Organização vinculada à CIA financiará profissionais no Brasil
Um acordo entre o Banco Mundial e a organização norte-americana NobleReach Foundation prevê o financiamento, treinamento e envio de profissionais dos Estados Unidos para escritórios da instituição no Brasil, Panamá e Colômbia. A iniciativa chamou atenção pelas conexões da entidade com estruturas de inteligência, defesa e segurança nacional dos Estados Unidos.
Pelo acordo, a NobleReach fará uma doação de US$ 500 mil a um fundo do Banco Mundial para financiar oito posições na América Latina. Quatro delas estarão no Brasil — duas em Brasília e duas em São Paulo — e as demais serão distribuídas entre Panamá e Colômbia. As vagas são destinadas a cidadãos norte-americanos e abrangem áreas como análise financeira, infraestrutura e administração.
O que é a NobleReach?
A NobleReach Foundation é uma organização norte-americana sem fins lucrativos que afirma trabalhar na aproximação entre governo, universidades e setor privado, principalmente em áreas consideradas estratégicas, como ciência, tecnologia, inovação e formação de profissionais para o serviço público.
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A ligação com o universo da inteligência norte-americana ocorre principalmente por meio da In-Q-Tel (IQT), organização de investimento tecnológico criada originalmente com apoio da CIA para aproximar tecnologias desenvolvidas no setor privado das necessidades da comunidade de inteligência dos Estados Unidos.
Em 2022, a NobleReach incorporou a IQT Emerge, iniciativa que fazia parte da In-Q-Tel. A própria NobleReach registra essa origem em sua história institucional.
A organização também reúne profissionais com experiência em órgãos de inteligência e segurança nacional. Entre eles está Glenn Gaffney, que passou décadas na comunidade de inteligência dos Estados Unidos e ocupou o cargo de diretor de Ciência e Tecnologia da CIA.
A NobleReach mantém ainda iniciativas relacionadas à DARPA, agência de pesquisa avançada do Departamento de Defesa norte-americano, trabalhando na transformação de pesquisas financiadas pelo governo em tecnologias e empresas. Inteligência artificial, biotecnologia, computação e cibersegurança estão entre as áreas envolvidas.
A NobleReach possui vínculos históricos e profissionais com o ecossistema de inteligência, defesa e segurança nacional dos Estados Unidos.
Atuação no Brasil gera questionamentos
Além de financiar os profissionais, a NobleReach deverá oferecer treinamento e mentoria aos participantes do programa. O arranjo provocou questionamentos internos no Banco Mundial, sobretudo diante do perfil da organização financiadora e da presença dos profissionais em escritórios de uma instituição multilateral.
Outro ponto de atenção é a natureza dos projetos nos quais esses profissionais trabalharão. Entre as questões levantadas está a possibilidade de participação em áreas economicamente estratégicas.
O Banco Mundial sustenta que os participantes estarão submetidos às suas próprias normas, padrões de conduta e estrutura administrativa, respondendo aos gestores da instituição e não à NobleReach durante suas atividades.
O episódio coloca em discussão uma questão mais ampla: até que ponto organizações vinculadas ao ecossistema de segurança nacional de uma potência estrangeira devem participar do financiamento e da formação de profissionais que atuarão dentro de organismos multilaterais em países como o Brasil?
Mais do que comprovar uma operação de inteligência, o caso abre um debate sobre transparência, soberania, conflitos de interesse e influência estrangeira em instituições internacionais que operam em setores estratégicos da economia brasileira.

