quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

México: a marcha da Geração Z contra a violência

por Marco Antonio Portugal
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MÉXICO

México foi marcado por protestos no dia 15 de novembro de 2025 com uma mobilização massiva, especialmente na Cidade do México, que rapidamente se espalhou por diversas cidades do país. Milhares de pessoas, majoritariamente jovens, mas com a adesão de várias gerações, saíram às ruas para expressar sua profunda insatisfação com o aumento da violência e a política de segurança do governo da presidente Claudia Sheinbaum. O movimento, batizado de “Marcha da Geração Z”, canalizou a frustração popular após o assassinato de figuras públicas que se opunham ao crime organizado, transformando a manifestação em um ato de repúdio ao que muitos consideram ser a ineficácia estatal diante da criminalidade crescente.

A mobilização ganhou força nas redes sociais, convocada por grupos que se autodenominaram “Geração Z México”, que se declararam apartidários e focados em representar a juventude farta da violência, corrupção e abuso de poder. O estopim para a manifestação foi o brutal assassinato de Carlos Manzo, prefeito de Uruapan, Michoacán, ocorrido em 1º de novembro durante um evento público do Dia dos Mortos. Manzo era conhecido por sua postura firme e aberta contra os cartéis de drogas, e sua morte se tornou um símbolo da impunidade e da audácia do crime organizado no país. A marcha, que começou pacífica, tinha como principais alvos a insegurança e a política de segurança da presidente Sheinbaum, que, apesar de manter altos índices de aprovação em seu primeiro ano de mandato, tem sido criticada pela incapacidade de conter a onda de violência.

O evento na capital mexicana partiu do Ángel de la Independencia em direção ao Zócalo, a principal praça do país, onde se localiza o Palácio Nacional. Durante o percurso, as palavras de ordem eram claras: “Viva Carlos Manzo!”, “Fora Claudia!” e “Fora Morena!”, o partido da presidente. A presença de manifestantes de todas as idades, muitos usando chapéus semelhantes aos de Manzo em homenagem, demonstrou que a causa transcendia a faixa etária da Geração Z. A força do movimento e a clareza de suas demandas colocaram o governo sob intensa pressão, forçando a presidente a se manifestar sobre o ocorrido.

A escalada da tensão e os confrontos

Apesar de a maior parte da manifestação ter ocorrido de forma pacífica, a chegada ao Zócalo marcou o início dos confrontos. Um grupo de manifestantes, muitos deles encapuzados, tentou derrubar as barreiras metálicas que protegiam o Palácio Nacional, residência da presidente Sheinbaum. A ação provocou uma reação imediata das forças de segurança, que utilizaram gás lacrimogêneo, pó de pólvora e extintores de incêndio para dispersar a multidão. Em resposta, os manifestantes lançaram fogos de artifício e pedras contra os policiais.

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Os confrontos resultaram em um alto número de feridos. Segundo Pablo Vázquez, secretário de Segurança Pública da Cidade do México, ao menos 120 pessoas ficaram feridas, sendo 100 policiais e 20 civis. Dentre os policiais, 40 necessitaram de atendimento hospitalar. Além disso, 20 pessoas foram detidas por possíveis delitos e outras 20 foram encaminhadas a um juiz cívico por faltas administrativas. A violência no final da marcha ofuscou a natureza pacífica do protesto inicial, mas ressaltou a polarização e a intensidade da insatisfação popular. A cena de policiais atirando pedras contra manifestantes, relatada por testemunhas, adicionou mais um elemento de tensão ao cenário político.

A presidente Sheinbaum, em um ato público no estado de Tabasco, condenou a violência, afirmando que a manifestação deveria ter sido pacífica. Ela questionou a legitimidade do movimento, alegando que a convocação era “inorgânica” e “paga”, promovida por opositores de direita e até mesmo com impulso vindo do exterior. Essa narrativa, que busca desqualificar os protestos no México como uma manobra política, foi veementemente rebatida pelos organizadores, que insistem no caráter cívico e apartidário da mobilização. A acusação de que o movimento seria financiado por “bots” e adversários políticos é um reflexo da profunda divisão política que o país enfrenta.

O contexto da violência e a resposta do governo

O pano de fundo dos protestos no México é a persistente e crescente violência que assola o país. O assassinato de Carlos Manzo não foi um caso isolado; dias antes, Bernardo Bravo, líder dos produtores de limão de Michoacán, também havia sido morto. Esses eventos, somados a um histórico de impunidade e corrupção, alimentaram a revolta da população. A política de segurança de Sheinbaum, que busca evitar um “combate frontal” contra os cartéis, como o visto em administrações anteriores, é vista por muitos como branda e ineficaz.

A presidente, por sua vez, defende sua estratégia, que inclui avanços na luta contra o tráfico de fentanil e a manutenção de altos índices de aprovação. No entanto, a percepção de que o governo não está conseguindo proteger seus cidadãos, especialmente em estados como Michoacán, onde a presença do crime organizado é notória, mina a confiança na administração. A polarização se aprofunda com a retórica governamental que tenta vincular os manifestantes à oposição de direita, desviando o foco das demandas legítimas por segurança e justiça.

A mobilização da Geração Z, com sua estética e linguagem próprias, como o uso da bandeira do mangá One Piece como símbolo de liberdade e justiça, representa uma nova forma de ativismo político no México. Essa geração, que cresceu em um ambiente de violência endêmica e crises políticas, demonstra um cansaço com as velhas estruturas e uma disposição para ir às ruas exigir mudanças. Os protestos no México de 15 de novembro de 2025, portanto, não são apenas um grito contra a violência, mas também um marco na emergência de uma nova força política e social no país.

A repercussão internacional e o futuro

A notícia dos protestos no México e dos confrontos em frente ao Palácio Nacional ganhou rapidamente as manchetes internacionais, com veículos americanos, europeus e russos reportando o evento. A cobertura internacional destacou a natureza do movimento, a “Marcha da Geração Z”, e a violência dos confrontos. A Reuters e a CNN en Español, por exemplo, detalharam o número de feridos e o contexto do assassinato do prefeito Manzo. A BBC Mundo ressaltou a crítica de Sheinbaum de que a marcha seria financiada por opositores. Já a imprensa russa, como a RBC, focou no alto número de policiais feridos.

Essa ampla cobertura internacional sublinha a gravidade da situação no México e a atenção global que o tema da violência e da segurança pública no país tem recebido. A imagem de um governo que recorre a táticas de dispersão violenta e que tenta desqualificar os manifestantes como meros peões políticos pode ter um impacto negativo na percepção internacional da administração Sheinbaum.

O futuro dos protestos no México dependerá da capacidade do governo de responder às demandas por segurança e justiça de forma efetiva, e não apenas com retórica política. A Geração Z demonstrou que está disposta a se mobilizar e a usar novas ferramentas de comunicação para expressar sua insatisfação. A persistência da violência e da impunidade pode levar a novas e maiores manifestações, desafiando a estabilidade política do país e a popularidade da presidente. A sociedade mexicana exige um basta à violência e uma mudança real na estratégia de segurança pública. A marcha de 15 de novembro de 2025 foi um aviso claro e contundente.

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