quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Mercado Livre está com lentidão nas entregas

por Marco Antonio Portugal
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MERCADO LIVRE

O Mercado Livre tem apresentado prazos longos para entrega da compras, principalmente nos anúncios de usados. Com isso, a confiança na agilidade do comércio eletrônico brasileiro é posta à prova, uma vez que o Mercado Livre, é uma das principais plataformas do setor na América Latina.

Desde o final de 2024, prazos de entrega que antes eram um trunfo da empresa se transformaram em uma fonte de frustração generalizada, afetando tanto vendedores quanto consumidores. Relatos de atrasos que se estendem por semanas, chegando a 40 ou 60 dias, até mesmo em entregas locais na capital paulista, têm se multiplicado em redes sociais e órgãos de defesa do consumidor. A situação, que se agravou durante a Black Friday de 2025, persiste no início de 2026, levantando questionamentos sobre a capacidade da gigante do e-commerce de sustentar sua promessa de velocidade.

O cerne do problema, segundo a comunidade de vendedores, reside na gestão da logística de envio. O sistema de liberação de etiquetas, essencial para o despacho dos produtos, tem apresentado lentidão crítica. Um processo que antes era imediato, logo após a confirmação da compra, tem se arrastado por dias, e em alguns casos, semanas. Essa retenção da etiqueta impede o vendedor de postar o produto, mesmo que ele esteja pronto para envio, transferindo a responsabilidade do atraso para a plataforma.

A Retenção da Etiqueta e o Caos dos Usados

A percepção de que os prazos de entrega estão sendo artificialmente dilatados é um ponto de convergência entre os usuários. Em fóruns como o Reddit, a tese mais aceita é que o Mercado Livre estaria “segurando” a liberação da etiqueta até que o sistema logístico tenha uma “janela” garantida para processar o pacote. Essa estratégia, embora possa ser uma tentativa de evitar a sobrecarga dos centros de distribuição e transportadoras parceiras, resulta em previsões de entrega que parecem absurdas para o padrão do e-commerce.

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Um dos segmentos mais afetados é o de produtos usados e de vendedores que não utilizam o serviço Full (onde o estoque fica no centro de distribuição do Mercado Livre). Nesses casos, a dependência da logística tradicional ou de parceiros externos se torna um gargalo. O relato de um vendedor de São Paulo, que viu o prazo de entrega de um item para um comprador no mesmo bairro saltar para 40 dias, viralizou nas redes sociais, expondo a discrepância entre a promessa de agilidade e a realidade operacional.

A demora na liberação das etiquetas tem um impacto direto nas vendas na maioria dos usados. Apesar de, por padrão, o sistema do Mercado Livre penalizar o vendedor por atrasos no envio, nesses casos o atraso já está contado no próprio prazo declarado no anúncio do produto. Ocorre que, vendedores que poderiam vender com entregas em dois dias veem agora seus anúncios prometerem entregas com várias semanas de prazo, resultando em uma queda drástica nas vendas e em um ciclo vicioso de frustração e prejuízo.

Tentativa de encontrar uma resposta ou explicação

Buscamos uma explicação do Mercado Livre sobre essa situação e, em várias tentativas, o suporte da plataforma demonstrou surpresa com o ocorrido. Um exemplo é o caso de um vendedor no Morumbi, em São Paulo, que anunciou um notebook hoje (20/01) com entrega prevista apenas para 09/03, na Vila Mariana, que também é um bairro da mesma cidade.

Ao ser consultado, o Mercado Livre inicialmente afirmou que a data de entrega era uma escolha do vendedor. No entanto, o vendedor, ao ser questionado, revelou-se surpreso com essa alegação, afirmando haver utilizado o Mercado Envio, o serviço que acompanha os anúncios da plataforma. Quando questionada novamente, a equipe do Mercado Livre classificou a situação como “estranha”, pois, após testar um CEP do Rio de Janeiro, o prazo de entrega seria menor do que em São Paulo, ficando para fevereiro. No final das contas, a interação com o atendimento não chegou a um desfecho, evidenciando mais um exemplo de uma situação ainda sem explicação ou previsão de solução.

O Efeito Black Friday e a Sobrecarga do Frete Grátis

A crise nos prazos de entrega não é um evento isolado, mas o resultado de uma pressão logística crescente. Analistas apontam que a decisão de subsidiar o frete grátis para produtos a partir de R$ 19, implementada em 2025, gerou um volume de pedidos que a malha logística, incluindo os Correios e parceiros, não conseguiu absorver. A sobrecarga se tornou evidente durante a Black Friday de 2025, quando o Procon-SP registrou um aumento de quase 40% nas reclamações relacionadas a atrasos e cancelamentos, com o Mercado Livre figurando entre as empresas mais citadas.

A explicação oficial da plataforma, que frequentemente cita a necessidade de “organização logística” ou “alta temporada”, não convence os vendedores, que veem a demora persistir mesmo fora dos períodos de pico. Uma suspeita é que a dilatação dos prazos de entrega seja uma medida interna para equilibrar os custos do frete subsidiado, evitando prejuízos ao segurar o envio até que o custo logístico se torne mais viável para a empresa. Enquanto o produto não é entregue, o vendedor não recebe seu valor, mesmo que o Mercado Livre já tenha recebido o valor pago pela compra.

A situação pode ter se agravado por eventos externos, como a greve dos Correios, que, embora não seja a causa primária da retenção das etiquetas, pode ter contribuído para o alongamento dos prazos finais. A plataforma, que afirma investir pesadamente em sua logística Full (com entregas no mesmo dia em algumas cidades), parece ter criado uma disparidade entre a experiência de quem compra produtos Full e a de quem depende do envio tradicional.

O impacto da crise de prazos de entrega tem levado a uma migração de vendedores para plataformas concorrentes. A Shopee, por exemplo, tem atraído lojistas com a promessa de prazos mais curtos e um sistema de envio mais ágil. A Amazon também tem expandido sua presença no mercado de usados, oferecendo uma alternativa para consumidores e vendedores insatisfeitos com o Mercado Livre.

Para os pequenos vendedores, a migração para o Full é uma solução, mas o custo elevado de estoque e envio afasta muitos. A resistência em aderir ao Full e uma possível queda nas vendas criam um ciclo vicioso que beneficia a concorrência. Compradores, por sua vez, têm se tornado mais cautelosos, evitando vendedores sem o selo Full e checando a reputação com rigor antes de finalizar a compra.

A transparência é a principal cobrança dos usuários. Enquanto a plataforma anuncia a expansão de sua logística e o uso de tecnologia (como IA, robôs e testes com drones), a realidade dos prazos de entrega para a maioria dos usuários comuns diverge do discurso oficial. A falta de comunicação clara sobre o real motivo da retenção das etiquetas e a causa dos atrasos deliberados na entrega abala ainda mais a confiança na marca.

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