quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Espionagem Israelense na Argentina: A Verdade por Trás de Iosi

por Marco Antonio Portugal
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Espionagem Israelense

A série “Iosi, o Espião Arrependido” (Iosi, el espía arrepentido), disponível no Prime Video, é mais do que um thriller de espionagem; é um mergulho profundo nas feridas abertas da história argentina, expondo a tensão estatal com a infiltração de Israel e a complexa teia de relações internacionais que culminou nos piores ataques terroristas da história do país. A narrativa, baseada no livro-reportagem de Miriam Lewin e Horacio Lutzky, revela a história real de José Pérez, um agente de inteligência da Polícia Federal Argentina (PFA) que se infiltrou na comunidade judaica no país por quase 15 anos. O foco da série, e desta análise, reside na intersecção entre a espionagem israelense na Argentina e os objetivos geopolíticos de Israel na região nas décadas de 1980 e 1990.

A trama começa com a missão de Pérez, um jovem policial sem experiência em espionagem, de se infiltrar na comunidade judaica de Buenos Aires. Seu objetivo, dado por seus superiores, era coletar informações que comprovassem a existência do infame Plano Andinia. Neste plano a comunidade judaica, a mando de Israel, pretendia estabelecer um segundo Estado judeu na Patagônia, dividida entre Argentina e Chile. A série ilustra como essa preocupação persistiu e foi institucionalizada nos serviços de inteligência argentinos, desde o comando militar do país, mantida mesmo após o retorno à democracia.

O “Plano Andinia” e a Missão de Iosi

O Plano Andinia é o ponto de partida para entender as preocupações da inteligência argentina na época. A teoria culminou na vigilância da comunidade judaica no país. Durante a ditadura militar (1976-1983). Com a redemocratização, a obsessão pelo plano e a segurança da Argentina não desapareceu; apenas mudou de tática.

José Pérez, sob o codinome “Iosi”, foi treinado para se tornar um judeu, aprendendo hebraico, costumes e se integrando profundamente na vida comunitária. Ele ascendeu socialmente, casou-se com a filha de um judeu líder comunitário e traficante internacional de armas. Com isso, obteve acesso a plantas, mapas e informações logísticas de edifícios-chave, como a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) e a Embaixada de Israel, ambas em Buenos Aires. A história conta que, enquanto Iosi investigava e buscava provas, ele estava inadvertidamente coletando dados que, segundo sua própria confissão posterior, teriam sido seriam cruciais para os atentados ocorridos nessas instalações.

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A série expõe a tensão na inteligência e no governo da argentina. A espionagem israelense na Argentina, na visão dos agentes argentinos, era uma ameaça interna, uma “quinta-coluna” (infiltrados em um país prestes a entrar em guerra) a ser monitorada, e não uma aliada potencial contra o terrorismo.

Israel e Argentina: Uma Relação de Contradições

A presença de Israel na Argentina e na região, nas décadas abordadas pela série, era marcada por uma série de contradições. Por um lado, havia a atuação do Mossad, o serviço secreto israelense, que tinha um histórico de operações ousadas no país. O sequestro de Adolf Eichmann em 1960, protagonista da Segunda Guerra Mundial, em solo argentino, gerou um profundo ressentimento na cúpula militar e de inteligência local, que viu o ato como uma flagrante violação de soberania argentina. Esse evento cimentou a desconfiança sobre a capacidade de Israel de operar livremente no país.

Por outro lado, a relação entre os dois países era pragmática, especialmente no campo militar. Durante a Guerra das Malvinas (1982), Israel, apesar de ser um aliado próximo do Reino Unido, forneceu secretamente armamento e peças de reposição para a ditadura argentina. Essa venda de armas, que incluía caças Skyhawk e mísseis, era motivada por interesses geopolíticos e econômicos, visando manter a influência na América Latina e combater o isolamento diplomático.

A espionagem israelense na Argentina não se limitava à busca por alemães. Após os atentados, o Mossad e outras agências de segurança israelenses passaram a ter um objetivo claro: investigar e proteger a maior comunidade judaica da América Latina. No entanto, a série sugere que tensão interna argentina sobre o Plano Andinia e a espionagem israelense na Argentina teriam supostamente desviado o foco da inteligência local, tornando-a cega para a ameaça real representada por grupos como o Hezbollah e o Irã.

A Tragédia dos Atentados e o Arrependimento

O clímax da história real de Iosi, e o ponto de virada da série, é a explosão da Embaixada de Israel em 1992 e, dois anos depois, o atentado à AMIA em 1994, que deixou 85 mortos. Iosi, que havia se apegado à comunidade que espionava, viu o resultado de seu trabalho ser usado para a tragédia. Ele percebeu que os mapas e as informações logísticas que entregou aos seus superiores, sob o pretexto de combater o Plano Andinia, poderiam ter chegado a mãos de terceiros, facilitando possivelmente a ação dos terroristas.

O arrependimento de José Pérez o levou a fugir e a revelar sua história aos jornalistas, expondo a cumplicidade por omissão e denunciado seus superiores. Sua confissão é um testemunho devastador da influência da comunidade judaica, que tornou o argentino um agente duplo, trabalhando também para o Mossad. A série “Iosi, o Espião Arrependido” dramatiza a vida dupla e o tormento moral de um agente, que traiu sua pátria. Por outro lado, a busca por justiça nos casos AMIA e Embaixada de Israel continua sendo uma das principais dívidas históricas da Argentina, e a história de Iosi é uma peça-chave para tentar entender o que realmente aconteceu.

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