Narcoterrorismo é a palavra-chave que ecoa nos noticiários internacionais ao descrever a recente e letal megaoperação policial no Rio de Janeiro. A ação, que se tornou a mais sangrenta da história do Brasil, com um saldo de mais de 120 mortos, não somente chocou, mas também gerou uma onda de análises e críticas em veículos de comunicação de diversos países. A narrativa adotada pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, ao classificar as facções criminosas como “narcoterroristas”, foi o ponto de partida para uma discussão que transcende as fronteiras brasileiras.
France 24, por exemplo, destacou a apreensão recorde de mais de US$ 2 milhões em armamentos, incluindo fuzis de guerra como AK-47 e FAL, alguns provenientes de países como Argentina, Bélgica, Alemanha, Peru, Rússia e Venezuela. A reportagem enfatiza a declaração do Secretário de Polícia Civil do Rio, Felipe Curi, que descreveu o arsenal como “típico de um cenário de guerra”. Contudo, a mesma reportagem da France 24 equilibra a informação ao mencionar a condenação de organizações de direitos humanos e o pedido de investigação da Organização das Nações Unidas (ONU), além de denúncias de execuções sumárias por parte de familiares das vítimas.
Além disso, a imprensa internacional, em geral, tem focado na brutalidade da operação e nas questões de direitos humanos. O Financial Times, por sua vez, analisou a operação sob a ótica da política interna brasileira, sugerindo que a letalidade da ação expõe a fragilidade política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em lidar com a segurança pública. O jornal britânico aponta que a pressão por uma postura mais dura contra o crime organizado levou até mesmo o presidente de esquerda a endossar, ainda que de forma velada, a necessidade de combater o crime organizado, apresentando um projeto de lei que propõe 30 anos de prisão para membros de facções.
A adoção do termo narcoterrorismo pelo governo do Rio de Janeiro é vista por analistas internacionais como uma emulação de retóricas de linha-dura já utilizadas por líderes como Donald Trump nos Estados Unidos e Nayib Bukele em El Salvador. Essa terminologia não é somente uma escolha de palavras; ela tem implicações profundas, por equipar o crime organizado a grupos terroristas, o que, segundo especialistas, pode justificar medidas de exceção e a supressão de direitos e garantias. A BBC News Brasil, em uma análise sobre o tema, mencionou como a terminologia emula ideias de Trump e Bukele sobre terrorismo e tráfico de drogas, reforçando uma narrativa bélica. A escolha da palavra narcoterrorismo pelo governador Castro, um político conservador, é interpretada como um movimento estratégico para alinhar a política de segurança do Rio a uma agenda global de combate ao crime com tintas de guerra, buscando legitimidade e, possivelmente, apoio externo. Essa discussão sobre o narcoterrorismo no contexto carioca, portanto, é um reflexo de tendências internacionais de segurança pública. A repercussão internacional, ao questionar a letalidade e a retórica do narcoterrorismo, coloca o Brasil no centro de um debate crucial sobre direitos humanos e estratégias de segurança.
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Envolvimento dos EUA e a guerra ao narcotráfico
A busca por um possível envolvimento ou apoio dos Estados Unidos na megaoperação do Rio de Janeiro levou a uma análise de contexto mais ampla, que conecta a retórica do narcoterrorismo a uma política externa americana mais agressiva no combate às drogas na América Latina. Embora não haja nenhuma fonte internacional que afirme categoricamente o envolvimento direto dos EUA na operação policial no Rio, a imprensa tem traçado paralelos entre a postura do governo do Rio e as ações americanas na região.
O cerne da especulação reside na recente intensificação da “guerra às drogas” promovida pelos EUA no Caribe e no Pacífico. A BBC News Brasil detalhou a rota do tráfico de drogas para os EUA e mencionou os ataques militares americanos a embarcações suspeitas no Caribe, autorizados pelo presidente Donald Trump. Desde setembro, as forças americanas têm realizado ataques que resultaram em dezenas de mortes, com a justificativa de combater o tráfico. Essa ofensiva, que inclui o envio de navios de guerra e até mesmo um porta-aviões nuclear para a região, demonstra uma escalada militar na luta contra o narcotráfico.
A coincidência temporal e a similaridade retórica entre a classificação de narcoterrorismo no Rio e a política de Trump de classificar cartéis como grupos terroristas, abrindo caminho para ações militares, alimentam a discussão. A imprensa paraguaia, como o La Nación, também repercutiu a adoção do termo pelo governador Cláudio Castro, inserindo a operação no Rio em um contexto regional de endurecimento contra o crime organizado, ecoando as políticas de Bukele em El Salvador e Noboa no Equador.
Apesar da ausência de provas de apoio logístico ou militar dos EUA à operação no Rio, a narrativa de narcoterrorismo sugere um alinhamento ideológico com a política de segurança americana. A imprensa internacional não ignora a possibilidade de que a retórica do governo do Rio possa ser uma tentativa de atrair a atenção e, potencialmente, o apoio de Washington, especialmente de uma futura administração Trump, que já demonstrou interesse em intervir mais diretamente no combate ao narcotráfico na América Latina. A menção, em redes sociais, de que o governador Castro estaria enviando relatórios ao governo Trump “solicitando” ajuda contra o narcoterrorismo reforça essa percepção, mesmo que a informação não tenha sido confirmada por fontes jornalísticas críveis. Contudo, ausência de confirmação oficial não impede que a sombra do envolvimento americano seja projetada sobre a operação, dada a proximidade ideológica e a adoção da mesma terminologia de narcoterrorismo.
A análise da BBC sobre as rotas do tráfico também revela que, embora o Brasil não seja o principal ponto de partida da cocaína para os EUA, o aumento da produção global e a pressão americana sobre o México estão “revitalizando o Caribe” como rota, o que, indiretamente, pode aumentar a relevância do Brasil no cenário do tráfico internacional. A apreensão de armas de origem estrangeira na operação do Rio, como noticiado pela France 24, sublinha a conexão do crime organizado carioca com o mercado internacional de armas, um componente crucial do narcoterrorismo. Essa dimensão internacional do armamento apreendido, com origem em diversos países, reforça a tese de que o combate ao narcoterrorismo exige uma coordenação que ultrapassa as fronteiras estaduais e nacionais. Essa retórica do narcoterrorismo no Rio, portanto, insere a crise de segurança pública brasileira em um contexto geopolítico mais amplo, onde a guerra às drogas é cada vez mais militarizada e ideologicamente carregada.
O impacto humanitário e a polarização política
O impacto humanitário da megaoperação no Rio de Janeiro é o ponto central da cobertura internacional. A morte de mais de 120 pessoas em um único dia, a maioria suspeitos, gerou manchetes que destacam a letalidade da polícia brasileira e a crise de segurança pública no país. A imprensa tem dado voz às famílias das vítimas, que denunciam a violência e as execuções sumárias, e a organizações de direitos humanos, que exigem uma investigação transparente e imparcial.
Uma polarização política em torno da operação também é um tema recorrente. Enquanto o governador Cláudio Castro defende a ação como um sucesso no combate ao narcoterrorismo, a oposição e setores da esquerda criticam a estratégia de confronto e a militarização da segurança pública. O Observer, do Reino Unido, noticiou que a operação, que deixou mais de 130 mortos, gerou pedidos pela saída do governador, mas também demandas por uma abordagem mais dura por parte do presidente Lula.
A discussão sobre a eficácia da operação é outro ponto de análise. O Jurist, um portal de notícias jurídicas, mencionou que a “Operação Contenção” visava erradicar as atividades de gangues e paralisar os sindicatos de tráfico de drogas. No entanto, a história recente de operações policiais de alta letalidade no Rio de Janeiro sugere que a violência extrema não tem sido suficiente para desmantelar o poder do crime organizado. A crítica de especialistas, como a veiculada pela BBC News Brasil, aponta para a “estratégia equivocada de combate ao crime organizado”, expondo policiais sem especialização de território.
Entretanto, apesar das críticas, a percepção de que a maioria dos brasileiros apoia a operação, como mencionado pela France 24, reflete a exaustão da população com a violência e a busca por soluções radicais. Essa aprovação popular, no entanto, não diminui a preocupação internacional com a escalada da violência e o desrespeito aos direitos humanos. Assim, a comunidade internacional, ao focar no termo narcoterrorismo, está, na verdade, alertando para a perigosa normalização de uma retórica que pode justificar a violência estatal e minar o estado de direito. A adoção da terminologia de narcoterrorismo no Rio de Janeiro, portanto, não é um evento isolado, mas sim um sintoma de uma tendência global de securitização do combate ao crime, com consequências diretas para a população civil.
A operação no Rio, portanto, é mais do que um evento local. Ela se insere em um debate global sobre a guerra às drogas, a segurança pública e a ascensão de retóricas de linha-dura. O termo narcoterrorismo serve como um elo entre a política de segurança do Rio de Janeiro e as tendências internacionais, especialmente as americanas, que buscam soluções militares para problemas sociais complexos. A ausência de confirmação de envolvimento direto dos EUA não anula a influência ideológica e a conexão retórica que a operação estabelece com a política externa americana de combate ao tráfico. A repercussão internacional, ao questionar a letalidade e a retórica do narcoterrorismo, coloca o Brasil no centro de um debate crucial sobre direitos humanos e estratégias de segurança. Assim, a comunidade internacional observa atentamente os desdobramentos, ciente de que a forma como o Brasil lida com o narcoterrorismo pode influenciar a política de segurança em toda a América Latina.

