibilidade remota segundo a maioria dos especialistas, mas existe – especialmente se surgirem novidades desfavoráveis (ex.: economia americana mais forte que reforce o dólar e os juros, ou um desinteresse súbito dos grandes compradores de ouro). Para investidores extremamente avessos a qualquer perda ou com horizonte muito curto, essa minoria de risco poderia justificar uma venda. Contudo, deve-se notar que esse não é o cenário base nas análises predominantes.
Em conclusão, para um investidor que comprou ouro a US$ 4.000 visando proteção de capital, a leitura atual do mercado sugere ser mais vantajoso manter o investimento, apesar do desconforto do curto prazo. A probabilidade de o ouro se recuperar e continuar servindo de hedge eficaz no médio/longo prazo é avaliada como alta, respaldada por fundamentos sólidos e pelo viés majoritariamente altista dos analistas. Vender agora, embora possa cessar um pequeno sangramento imediato, carrega o risco de abrir mão de uma valorização futura significativa, caso as projeções otimistas se confirmem. A menos que haja uma mudança substancial no panorama (por exemplo, sinais claros de que o Fed não cortará juros ou de que a demanda por ouro está desmoronando), a estratégia prudente para quem busca preservação de patrimônio tende a ser persistir com a posição em ouro. Em suma, as chances favorecem quem suporta a volatilidade de curto prazo e continua posicionado, e as perdas recentes podem ser vistas mais como oscilações naturais de um ativo de proteção do que como uma mudança permanente de direção. Conforme resumiu o analista Jim Wyckoff, uma melhora no apetite por risco temporariamente pesa sobre os metais de “porto seguro”, mas os mesmos fatores que impulsionaram o ouro em 2025 – juros mais baixos, compras institucionais e busca por segurança – continuam em jogo e devem voltar a sustentar os preços adiante.

