quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Frio em novembro: o que explica

por Maria Gabriela Portugal
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Por que São Paulo enfrenta frio em novembro: ar polar, instabilidade climática e os efeitos do desmatamento no Sudeste

O mês de novembro, tradicionalmente marcado pela transição da primavera para o verão, tem registrado temperaturas atipicamente baixas em São Paulo, com mínimas próximas de 10 °C. Embora o frio fora de época chame atenção, especialistas explicam que o fenômeno resulta da combinação entre fatores atmosféricos naturais e mudanças ambientais aceleradas na região.

Ar polar atinge o Sudeste

A queda acentuada nas temperaturas é causada principalmente por uma massa de ar polar que avançou pelo Sul e alcançou o Sudeste. Embora mais comuns no inverno, essas incursões podem ocorrer na primavera quando frentes frias permanecem ativas. O resultado é a chamada friagem, capaz de provocar madrugadas geladas às vésperas do verão.

Transição de estação aumenta a instabilidade

Novembro é, por natureza, um período instável. Alternâncias entre calor, pancadas de chuva, nebulosidade e ar frio criam grande amplitude térmica. Dias quentes podem ser seguidos por quedas bruscas de temperatura, dependendo da posição das frentes frias e de sistemas de alta pressão.

Desmatamento não cria ar frio — mas altera como ele se comporta

O vento gelado que chega ao Sudeste tem origem em regiões polares e subantárticas. No entanto, o desmatamento no interior de São Paulo, no Cerrado e no Sul do Brasil modifica o modo como esse ar se desloca.

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A remoção da vegetação reduz a umidade, acelera o resfriamento noturno do solo e cria extensos corredores de vento. Sem árvores, massas de ar polar encontram menos resistência para avançar. Terrenos descampados também perdem calor rapidamente, intensificando a sensação de frio, sobretudo à noite.

Florestas atuam como reguladoras do clima tropical

Áreas verdes funcionam como moderadoras térmicas:

  • Durante o dia, reduzem o aquecimento do solo.
  • À noite, liberam calor gradualmente, suavizando quedas bruscas.
  • De forma contínua, mantêm a umidade elevada, estabilizando a temperatura.

Quando a vegetação desaparece, esse equilíbrio se rompe. O ar fica mais seco, o vento ganha força e o clima oscila mais entre extremos de calor e frio.

Como o desmatamento intensifica extremos climáticos

Com menos árvores, o solo esquenta mais rápido durante o dia e esfria mais rápido à noite, ampliando a diferença entre calor e frio. A perda de umidade — antes mantida pela evapotranspiração — elimina o “amortecedor térmico” típico dos ambientes tropicais. Assim, ondas de calor e frio se tornam mais intensas e frequentes.

A destruição do Cerrado e seus impactos no Sudeste

A perda acelerada de vegetação no Cerrado influencia diretamente o clima do Sudeste. Conhecido como “caixa d’água do Brasil”, o bioma sustenta nascentes e mananciais que alimentam bacias hidrográficas essenciais para estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Com o avanço do desmatamento:

  • diminui a evapotranspiração;
  • enfraquece a circulação de umidade que normalmente migra do Centro-Oeste para o Sudeste;
  • frentes frias avançam com mais facilidade e permanecem por mais tempo;
  • ondas de calor e períodos secos se intensificam.

Além de regular chuvas, o Cerrado age como estabilizador térmico. Suas raízes profundas liberam vapor d’água continuamente e mantêm a atmosfera úmida. Quando substituído por áreas abertas, o solo exposto esquenta mais durante o dia e esfria mais durante a noite, favorecendo extremos climáticos.

Um sistema que responde ao desequilíbrio

O impacto não se restringe ao Centro-Oeste: boa parte da estabilidade climática do Sudeste depende do Cerrado. Quando esse bioma se desequilibra, todo o sistema atmosférico responde, ampliando a instabilidade. A tendência, segundo especialistas, é que episódios de frio fora de época — assim como ondas de calor — se tornem mais frequentes enquanto o desmatamento permanecer elevado.

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