quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Os EUA querem a América Latina?

por Maria Gabriela Portugal
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Os EUA querem a América Latina? Análise Crítica da Estratégia dos EUA na América Latina.

O recente ataque dos EUA à Venezuela é apenas um fio de uma tapeçaria mais ampla que caracteriza a ofensiva imperialista dos Estados Unidos contra toda a América Latina. Esta estratégia foi explicitamente delineada na Estratégia de Segurança Nacional de 2025, formulada durante o governo Trump.

Imposição de Hegemonia e a Nova Doutrina Monroe

Os EUA buscam reafirmar sua hegemonia no hemisfério ocidental, reanimando a histórica Doutrina Monroe, agora reinterpretada como a “Doutrina Donroe”. Esta estratégia pretende evitar a influência de potências rivais, particularmente a China, e garantir que os interesses americanos permaneçam predominantes na região. A retórica utilizada muitas vezes gira em torno da proteção da “democracia”, mas, na prática resulta em ações que, em vez de promover a soberania dos países latino-americanos, muitas vezes a precarizam.

A estratégia do governo dos EUA se baseia na noção de que a América Latina é uma extensão de sua própria esfera de influência, levando a intervenções políticas e militares. Essa lógica imperialista se reflete na atitude muitas vezes condescendente com que Washington trata as nações da América Latina, percebendo-as como subalternas aos seus interesses.

Controle de Recursos Naturais

Um dos principais objetivos dessa estratégia é garantir que corporações norte-americanas tenham controle sobre recursos naturais essenciais, incluindo minerais críticos e terras raras. Esses recursos são fundamentais para a indústria moderna, desde a produção de tecnologia até armamentos. A intenção é estabelecer uma nova cadeia de suprimentos no hemisfério que exclua a China, preparando-se para um eventual conflito com Pequim.

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A apropriação desses recursos, muitas vezes em parceria com governos locais, não é apenas uma questão econômica; é uma questão de poder geopolítico. O fortalecimento do controle sobre esses bens naturais confere aos EUA uma vantagem estratégica significativa que pode ser utilizada em disputas internacionais.

Mudanças na Manufatura e Exploração do Trabalho

O governo Trump reconheceu que a fabricação retornará em parte à América Latina, não aos EUA. Essa transferência, conhecida como “near-shore manufacturing”, visa explorar mão de obra local com salários muitas vezes baixos, enquanto os produtos são criados para o mercado norte-americano.

Essas práticas não apenas minam os direitos dos trabalhadores na região, mas também perpetuam um ciclo de dependência econômica. À medida que os países latino-americanos se tornam locais de produção de baixo custo, sua capacidade de desenvolver uma base industrial própria é severamente comprometida. Por conseguinte, esse modelo aprofunda a exploração econômica e aumenta a desigualdade social.

Geopolítica e Infraestrutura

Além do controle dos recursos, os EUA estão direcionando esforços para dominar a infraestrutura crítica na América Latina. Isso inclui estratégias para pressionar países a reverter investimentos chineses em projetos de infraestrutura, como o Porto de Chancay no Peru, construído com capital chinês. Essa dinâmica é multifacetada, pois não apenas envolve a construção e a operação de infraestrutura, mas também a criação de uma rede que favorece os interesses americanos em detrimento da autonomia regional.

Tal interação pode resultar em pressões políticas diretas sobre governos latino-americanos para restringir investimentos da China. O uso da influência diplomática e econômica para criar um isolamento da China na região é um componente central dessa estratégia, refletindo um paradigma de competição global que se intensifica em várias esferas, incluindo o comércio, a política e a segurança.

Uma Nova Guerra Fria e 3⁠ª Guerra Mundial

A relação dos EUA com a América Latina reflete uma nova dinâmica de Guerra Fria. Esta fase é caracterizada por uma pressão constante para cortar laços com a China em nome da segurança nacional dos EUA. A interferência nas políticas internas de países, como demonstrado na visita de Marco Rubio ao Panamá para pressionar a retirada da Iniciativa do Cinturão e Rota da China, ilustra essa nova realidade geopolítica.

Espera-se que, nesse contexto, os EUA intensifiquem esforços em fóruns internacionais para minar a influência da China na região, tencionando criar uma aliança entre países que compartilhem a visão de um hemisfério onde as potências não ocidentais não tenham espaço para expandir sua influência.

Nesse contexto, a América Latina não é o gatilho de uma Terceira Guerra Mundial, mas arrisca se tornar um território permanentemente submetido à lógica do conflito global indireto. A história mostra que grandes guerras não começam apenas com decisões conscientes, mas com a naturalização da força como instrumento legítimo de política externa.

O maior perigo, portanto, não é uma explosão militar imediata, mas a consolidação de um sistema internacional onde a soberania é relativa, a democracia é seletiva e o direito internacional é subordinado aos interesses das grandes potências. Quando a imposição substitui o diálogo e a coerção ocupa o lugar da cooperação, o mundo não caminha para a estabilidade — caminha para a instabilidade crônica.

Interferência Política e Mudança de Regimes

Os EUA também têm mostrado seu apoio a regimes de direita na região, como evidenciado pela interferência nas eleições de Honduras. A nova administração em Honduras, supostamente protetora dos interesses americanos, poderá romper formalmente com a China. Essas ações indicam uma disposição clara dos EUA para usar intervenções políticas como ferramenta para estabelecer governos simpáticos que sigam a agenda de Washington.

Além disso, as iniciativas de mudança de regime, apoiadas abertamente pelo governo Trump e figuras como Marco Rubio, têm o propósito de desestabilizar governos considerados hostis. Esse suporte deve ser visto no contexto de ações revolucionárias ao longo da história da América Latina, onde intervenções estabeleceram regimes que serviam a interesses econômicos ocidentais, ao mesmo tempo, em que desconsideravam a vontade popular.

Interferência Eleitoral e Soberania Nacional

Com eleições importantes programadas para 2026 em países como Brasil e Colômbia, é altamente provável que o governo Trump busque influenciar esses processos eleitorais para favorecer candidatos alinhados aos interesses dos EUA. O objetivo é colocar em posição de poder candidatos que aceitem subordinar suas políticas aos interesses norte-americanos, como o que ocorreu recentemente na Argentina.

Além disso, há até ameaças direcionadas ao México, cujo governo independente enfrenta a pressão americana. Essa situação não só ilustra a crescente tensão entre os EUA e governos de esquerda, mas também destaca a preocupação do México em manter sua soberania diante de pressões externas.

Imperialismo e Desafios à Democracia

Por fim, a retórica sobre democracia vinda de autoridades ocidentais é contraditória e distante da realidade. A constante interferência dos EUA em processos democráticos, acompanhada de sanções e golpes de Estado, é um obstáculo significativo para a verdadeira democracia na América Latina e no Sul Global. A hipocrisia demonstrada por potências ocidentais que falam em defesa da democracia enquanto realizam ações que a comprometem é visível, na prática.

Em suma, a verdadeira democracia requer um ambiente onde os países possam exercer sua soberania livre de ameaças e intervenções externas. Para que os países da América Latina possam florescer democraticamente, é imprescindível reverter a lógica imperialista imposta por potências hegemônicas, permitindo que a autonomia local prevaleça e que os povos possam decidir seus próprios destinos. Essa luta pela soberania e pela verdadeira democracia representa um desafio contínuo, frente a um cenário internacional que se mostra cada vez mais complexo.

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