quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Gaza: a guerra como modelo de poder

por Maria Gabriela Portugal
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Faixa de Gaza

O que acontece em Gaza vai além de um conflito local ou de mais um capítulo trágico do Oriente Médio. Ali, a guerra deixou de ser apenas um enfrentamento militar para se tornar uma forma de governar. Israel, com apoio político, militar e diplomático dos Estados Unidos, aplica um modelo no qual a destruição sistemática, o controle da população e a gestão do sofrimento passam a fazer parte de uma engrenagem de poder mais ampla.

Nesse contexto, o genocídio não aparece apenas como uma violação humanitária isolada. Ele se insere em um sistema que envolve interesses econômicos, indústrias militares, aparelhos de segurança e burocracias internacionais que tomam decisões sobre o futuro de um povo sem o representar e sem prestar contas a ele. A vida humana deixa de ser prioridade, sendo tratada como variável estratégica.

Uma nova forma de colonialismo

Não se trata do colonialismo clássico, com ocupação direta e administração formal do território. O que se observa em Gaza é uma tutela colonial do século XXI, baseada na exceção permanente. Bloqueios que duram anos, bombardeios recorrentes, restrições severas à entrada de alimentos, remédios e combustível, controle rigoroso de fronteiras e uma intensa disputa narrativa compõem um regime onde a normalidade jurídica simplesmente não existe.

Nesse modelo, a soberania é suspensa. Direitos básicos deixam de ser garantias e se transformam em concessões condicionais. A população vive sob um estado contínuo de emergência, no qual a escassez não é acidente, mas parte do mecanismo de controle.

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Governar pelo sofrimento

Quando a exceção vira regra, o próprio sentido de governar se transforma. Em Gaza, a política não se expressa por serviços públicos ou representação democrática, mas pela administração da escassez e pela normalização da dor coletiva. O sofrimento deixa de ser um efeito colateral indesejado da guerra e funciona como instrumento de pressão, punição e dissuasão.

Ao mesmo tempo, a responsabilidade pelas decisões se dilui. Estados, empresas de armamentos, organismos internacionais e aliados estratégicos compartilham funções, dificultando identificar quem decide, quem executa e quem se beneficia. Essa fragmentação protege os responsáveis e torna o sistema mais resistente a críticas e sanções.

Gaza não é exceção. É laboratório.

Por isso, Gaza não pode ser vista como um caso isolado.
Não é um desvio histórico.
É um laboratório.

Ali se testam tecnologias militares, como sistemas avançados de vigilância e armamentos de precisão; modelos de controle populacional, baseados em bloqueios e monitoramento constante; narrativas de legitimação, que apresentam a violência como necessidade de segurança; e formas de gestão do sofrimento, nas quais crises humanitárias são administradas sem solução estrutural.

O território funciona como um campo de testes para novas formas de dominação que não exigem ocupação total, mas garantem controle efetivo sobre a vida cotidiana de uma população inteira.

Um modelo que pode se repetir

O que é experimentado em Gaza não fica restrito à região. Essas práticas influenciam políticas de segurança, estratégias militares e formas de governança em outras partes do mundo. A guerra passa a ser integrada a cadeias econômicas, agendas diplomáticas e projetos de poder de longo prazo.

Nesse cenário, a guerra deixa de ser exceção. Ela se transforma em negócio, método e linguagem política.

Compreender Gaza como laboratório é entender que o que está em jogo não é apenas o destino de um povo, mas o ensaio de um modelo de mundo onde a gestão da vida e da morte se torna parte rotineira da política global. O desafio para o jornalismo, para a comunidade internacional e para a sociedade civil é impedir que essa lógica seja naturalizada — antes que ela se torne padrão.

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