quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Desmatamento pode estar intensificando ventos e frio no Brasil, apontam estudos

por Maria Gabriela Portugal
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FRIO INTENSO

Floresta derrubada, ventos em ascensão

O Brasil enfrenta uma sequência de frentes frias intensas e ventos fortes que chamaram a atenção de meteorologistas e da população. Embora esses fenômenos sejam naturais e associados a massas de ar polar vindas da Antártida, cientistas alertam que o desmatamento pode estar intensificando seus efeitos, tornando o clima brasileiro mais instável e imprevisível.

Um estudo publicado na revista Cerne (SciELO, 2023) analisou uma região de transição entre o Cerrado e a Amazônia, em Mato Grosso, e encontrou um dado revelador: a velocidade do vento em áreas desmatadas foi até 22 vezes maior do que em áreas cobertas por floresta.

A explicação está na própria estrutura da vegetação. As árvores funcionam como barreiras naturais, que reduzem a força do vento e mantêm o equilíbrio térmico do ar próximo ao solo. Quando a floresta é derrubada, o terreno fica exposto, mais quente durante o dia e mais frio à noite, criando diferenças de pressão que favorecem rajadas e turbulência atmosférica.

O ciclo da umidade quebrado

Além de conter o vento, as florestas são máquinas de umidade. Cada árvore libera milhares de litros de vapor d’água diariamente, ajudando a formar nuvens e chuvas. Essa umidade se desloca pelo país como um “rio voador”, que alimenta o Centro-Oeste, Sudeste e Sul com chuvas regulares.

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Mas com o avanço do desmatamento para criação de gado e plantação de soja, esse ciclo está se rompendo. Um estudo da Universidade de São Paulo (USP), publicado em 2025, mostra que o desmatamento foi responsável por 74% da redução das chuvas e 16% do aumento da temperatura máxima na Amazônia nas últimas décadas.

Com menos umidade e mais calor acumulado no solo, o ar frio que chega das regiões polares se espalha com mais intensidade, gerando quedas bruscas de temperatura e ventos mais fortes.

Mais extremos, menos equilíbrio

Os efeitos do desmatamento não se limitam ao calor ou à seca. A perda de cobertura vegetal aumenta os contrastes térmicos e muda o comportamento das massas de ar, favorecendo fenômenos extremos. Ou seja: o mesmo processo que contribui para ondas de calor também amplifica a força de frentes frias e vendavais.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), lembra que “a Amazônia é um ar-condicionado natural do planeta”. Quando esse sistema é enfraquecido, o clima se torna mais volátil. “Estamos perdendo a capacidade de moderar o calor e o frio”, explica.

Em outras palavras, o desmatamento não causa o frio, mas agrava sua intensidade e irregularidade. O resultado é um país com mais extremos climáticos — dias de calor intenso seguidos de quedas abruptas de temperatura e ventos destrutivos.

Ciência confirma: clima mais instável

Pesquisas recentes publicadas em periódicos internacionais, como Sustainability (MDPI, 2025) e Geoscience Letters (2025), reforçam essa conclusão. Elas mostram que as mudanças no uso da terra alteram a temperatura de superfície, a evapotranspiração e o balanço de energia, modificando a circulação local dos ventos e a formação de nuvens.

A combinação entre desmatamento, queimadas e aquecimento global cria um cenário de instabilidade atmosférica permanente. Regiões que antes eram protegidas por florestas e umidade agora estão mais vulneráveis a rajadas de vento, tempestades localizadas e quedas bruscas de temperatura.

O clima reage ao que o homem faz com a terra

O consenso entre os cientistas é claro: o desmatamento muda o clima — local, regional e globalmente.

A floresta amazônica e o Cerrado funcionam como reguladores naturais do vento, da temperatura e das chuvas. Ao perder essa proteção, o Brasil abre espaço para um clima mais agressivo e desequilibrado.

As temperaturas baixas e ventos fortes dos últimos meses são consequência direta das frentes frias polares, mas encontram um território cada vez mais vulnerável, com menos vegetação e mais extremos.

O desmatamento, portanto, não cria o frio, mas faz o país sentir seus efeitos de forma mais intensa. Em tempos de crise climática, a lição é clara: preservar florestas é também uma forma de proteger o clima — e a estabilidade — do Brasil.

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