Fiação subterrânea é um tema que ressurge no debate público brasileiro a cada grande tempestade ou apagão, mas algumas cidades já estão saindo da discussão para a ação. Enquanto metrópoles como São Paulo ainda enfrentam o desafio de uma rede aérea extensa e vulnerável, municípios menores e mais ágeis, como Guarujá, no litoral paulista, e Fortaleza, no Ceará, estão implementando leis que obrigam o enterramento de cabos elétricos e de dados, eliminando a poluição visual e aumentando a segurança urbana. Essa mudança, embora custosa, é vista por especialistas como um investimento inevitável no futuro das cidades.
Guarujá e Fortaleza: A Vanguarda da Fiação Subterrânea no Brasil
O movimento para levar os cabos para debaixo da terra ganha força no nível municipal, onde a pressão por melhorias na paisagem e na infraestrutura é mais direta.
Em Guarujá (SP), a nova lei sancionada em novembro de 2025 determinou a instalação subterrânea de todo o cabeamento existente na cidade. A medida é abrangente, aplicando-se a empresas de rede elétrica, telefonia, TV a cabo e internet. A lei estabeleceu um prazo de dois a cinco anos para a substituição da fiação aérea existente, com prioridade para a região central, e exige que todos os novos projetos de instalação já nasçam subterrâneos. A iniciativa visa coibir furtos, proteger os munícipes de acidentes e preservar a paisagem urbana.
Outro exemplo notável é Fortaleza (CE). O Código da Cidade, em seu Artigo 515, estabeleceu a obrigatoriedade do enterramento da fiação, com a meta ambiciosa de ter a rede totalmente subterrânea até 2034. A prefeitura já está em ação, com projetos de transferência da rede aérea para o subsolo em vias importantes, como a Avenida Beira Mar e o Polo Gastronômico da Varjota, que já possui 100% de fiação subterrânea.
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Já em Uberlândia (MG), a iniciativa é liderada pela concessionária de energia, a Cemig, que tem investido na modernização e substituição de transformadores subterrâneos no hipercentro da cidade. Embora não seja uma lei municipal de obrigatoriedade total, a ação demonstra um avanço prático na infraestrutura subterrânea, focando na segurança e estabilidade do sistema. O Rio de Janeiro (RJ) também deu um passo importante ao sancionar uma lei que torna obrigatória a instalação subterrânea de fios em novas construções, um modelo que foca na expansão futura da rede.
| Cidade | Tipo de Ação | Escopo | Prazo/Meta |
| Guarujá (SP) | Lei Municipal (Sancionada em Nov/2025) | Obrigatoriedade total (existente e novos) | 2 a 5 anos para fiação existente |
| Fortaleza (CE) | Lei Municipal (Cód. da Cidade, Art. 515) | Obrigatoriedade total (existente e novos) | Totalmente subterrânea até 2034 |
| Uberlândia (MG) | Projeto da Concessionária (Cemig) | Modernização e substituição de transformadores subterrâneos | Gradual, focado no hipercentro |
| Rio de Janeiro (RJ) | Lei Complementar (283/2025) | Obrigatoriedade em novas construções | Imediato para novos projetos |
O Exemplo Global: Cidades Onde a Fiação Subterrânea é a Regra
A adoção da fiação subterrânea não é uma novidade global. Cidades históricas e grandes metrópoles ao redor do mundo já fizeram essa transição há décadas, demonstrando que a mudança é plenamente viável e benéfica.
Paris, a “Cidade Luz”, é um dos exemplos mais citados. A capital francesa iniciou a instalação de sua rede elétrica subterrânea em 1910 e, desde os anos 1960, tem praticamente toda a sua fiação no subsolo. Outras capitais europeias, como Londres e Amsterdã, também possuem a maior parte de suas redes enterradas.
Nos Estados Unidos, Nova York é um caso emblemático. Após uma grande nevasca em 1888, que causou estragos catastróficos na rede aérea, a cidade acelerou o processo, e hoje cerca de 86% da sua rede elétrica está no subsolo. A vasta rede subterrânea de Nova York, com cerca de 151 mil quilômetros de fios, é um testemunho da escala que pode ser alcançada.
Esses exemplos internacionais reforçam a ideia de que a fiação subterrânea é um padrão de infraestrutura moderna e resiliente, e não uma exceção.
Benefícios e a Viabilidade da Mudança
A transição para a fiação subterrânea traz uma série de benefícios que justificam o alto investimento inicial, tornando-se economicamente mais viável a longo prazo.
Benefícios-chave da Fiação Subterrânea:
- Redução de Interrupções e Apagões: A fiação subterrânea é imune a ventos fortes, quedas de árvores, raios, colisões de veículos e vandalismo, causas comuns de interrupções de energia na rede aérea. Isso se traduz em maior confiabilidade e estabilidade no fornecimento.
- Segurança Pública: Elimina o risco de acidentes graves, como choques elétricos por contato com cabos caídos ou rompimento de postes.
- Valorização Imobiliária e Estética: A remoção dos postes e do emaranhado de fios elimina a poluição visual, valorizando o paisagismo urbano e os imóveis. Estudos indicam que áreas com fiação subterrânea podem ter uma valorização imobiliária significativa.
- Menor Manutenção a Longo Prazo: Embora a manutenção seja mais complexa, a frequência de reparos é drasticamente reduzida, pois os cabos estão protegidos. A longo prazo, o sistema subterrâneo pode se tornar economicamente mais vantajoso.
No entanto, um benefício crucial e frequentemente negligenciado da fiação subterrânea reside na redução significativa das perdas técnicas de energia, inevitáveis na rede aérea devido à maior resistência, ao efeito Joule e à exposição a variações climáticas.
Ao proteger os condutores sob o solo e, em muitos casos, utilizar materiais com maior eficiência, o sistema subterrâneo minimiza o desperdício de eletricidade que, na rede aérea brasileira, contribui com uma média de cerca de 7,4% das perdas totais de distribuição, segundo dados recentes da ANEEL. Essa eficiência energética não só diminui a necessidade de geração de eletricidade, impactando positivamente o meio ambiente, como também se reflete na tarifa, onde os custos das perdas regulatórias são repassados aos consumidores, estabelecendo, assim, um forte argumento financeiro para a modernização da infraestrutura urbana.
O Desafio do Custo e a Viabilidade
O principal obstáculo para a adoção em massa da fiação subterrânea no Brasil é o custo. As estimativas variam, mas a instalação de uma rede subterrânea pode ser de 8 a 15 vezes mais cara do que a aérea. Esse custo elevado se deve à necessidade de escavação, à complexidade da obra em áreas urbanas consolidadas (com interferência de redes de água, esgoto e gás) e ao tipo de material utilizado.
Para metrópoles como São Paulo, o desafio é gigantesco. A capital paulista possui menos de 1% de sua rede elétrica no subsolo. Estima-se que o custo para enterrar a fiação apenas na região central da cidade poderia chegar a R$ 20 bilhões.
No entanto, a viabilidade passa por um modelo de financiamento compartilhado e planejamento de longo prazo:
- Financiamento Compartilhado: O custo não pode recair apenas sobre as concessionárias ou o consumidor. É necessário um modelo que envolva o poder público (municipal e estadual), as empresas de telecomunicações e a iniciativa privada (incorporadoras e loteamentos).
- Legislação Progressiva: A exemplo do Rio de Janeiro, exigir a fiação subterrânea em novos loteamentos e construções é uma forma de garantir que a rede futura já nasça moderna, reduzindo o problema gradualmente.
- Regulamentação e Fiscalização: O exemplo de Guarujá, que estabeleceu multas e prazos para a fiação existente, mostra que a fiscalização rigorosa é essencial para forçar o cumprimento das metas.
O Que Metrópoles Como São Paulo Devem Fazer
A situação de São Paulo e outras grandes metrópoles, com seus extensos emaranhados de cabos, exige uma abordagem estratégica e multifacetada.
- Priorização de Áreas: Focar inicialmente em áreas de alto impacto visual e econômico (centros históricos, eixos turísticos e comerciais) e em regiões com alta incidência de interrupções de energia.
- Criação de Galerias de Serviços: Em vez de enterrar apenas a fiação elétrica, o ideal é criar galerias subterrâneas multisserviços que possam abrigar cabos de energia, telecomunicações, água e gás, otimizando o custo e a manutenção.
- Revisão da Legislação: As metrópoles precisam de leis municipais mais robustas que não apenas incentivem, mas obriguem o enterramento, com cronogramas claros e sanções severas para o descumprimento, como fez Guarujá.
- Parceria Público-Privada (PPP): Buscar modelos de PPP para financiar as obras de infraestrutura, diluindo o custo ao longo de décadas e garantindo a execução do projeto.
A fiação subterrânea é um investimento que transcende a estética. É uma questão de resiliência urbana, segurança e qualidade de vida. Os exemplos de Guarujá e Fortaleza mostram que, com vontade política e legislação firme, é possível iniciar a transformação da paisagem urbana brasileira, pavimentando o caminho para cidades mais modernas e preparadas para os desafios do futuro.

