quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Kast: O ultraconservadorismo assume o Chile

por Maria Gabriela Portugal
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KAST

A eleição do Presidente José Antonio Kast marca um ponto de inflexão na política chilena, consolidando a ascensão da ultradireita no país andino. O advogado e ex-deputado, líder do Partido Republicano, conquistou a presidência em sua terceira tentativa, superando a candidata da esquerda, Jeannette Jara, em um pleito que reposiciona o Chile no cenário regional e global. Sua vitória, com uma margem expressiva, sinaliza um profundo descontentamento do eleitorado com a administração anterior e com a instabilidade social e econômica recente.

Quem é José Antonio Kast: Biografia e Trajetória Política

Nascido em Santiago em 1966, José Antonio Kast Rist é um advogado de formação com uma longa, embora nem sempre linear, carreira política. Sua trajetória começou na Universidade Católica, onde se envolveu com o Movimento Gremial, um grupo de direita fundado por Jaime Guzmán, ideólogo da ditadura de Augusto Pinochet e redator da Constituição de 1980. Essa conexão inicial com o pinochetismo moldaria sua visão política e seria uma fonte constante de controvérsia.

Kast foi vereador e, posteriormente, deputado por quatro mandatos consecutivos (2002-2018) pela União Democrática Independiente (UDI), um dos principais partidos da direita tradicional chilena. No entanto, sua postura cada vez mais radical e conservadora o levou a romper com a UDI em 2016, alegando que o partido havia se tornado “politicamente correto”. Em 2019, fundou o Partido Republicano, um movimento que se consolidou como a principal força da direita radical no Chile, atraindo eleitores desiludidos com a política tradicional e preocupados com a segurança e a migração.

A Ideologia Ultraconservadora e o Passado Pinochetista

A ideologia de Kast é abertamente ultraconservadora e nacionalista. Ele defende a redução do Estado, a liberdade econômica irrestrita e a defesa de valores tradicionais. Sua ascensão é frequentemente comparada à de outras figuras da direita radical global, como Donald Trump nos Estados Unidos, Javier Milei na Argentina e Nayib Bukele em El Salvador. O próprio Kast já expressou admiração por esses líderes, chegando a declarar que o Chile precisava de “mais Bukele e menos Boric”.

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Uma das principais fontes de críticas e polêmica em torno do Presidente José Antonio Kast é sua relação com o passado ditatorial. Seu irmão, Miguel Kast, foi ministro e presidente do Banco Central durante o regime de Pinochet. Embora Kast negue apoiar as violações de direitos humanos, ele já minimizou os abusos, afirmando que “no governo militar se fizeram muitas coisas pelos direitos humanos de outras pessoas” e que houve uma “transição à democracia”. Organizações de Direitos Humanos expressaram profunda preocupação com sua eleição, temendo um retrocesso nas políticas de memória e justiça e um risco à democracia chilena.

O “Governo de Emergência”: Propostas e Soluções

O programa de governo de Kast, batizado de “Governo de Emergência”, foca em segurança pública e migração, temas que dominaram o debate eleitoral e refletem as principais preocupações dos chilenos.

ÁreaProblema IdentificadoSolução Proposta (Plano Implacável)
Segurança PúblicaAvanço do crime organizado e narcotráfico.Criação de prisões de segurança máxima e isolamento total para líderes do narcotráfico. Fim dos “narcofunerais”. Endurecimento das penas e revisão da legítima defesa para “acabar com a criminalização de vítimas que se defendem”.
MigraçãoEntrada irregular de estrangeiros e crise fronteiriça.Instalação de cercas ou valas nas fronteiras com Bolívia e Peru. Financiamento de voos para deportar migrantes sem documentos, buscando que os próprios migrantes “colaborem” com o custo de seu bilhete de volta.
EconomiaAlto gasto público e burocracia.Recorte fiscal de US$ 6 bilhões em 18 meses. Redução de gastos, visando “apitutados” (funcionários por influência) e regulamentação de licenças médicas. Eliminação do imposto territorial para a primeira residência.
SaúdeLongas listas de espera no sistema público.Implementação do “Plano Zero”, que prevê a derivação massiva de pacientes para o setor privado, com um investimento único de US$ 770 milhões. Reforma do sistema de saúde para “acabar com os privilégios sindicais”.

A proposta de recorte fiscal de US$ 6 bilhões em 18 meses é a mais controversa no campo econômico, sendo criticada por sua falta de detalhamento sobre como o ajuste seria implementado sem afetar serviços essenciais.

Relações Diplomáticas: A Nova Aliança com a Argentina e o Pragmatismo com o Brasil

A vitória do Presidente José Antonio Kast foi recebida com entusiasmo pelo governo argentino de Javier Milei. O presidente argentino, que se autodenomina libertário, celebrou o triunfo de seu “amigo” Kast, vendo-o como “um passo mais de nossa região em defesa da vida, da liberdade e da propriedade privada”. A chancelaria argentina expressou confiança de que o fortalecimento da relação bilateral se tornará um “novo faro de liberdade” no Cone Sul. Essa nova sintonia ideológica contrasta fortemente com a relação tensa e sem “feeling” que existia entre Milei e o presidente chileno cessante, o social-democrata Gabriel Boric.

O Pragmatismo Necessário com o Brasil

Embora Kast seja frequentemente rotulado como o “Bolsonaro chileno” e mantenha laços com a direita brasileira, a relação com o Brasil, atualmente governado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de esquerda, deverá ser marcada por um pragmatismo necessário.

O presidente Lula da Silva, ao parabenizar Kast, adotou um tom institucional, desejando “pleno êxito” ao presidente eleito e destacando a intenção de seguir trabalhando com o novo governo chileno. A diplomacia brasileira enfatizou os “sólidos laços econômico-comerciais” e as “excelentes relações” existentes entre os dois países, sinalizando que a ideologia não deve se sobrepor aos interesses comerciais e estratégicos.

Apesar das diferenças ideológicas, o Chile é um parceiro comercial fundamental para o Brasil, e a manutenção de uma relação estável é crucial para ambos. A expectativa é que, apesar do alinhamento ideológico de Kast com a direita radical, as relações bilaterais sejam conduzidas de forma profissional, priorizando a cooperação econômica e a estabilidade regional, em vez de se deixar levar por atritos políticos.

Críticas e Expectativas para o Mandato

As críticas ao Presidente José Antonio Kast não se limitam apenas ao seu passado e à sua ideologia. Sob um estilo de “emergência”, sua promessa levanta dúvidas sobre a capacidade de diálogo e a governabilidade em um país ainda polarizado.

Críticas Principais:

  • Autoritarismo e Direitos Humanos: O elogio ao modelo de “mão dura” de Bukele e a minimização dos abusos da ditadura geram temores de um governo com tendências autoritárias e de desrespeito aos direitos humanos.
  • Viabilidade Econômica: A proposta de corte fiscal de US$ 6 bilhões é vista como irrealista e potencialmente prejudicial à estabilidade econômica, caso não seja detalhada e implementada com cautela.
  • Polarização: A retórica radical de Kast pode aprofundar a polarização política no Chile, dificultando a aprovação de reformas no Congresso.

Expectativas:

  • Foco em Segurança: A principal expectativa é que Kast consiga, de fato, implementar medidas eficazes para combater o crime organizado e a migração irregular, atendendo a uma demanda urgente da população.
  • Alinhamento Regional: Espera-se um alinhamento mais forte com governos de direita e ultradireita na América Latina, redefinindo o eixo político da região.
  • Mudança de Rumo: O mandato de Kast representa uma guinada radical em relação ao governo de Boric, com a promessa de um retorno a políticas de livre mercado e conservadorismo social.

O Presidente José Antonio Kast assume o Palácio de La Moneda em março do próximo ano, com a promessa de “devolver a grandeza ao Chile”. Seu governo será um teste para a ultradireita na América Latina e definirá o futuro político e social do país nos próximos anos.

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