O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se reuniram neste domingo (26) em Kuala Lumpur, na Malásia, durante a cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN). O encontro, de cerca de 50 minutos, ocorre em um momento de forte tensão comercial entre os dois países, após a imposição de tarifas elevadas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.
Encontro estratégico
De acordo com fontes diplomáticas, a reunião foi resultado de uma série de conversas iniciadas no início de outubro, quando Lula e Trump realizaram uma videoconferência. Na ocasião, ambos manifestaram disposição para dialogar sobre temas econômicos e comerciais. O presidente brasileiro chegou a afirmar que estava aberto a discutir “todos os temas”, incluindo tarifas, sanções, a situação da Venezuela, conflitos internacionais e matérias-primas críticas.
Durante o encontro em Kuala Lumpur, Trump afirmou que pretende “fazer alguns acordos bem bons para ambos os países”, segundo relatos divulgados pela Reuters. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, classificou a conversa como “positiva” e confirmou que o governo norte-americano instruiu o início de um processo de negociação bilateral.
Tarifas no centro da crise
O principal ponto da agenda foi a recente decisão do governo Trump de aumentar as tarifas de importação sobre produtos brasileiros, que passaram de cerca de 10% para 50% em média. A medida atingiu diretamente setores como agronegócio, siderurgia e manufaturas, provocando queda nas exportações e pressão sobre empresas brasileiras com presença nos Estados Unidos.
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Segundo fontes do Itamaraty, Lula solicitou formalmente a suspensão das tarifas enquanto as negociações avançam. “O Brasil não quer conflito comercial com os Estados Unidos, mas também não pode aceitar penalidades injustas”, disse um assessor próximo à presidência.
Temas ampliados
Além do comércio, o encontro abordou questões geopolíticas e ambientais. Lula e Trump discutiram a guerra na Ucrânia, o conflito em Gaza e a situação política da Venezuela. O presidente brasileiro reiterou que o Brasil busca “o diálogo e a diplomacia como instrumentos de paz” e destacou a importância de incluir países emergentes nas discussões globais sobre segurança e desenvolvimento.
Também esteve em pauta a cooperação em recursos críticos e terras raras — minerais estratégicos usados na indústria tecnológica e de defesa. O Brasil tem buscado atrair investimentos estrangeiros nesse setor, e os Estados Unidos demonstraram interesse em diversificar fornecedores para reduzir a dependência da China.
Impactos econômicos
Especialistas avaliam que o encontro pode abrir caminho para uma reaproximação entre as duas maiores economias das Américas. A reversão parcial das tarifas traria alívio imediato a exportadores brasileiros de carne, café, aço e produtos químicos. Por outro lado, uma negociação mal-sucedida poderia agravar as tensões e elevar o risco-país, afetando investimentos e a cotação do real.
“O gesto de diálogo é um passo importante. Mesmo que os resultados concretos demorem, a simples retomada da comunicação reduz incertezas para o mercado e para as empresas”, avalia o economista e consultor em comércio internacional Paulo Tenório.
Repercussão política
A reunião também tem peso político. Para Lula, representa a tentativa de reposicionar o Brasil como mediador e parceiro estratégico no cenário global, reforçando sua imagem de liderança diplomática. Para Trump, que enfrenta críticas internas por sua política tarifária agressiva, o encontro sinaliza disposição de negociar sem recuar da postura de “proteção ao trabalhador americano”.
Próximos passos
Conforme o Itamaraty, equipes técnicas dos dois governos iniciarão nas próximas semanas reuniões virtuais para detalhar propostas de cooperação e eventuais ajustes tarifários. Um novo encontro entre Lula e Trump, em Washington, está sendo considerado para o início de 2026, dependendo do andamento das negociações.
Enquanto isso, setores empresariais brasileiros aguardam com expectativa. “O Brasil tem tudo a ganhar com uma relação estável e previsível com os Estados Unidos. A diplomacia econômica é hoje uma ferramenta de sobrevivência para nossos exportadores”, afirmou a Confederação Nacional da Indústria (CNI), em nota.

