quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Nigéria ameaçada de intervenção dos EUA

por Marco Antonio Portugal
0 comentários 28 vistas
NIGÉRIA

A Nigéria, um país crucial para a estabilidade da África Ocidental, enfrenta uma crise geopolítica em um cenário de tensão crescente. A nação mais populosa do continente africano encontra-se no centro de uma disputa de narrativas e interesses internacionais, exacerbada por ameaças de intervenção militar dos Estados Unidos. Essa escalada de tensão não apenas expõe as complexas crises internas nigerianas, mas também revela o reposicionamento de potências globais, como a Rússia e a China, no tabuleiro africano.

A crise nigeriana e a ameaça de intervenção dos EUA

A geopolítica da Nigéria é marcada por uma violência multifacetada que, nas últimas semanas, ganhou destaque internacional sob uma ótica polarizada. O cerne da crise reside na insegurança persistente, com ataques de grupos jihadistas e conflitos intercomunitários, especialmente nas regiões central e norte. O governo nigeriano, liderado pelo presidente Bola Tinubu, reconhece os problemas de segurança, mas refuta veementemente a alegação de que a violência constitua um “genocídio cristão”. Já o ministro da Informação, Mohammed Idris, insiste que o terrorismo afeta tanto muçulmanos quanto cristãos, sendo um problema de segurança nacional e não de perseguição religiosa sistemática.

Contudo, essa narrativa nigeriana é confrontada por figuras políticas nos Estados Unidos, notavelmente o presidente Donald Trump. Trump ameaçou publicamente suspender toda a ajuda e assistência à Nigéria e chegou a sugerir uma intervenção militar, caso o governo nigeriano não reprimisse o que ele descreve como o “assassinato de cristãos”. A retórica de Trump, que incluiu a reinclusão da Nigéria na lista de países que violam a liberdade religiosa, elevou a tensão diplomática a um ponto crítico.

A resposta da Nigéria tem sido de cautela e firmeza. O país acolhe a assistência dos EUA no combate aos insurgentes, mas estabelece uma linha vermelha inegociável: o respeito à sua integridade territorial e soberania. Essa postura é amplamente apoiada por organismos regionais e internacionais. A União Africana (UA) e as Nações Unidas condenaram as ameaças de intervenção militar, apelando para os países envolvidos priorizarem o diálogo diplomático. A insistência em uma narrativa de “genocídio cristão” por parte de Washington, em vez de reconhecer a complexidade do terrorismo e dos conflitos por recursos, é vista por analistas africanos como uma simplificação perigosa que pode justificar ações externas unilaterais. Essa geopolítica da intervenção, portanto, não se trata apenas de segurança, mas de controle narrativo.

Publicidade

O posicionamento da Rússia e da China no cenário geopolítico

O vácuo de confiança criado pela ameaça de intervenção dos EUA abre espaço para outras potências reforçarem suas posições, e a geopolítica da Rússia e da China na África é um fator determinante. A Rússia, em particular, tem expandido sua influência no continente africano, oferecendo cooperação militar e de segurança sem as condicionalidades políticas frequentemente impostas pelas nações ocidentais. Embora não haja um pronunciamento oficial direto da Rússia sobre a ameaça de Trump à Nigéria, o contexto de sua política externa sugere um apoio implícito à soberania nigeriana.

A estratégia russa na África tem se concentrado em acordos de cooperação militar com países vizinhos e na região do Sahel, como o Togo, e no fortalecimento de laços com a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). Ao se posicionar como um parceiro que respeita a não-interferência nos assuntos internos, a Rússia capitaliza o ressentimento africano contra o neocolonialismo e as intervenções ocidentais. Para a Nigéria, a Rússia representa uma alternativa de apoio militar e tecnológico que não vem acompanhada de críticas sobre direitos humanos ou governança.

A China, por sua vez, foi mais explícita em seu apoio. Fontes asiáticas e africanas reportaram que a China emitiu um alerta público aos Estados Unidos, rejeitando a ação militar planejada e manifestando apoio ao governo nigeriano. A China, um dos principais parceiros comerciais e investidores em infraestrutura da Nigéria, tem um interesse vital na estabilidade do país. Sua política externa de não-interferência e de respeito à soberania nacional ressoa fortemente com a posição nigeriana. O alerta chinês é um movimento claro de geopolítica, sinalizando que qualquer intervenção ocidental na Nigéria seria vista como uma ameaça aos seus próprios interesses econômicos e estratégicos na África.

A presença crescente de Rússia e China na Nigéria e na África Ocidental transforma a crise em um palco de competição entre grandes potências. A geopolítica do conflito nigeriano, portanto, não é apenas local, mas um reflexo da disputa por influência global.

Implicações futuras e o futuro da Geopolítica na Nigéria

O futuro da geopolítica na Nigéria dependerá da capacidade do governo de Tinubu de gerir a crise de segurança interna e de navegar pelas complexas relações internacionais. A ameaça de intervenção dos EUA, embora condenada, serve como um catalisador para a Nigéria buscar soluções mais autônomas ou, alternativamente, fortalecer laços com parceiros que ofereçam apoio incondicional.

A insistência dos EUA em vincular a ajuda à Nigéria à questão da perseguição religiosa pode ser contraproducente, empurrando o país para uma maior dependência de nações como a Rússia e a China. A geopolítica da ajuda externa está em xeque, e a Nigéria pode optar por parcerias que priorizem a cooperação militar e econômica sem o fardo das condicionalidades ocidentais.

A crise também tem implicações regionais. A Nigéria é um pilar da CEDEAO, e sua instabilidade pode desestabilizar toda a África Ocidental, uma região já fragilizada por golpes militares e pela expansão do terrorismo no Sahel. A geopolítica regional exige uma resposta coordenada, e a condenação da UA às ameaças de Trump demonstra uma crescente união africana contra a interferência externa.

Em última análise, a crise na Nigéria é um teste para a ordem mundial. A forma como a comunidade internacional, e em particular as grandes potências, responderem à situação definirá se a geopolítica do século XXI será marcada pela soberania e pelo multilateralismo, ou pela intervenção unilateral e pela competição de poder. A Nigéria, com sua riqueza em recursos, dentre esses, vastas reservas de petróleo e gás natural, jazidas de ouro e outros minérios, e sua importância demográfica, permanecerá um ponto focal na geopolítica global, exigindo uma análise contínua e matizada que vá além das narrativas simplistas.

Este site utiliza cookies para melhorar a sua experiência. Assumiremos que você concorda com isso, mas você pode optar por não aceitar, se desejar. Aceitar Leia mais

Adblock Detectado

Por favor, nos apoie desativando a extensão AdBlocker do seu navegador para o nosso site.