Poluição das praias: Baixada Santista sob alerta

por Marco Antonio Portugal
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poluição das praias

A poluição das praias voltou ao centro do debate na Baixada Santista em março de 2026, em plena reta final do verão e com o litoral ainda lotado de turistas e moradores. A combinação de esgoto sem tratamento, lixo deixado na faixa de areia e chuvas fortes transformou o cenário de cartão-postal em um ambiente de risco, com dezenas de trechos impróprios para banho em todo o litoral paulista, muitos deles concentrados justamente na região mais próxima da capital.

Balneabilidade em queda no fim do verão

No fim de fevereiro e início de março, boletins da Cetesb mostraram que a Baixada Santista concentrou mais da metade dos pontos considerados impróprios para banho em todo o litoral de São Paulo. Em um dos levantamentos, 51 pontos da região apareceram sinalizados com bandeira vermelha, indicando risco à saúde e recomendação expressa para evitar o contato com a água do mar.

A situação acompanha uma tendência já observada desde janeiro: as praias mais próximas da capital, como Santos, São Vicente, Praia Grande e Guarujá, vêm registrando as piores condições de balneabilidade do estado. Em Santos, por exemplo, mais da metade das praias monitoradas chegou a ficar sem condições adequadas para banho, cenário que se repetiu em parte da orla de Praia Grande e Guarujá.

Essa classificação leva em conta a presença de bactérias de origem fecal na água. Quando os índices ultrapassam o limite considerado seguro — mais de 100 colônias em 100 mililitros de água — a Cetesb passa a considerar o trecho impróprio para banho, acionando a bandeira vermelha e alertas nas placas instaladas na orla. O órgão mantém um monitoramento contínuo ao longo de 256 quilômetros de costa, o que permite acompanhar a evolução da poluição das praias semana a semana.

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Lixo de verão e esgoto: uma mistura explosiva

Entre as principais causas da poluição das praias da Baixada Santista está o despejo de esgoto sem tratamento ou com tratamento insuficiente, que chega ao mar por meio de canais, córregos e redes de drenagem pluvial. Ligações clandestinas entre redes de esgoto e de águas de chuva fazem com que dejetos domésticos escorram diretamente para os canais urbanos, que deságuam na faixa de areia.

Reportagens recentes mostram que essa contaminação não ocorre por um único motivo, mas pela soma de fatores estruturais e comportamentais. Técnicos e moradores apontam a infiltração de esgoto em tubulações de águas pluviais, a existência de áreas irregulares sem acesso à rede de coleta e a sobrecarga dos sistemas de saneamento durante a alta temporada como elementos centrais desse quadro.

O lixo deixado nas praias agrava ainda mais a poluição das praias, principalmente em feriados e grandes eventos. No Réveillon, quase 900 toneladas de resíduos foram retiradas das praias do litoral paulista, com destaque para Santos e Mongaguá, onde latas, garrafas, restos de comida e outros objetos tomaram a areia horas depois da virada do ano. Parte desse material acaba arrastada pela maré ou pela chuva para o mar, aumentando a carga de poluentes, atraindo vetores de doenças e impactando a fauna marinha.

As chuvas típicas de verão funcionam como um gatilho. Quando temporais atingem a região, o escoamento superficial carrega para rios, canais e praias uma mistura de lixo acumulado nas ruas, dejetos de animais, óleos, resíduos industriais e esgoto que extravasa pela rede. Por isso, a orientação é que banhistas evitem o mar nas 24 horas seguintes a chuvas fortes, mesmo em pontos que, em condições normais, aparecem como próprios para banho no boletim da Cetesb.

Saneamento e ocupação irregular no centro do problema

A poluição das praias da Baixada Santista também expõe o desafio da urbanização desigual e da falta de infraestrutura plena de saneamento básico. Em Santos, a prefeitura reconhece que cerca de 50 mil pessoas vivem em áreas irregulares, muitas delas sem ligação adequada à rede de esgoto, o que aumenta o risco de lançamentos clandestinos em canais e córregos que chegam ao mar.

Bairros vulneráveis, muitas vezes erguidos em manguezais ou áreas de várzea, acabam recorrendo a soluções improvisadas para o descarte de esgoto, que contaminam tanto o solo quanto a água. Para tentar reverter esse cenário, programas habitacionais e de urbanização em núcleos como Vila Esperança e Vila dos Pescadores preveem a instalação de redes de coleta e tratamento, além de unidades habitacionais regulares.

A Sabesp, responsável pelo saneamento em grande parte da região, promete investir bilhões de reais no litoral paulista até o fim da década, com foco na ampliação do tratamento de esgoto e na modernização das redes. No entanto, flagrantes de poços de visita transbordando esgoto direto para galerias de águas pluviais mostram que, enquanto essas obras não se consolidam, o impacto na qualidade da água do mar continua evidente na poluição das praias.

Fiscalizações sobre ligações irregulares também foram intensificadas. Entre 2023 e 2024, ações específicas identificaram mais de uma centena de irregularidades em imóveis que despejavam esgoto em canais, situação que exige não só punição, mas programas de orientação e apoio técnico para adequação das instalações.

Riscos à saúde para quem entra no mar

Os riscos associados à poluição das praias vão muito além do incômodo visual ou do mau cheiro. A água classificada como imprópria normalmente apresenta altos níveis de bactérias como Escherichia coli e enterococos, indicadoras de contaminação fecal, o que aumenta a probabilidade de infecções em quem se expõe ao mar.

Médicos alertam para casos de gastroenterites, com sintomas como diarreia, náuseas, vômitos, dor abdominal e febre, após o banho em trechos poluídos. Crianças, idosos e pessoas com imunidade baixa são mais vulneráveis, especialmente quando engolem água do mar, algo comum em banhos prolongados ou em brincadeiras na arrebentação.

Problemas de pele também aparecem com frequência, como dermatites, coceiras, irritações e infecções em pequenos cortes ou feridas, favorecidas pelo contato direto com água contaminada por esgoto e resíduos químicos. Em alguns casos, o contato com microrganismos presentes na água poluída pode provocar otites, conjuntivites e infecções de vias respiratórias, principalmente em quem mergulha de cabeça ou passa muito tempo dentro do mar.

Especialistas ressaltam que nem sempre a poluição das praias é visível. Água aparentemente limpa pode apresentar níveis elevados de bactérias, motivo pelo qual a recomendação é seguir a sinalização das bandeiras e consultar o mapa interativo da Cetesb antes de decidir em qual trecho da orla entrar. A negligência com esses avisos, muito comum em dias de calor intenso, aumenta a chance de surtos localizados de doenças de veiculação hídrica.

O que pode mudar o cenário

Para reverter o quadro atual de poluição das praias na Baixada Santista, especialistas apontam a necessidade de ações em duas frentes: investimento em infraestrutura e mudança de comportamento da população. De um lado, ampliar a coleta e o tratamento de esgoto, corrigir ligações clandestinas, reforçar a drenagem urbana e garantir a manutenção de estações e redes em períodos de alta temporada.

De outro, fortalecer campanhas de conscientização sobre o descarte correto de lixo, o uso adequado de redes de esgoto e a importância de respeitar a sinalização de balneabilidade. Prefeituras da região vêm apostando em mutirões de limpeza na areia, ações educativas e divulgações nas redes sociais e nos acessos à praia, mas os números de resíduos recolhidos após feriados mostram que ainda há um longo caminho até mudar hábitos arraigados.

A poluição das praias, porém, não é apenas um problema ambiental ou de saúde; é também uma questão econômica. O turismo de verão é uma das principais fontes de renda para o comércio e os serviços da Baixada Santista, e a imagem de um mar impróprio para banho afeta diretamente hotéis, bares, restaurantes e ambulantes que dependem do fluxo de visitantes.

Enquanto o poder público tenta equilibrar a expansão urbana, os investimentos em saneamento e a preservação ambiental, moradores e frequentadores das praias sentem na pele os efeitos da poluição das praias. Para quem desce a serra em busca de alívio do calor, o desafio é aprender a olhar além da paisagem, checar a qualidade da água e cobrar soluções permanentes para que a Baixada Santista volte a fazer jus à fama de principal refúgio de mar e areia dos paulistas.

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