O preço do ouro será o principal termômetro do humor dos mercados nas próximas semanas, especialmente enquanto Ásia e Europa tentam decifrar o rumo da política monetária americana e os riscos geopolíticos. O metal já acumula alta superior a 50% no ano, após marcar recordes acima de 4.300 dólares a onça em outubro e, agora, consolidar-se em torno da faixa de 4.050 a 4.150 dólares. Nesse contexto, o preço do ouro passa a refletir, ao mesmo tempo, a expectativa de corte de juros pelo Fed em dezembro, a força da demanda asiática e o apetite europeu por proteção em meio à incerteza cambial e política.
Preço do ouro entre euforia e consolidação
Nas últimas semanas, o preço do ouro oscilou entre a euforia dos recordes históricos e um movimento de correção mais moderado. Após tocar máximas próximas de 4.380 dólares a onça em outubro, o metal recuou e hoje opera ligeiramente abaixo de 4.100 dólares, com sinais claros de consolidação. Analistas em Ásia e Europa descrevem esse comportamento como uma pausa técnica em um ciclo estrutural de alta, e não como o fim do movimento.
Em relatórios recentes, casas de análise projetam faixas de negociação relativamente estreitas para as próximas semanas. Há consenso de que o preço do ouro tende a oscilar entre suportes próximos de 4.000 dólares e resistências em torno de 4.160 a 4.260 dólares, à espera de dados macroeconômicos atrasados nos Estados Unidos e de sinais mais claros sobre a decisão do Fed em dezembro. Assim, o mercado passa a adotar estratégia de “comprar nas quedas”, apostando que recuos pontuais podem ser oportunidades em uma tendência ainda positiva.
Ao mesmo tempo, persiste o debate sobre possíveis excessos. Alguns bancos de investimento alertam para o risco de “mini-bolha”, observando que o preço do ouro avançou mais rápido do que índices acionários e que parte do movimento foi alimentada por fluxos especulativos e por compras sincronizadas de fundos e investidores de varejo. Outros, porém, enfatizam que a combinação de juros reais baixos, endividamento público elevado e incerteza geopolítica oferece base estrutural para preços elevados por mais tempo.
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Preço do ouro e o papel da Ásia nas próximas semanas
Na Ásia, o preço do ouro está intimamente ligado ao comportamento de bancos centrais e ao apetite de investidores locais. Um levantamento recente do World Gold Council mostra que a demanda global por ouro cresceu cerca de 3% no terceiro trimestre, com destaque para o aumento de 10% nas compras de bancos centrais, que atingiram quase 220 toneladas no período. Grande parte desse movimento veio justamente de autoridades monetárias asiáticas, em países como China, Índia e Indonésia, que seguem diversificando reservas e reduzindo a dependência do dólar.
Esse pano de fundo tem implicações diretas para as próximas semanas. Enquanto uma autoridade do banco central das Filipinas chegou a sugerir, em público, que o país poderia reduzir parte de suas reservas de ouro, aproveitando os preços historicamente elevados, o debate interno revela mais um ajuste de portfólio do que uma reversão de tendência. A mensagem dominante continua sendo de manutenção ou expansão gradual das reservas, o que tende a dar suporte ao preço do ouro sempre que houver correções mais fortes.
No mercado asiático de derivativos, o volume de contratos de ouro negociados segue em alta, reforçando a percepção de que a região terá papel central na formação de preços no fim de 2025. Estudo recente aponta que 95% dos bancos centrais consultados esperam aumento das reservas globais de ouro nos próximos 12 meses, o que ancora a visão de que o metal seguirá como porto seguro em um mundo marcado por tensões comerciais, conflitos regionais e dúvidas sobre a trajetória do dólar.
Assim, para as próximas semanas, a leitura predominante na Ásia é de que o preço do ouro permanecerá sensível a qualquer notícia sobre o Fed, mas encontrará forte demanda de bancos centrais e investidores locais sempre que recuar em direção à casa dos 4.000 dólares. Isso cria um piso relevante para o mercado e aumenta a probabilidade de que o metal chegue a dezembro ainda em níveis historicamente elevados.
Preço do ouro e o apetite europeu por proteção
Na Europa, o preço do ouro está cada vez mais associado à busca por proteção em um ambiente de taxas de juros estáveis, mas incerteza fiscal e cambial. O Banco Central Europeu mantém a taxa de depósito em torno de 2%, com inflação próxima da meta e crescimento moderado, o que reduz o atrativo relativo dos títulos de curto prazo em euro. Nesse cenário, o ouro volta a se destacar como ativo de diversificação e escudo contra choques sistêmicos.
Estudos do próprio BCE indicam que, historicamente, o preço do ouro tende a se valorizar em episódios de stress financeiro e geopolítico, superando o desempenho médio de ações globais e, em muitos casos, de títulos soberanos. Em 2025, essa dinâmica ficou evidente: a combinação de incerteza em relação à dívida pública, volatilidade cambial e debates internos sobre integração europeia estimulou forte procura por ouro físico e por ETFs lastreados em ouro em vários países da zona do euro.
Nas próximas semanas, investidores europeus devem continuar monitorando, com atenção, dois vetores principais. Primeiro, a trajetória do Fed e a probabilidade de corte de juros em dezembro, atualmente estimada em torno de 40% a 45% pelos mercados futuros. Um Fed menos disposto a afrouxar a política monetária tende a fortalecer o dólar, o que pode moderar o preço do ouro em dólares, mas, ao mesmo tempo, valorizar o metal em euros caso a moeda única permaneça sob pressão. Segundo, o desenrolar de crises geopolíticas e comerciais, que continuam alimentando a demanda por ativos considerados porto seguro.
Dessa forma, a expectativa dominante é que o preço do ouro siga oscilando, mas em patamar elevado, com investidores europeus tratando qualquer recuo como oportunidade de reforço de posição estrutural. Para dezembro, não se descarta um novo teste das máximas recentes, sobretudo se o cenário combinar corte de juros pelo Fed, sinais de desaceleração americana e renovação das tensões no sistema financeiro global.
Preço do ouro, fed e cenários até dezembro
O elo entre o preço do ouro e o Fed será decisivo na virada de novembro para dezembro. A sequência de dados atrasados de inflação, emprego e atividade nos Estados Unidos, após o longo shutdown, continua sendo incorporada pelos modelos de projeção de juros. À medida que essas informações forem divulgadas nas próximas semanas, o mercado poderá ajustar, para cima ou para baixo, a probabilidade de um corte de 25 pontos-base na reunião de dezembro.
Se os dados indicarem desaceleração mais forte da economia americana, com inflação sob controle, o cenário base de muitos analistas da Ásia e Europa é de um Fed moderadamente mais “dovish”, ou seja, uma postura de política monetária que prioriza o estímulo do crescimento econômico e do emprego, muitas vezes através da manutenção de taxas de juros baixas ou de sua redução. Nesse caso, o preço do ouro teria espaço para retomar a trajetória de alta, impulsionado pela queda dos juros reais, pelo enfraquecimento do dólar e pela retomada de fluxos para ETFs de ouro. Estimativas otimistas projetam que, em um ambiente de risco elevado e afrouxamento gradual da política monetária, o metal poderia se aproximar novamente das máximas históricas e, em horizontes mais longos, até superar a casa de 4.700 ou 4.900 dólares nos próximos anos.
Por outro lado, se os dados vierem mais fortes, sugerindo que a inflação subjacente ainda preocupa e que o mercado de trabalho permanece apertado, o Fed pode optar por adiar o corte de dezembro. Nesse cenário alternativo, o preço do ouro tenderia a passar por nova rodada de correção, com parte dos ganhos recentes sendo devolvida. Ainda assim, analistas europeus e asiáticos ressaltam que a base estrutural de suporte continua sólida, graças à demanda firme de bancos centrais, à percepção de desvalorização de moedas fiduciárias e ao uso crescente do metal como hedge contra riscos geopolíticos.
Portanto, para as próximas semanas e para dezembro, o quadro geral é de volatilidade controlada em patamar elevado. O preço do ouro deve continuar reagindo, quase em tempo real, às mudanças nas expectativas sobre o Fed, às decisões do BCE e aos movimentos de bancos centrais asiáticos. Para investidores globais, isso significa que o metal seguirá sendo ativo central nas decisões de alocação, com potencial de proteção em cenários adversos e risco de correção caso a normalização monetária ocorra de forma mais rápida do que o previsto. Em qualquer uma dessas hipóteses, o preço do ouro permanecerá no centro do debate econômico internacional até o fechamento de 2025.

