Enel e a crise de energia que se abateu sobre a Grande São Paulo expõem mais uma vez a falha estrutural na concessão de serviço essencial, em um quadro que se repete a cada ano. A capital paulista e sua região metropolitana foram atingidas por ventos intensos, desde a última quarta-feira, dia 10 de dezembro, com quedas de árvores que romperam a fiação aérea de transmissão de energia. A resposta da concessionária tem sido marcada pela lentidão e pela ausência de prazos, transformando um evento climático em um colapso de infraestrutura que afeta milhões de vidas e a economia local.
O drama se desenrola em bairros como na região da Chácara Klabin, na Vila Mariana, Zona Sul da cidade, onde a falta de energia elétrica ultrapassou a marca de 30 horas. O cenário é de caos e desorientação. Centenas de imóveis, tanto residenciais quanto comerciais, ficaram no escuro. O comércio local, pilar da economia do bairro, foi forçado a fechar as portas. Um supermercado precisou recorrer à contratação emergencial de um gerador para salvar estoques refrigerados e manter-se aberto e funcionando, evitando um prejuízo ainda maior.
A situação de risco se materializou na Avenida Prefeito Fábio Prado, uma importante via de ligação entre a Zona Leste e o centro. A força do vento derrubou uma enorme árvore que, além de amassar um veículo estacionado, bloqueou completamente a entrada de um imóvel e a circulação de veículos e pedestres. Motoristas que chegavam a uma rotatória se deparavam com o bloqueio sem qualquer orientação imediata, forçados a manobrar e buscar rotas alternativas, entrando nos bairros vizinhos em total desespero.
Situação similar ocorreu em uma via paralela próxima. Uma árvore, apesar de porte menor que essa da Fábio Prado, bloqueou por completo a rua Dionísio da Costa. Como, nesse caso, não havia fiação no lado da via em que a árvore caiu, em poucas horas uma equipe da prefeitura retirou a árvore e desobstruiu a rua.
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A Fúria do Vento e a Fragilidade da Rede
As rajadas de vento que atingiram a região metropolitana de São Paulo foram excepcionalmente fortes, com picos que chegaram a 98,1 km/h na Lapa, Zona Oeste, e 96,3 km/h no Aeroporto de Congonhas, na Zona Sul. A intensidade do temporal, classificado por especialistas como atípica, causou a queda de árvores e o rompimento de cabos, levando à interrupção do fornecimento para cerca de 2,2 milhões de clientes.
Apesar da magnitude do evento climático, a resposta da Enel tem sido o principal foco das críticas. A lentidão na mobilização das equipes e a falta de comunicação clara com os consumidores transformaram a crise em um teste de paciência e resiliência para os paulistanos. No caso da Chácara Klabin, a presença de uma “tímida equipe de 2 funcionários” da concessionária, vista apenas no dia 11, mais de 24 horas após a queda da árvore e dos postes, ilustra a deficiência operacional. O trabalho de reparo é complexo, com postes de sustentação da fiação puxados de suas posições pela tensão dos cabos elétricos e de comunicação, demandando um esforço que a equipe inicial não parecia capaz de suprir.
A própria Enel reconheceu a destruição da rede, citando avarias em subestações e a complexidade dos reparos. No entanto, a empresa não forneceu um prazo concreto para a normalização total do serviço, limitando-se a informar que mais de 500 mil clientes já haviam tido o fornecimento restabelecido até a manhã do dia 11, enquanto milhões seguiam no escuro.
Prejuízos Bilionários e o Clamor dos Consumidores
Os impactos da crise de energia vão muito além do desconforto. A paralisação de atividades e a perda de mercadorias resultaram em um prejuízo econômico estimado em mais de R$ 1,5 bilhão, um valor que sublinha a gravidade da interrupção para a economia da maior metrópole do país.
Relatos de prejuízos se multiplicam por toda a Grande São Paulo. Moradores e comerciantes de diversas regiões, além da Vila Mariana, como Tatuapé, Pinheiros, Ipiranga e cidades vizinhas como Santo André, Guarulhos e Osasco, reportam a perda de alimentos, medicamentos refrigerados e o cancelamento de compromissos de trabalho. A falta de luz impede o funcionamento de bombas d’água em edifícios, gerando também a falta de abastecimento em andares mais altos, agravando o cenário de calamidade.
A insatisfação popular se manifesta em críticas veementes nas redes sociais e nos canais de atendimento da Enel, que ficaram congestionados. Todos são categóricos na percepção de que a concessionária não investiu o suficiente em manutenção preventiva e em um plano de contingência robusto, deixando a infraestrutura vulnerável a eventos climáticos previsíveis. O que torna essa crise ainda mais grave é o fato do quadro se repetir a cada verão, se arrastando sob retóricas de prefeitos e do governador, que de nada efetivo resultaram para sanar esse problema.
O Fogo Cruzado Político e a Concessão em Xeque
A crise de energia rapidamente se transformou (mais uma vez) em um embate político, expondo a fragilidade da relação entre o poder público e a concessionária. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, criticou publicamente a lentidão da Enel no restabelecimento da energia, manifestando preocupação com a velocidade da resposta. Em um movimento que sinaliza a gravidade da situação, Tarcísio defendeu a possibilidade de dividir a concessão do serviço para acelerar as respostas em momentos de crise.
Entretanto, nada disso é novidade. Esse tipo de discurso político se repete a cada ano, mas, na prática, nada acontece. O governador Tarcísio de Freitas já expressou críticas semelhantes no passado, junto com o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes. Contudo, até agora, não houve ações concretas para resolver o problema. O que se observa é uma Enel com respostas insuficientes para atender à demanda, além da falta de soluções efetivas, como o enterramento das fiações e a manutenção das árvores, muitas das quais estão visivelmente fragilizadas e condenadas.
A discussão sobre o contrato de concessão da Enel foi reaberta. Críticos apontam que a empresa tem falhado reiteradamente na qualidade do serviço, e que a dificuldade do poder público em romper o contrato ou impor sanções mais severas revela sua omissão na fiscalização e na defesa dos interesses dos consumidores. A crise atual intensifica a disputa e coloca em xeque a capacidade da concessionária de gerir a distribuição de energia em uma metrópole do porte de São Paulo.
A população, por sua vez, cobra uma postura mais firme da prefeitura e do governo do estado, exigindo não apenas a normalização imediata do serviço, mas também um plano que garanta a modernização da rede e a uma resposta mais rápida na solução de falhas na prestação de um serviço essencial.
O Desafio da Resiliência Urbana
A crise da Enel é um sintoma da falta de resiliência da infraestrutura urbana de São Paulo diante de eventos climáticos extremos, que tendem a se tornar mais frequentes. A desorientação no trânsito, população e comércio afetados e a lentidão no reparo, é um problema crônico que se espalha por toda a região metropolitana.
Enquanto a concessionária Enel trabalha para reconectar os milhões de clientes afetados, a discussão sobre a qualidade do seu serviço, a fiscalização e o futuro da concessão de energia elétrica na região ganha novamente urgência. O que resta saber se, desta vez, haverá em resposta uma solução em definitivo, ou se o assunto cairá mais uma vez no esquecimento até a próxima crise. A sociedade exige transparência, agilidade e, acima de tudo, um serviço que esteja à altura de uma das principais regiões metropolitanas da América.

