quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Desdolarização está mudando o comércio global

por Marco Antonio Portugal
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DESDOLARIZAÇÃO

A desdolarização está em alta no mercado financeiro global, sinalizando uma das mais profundas transformações no cenário econômico das últimas décadas. A moeda americana, que por longo tempo funcionou como a espinha dorsal do comércio e das finanças internacionais, enfrenta um desafio crescente. Uma onda de nações busca ativamente reduzir sua dependência do dólar, impulsionada por uma complexa teia de fatores geopolíticos, sanções econômicas e a busca incessante por maior autonomia monetária. Esse movimento está levando países a priorizarem moedas próprias em transações comerciais, reconfigurando alianças e, em última instância, o próprio sistema de reservas globais.

A tendência de desdolarização não se manifesta de forma homogênea. Observam-se diferentes graus de intensidade, que variam desde o abandono quase total em economias isoladas até a diversificação estratégica de reservas em grandes potências. A principal força motriz por trás dessa mudança reside na percepção de risco. O uso de sanções financeiras por Washington contra países como a Rússia e o Irã transformou o dólar de um mero instrumento de troca em uma potencial arma geopolítica. Para muitos governos, essa nova realidade acelera a busca por alternativas mais seguras e menos vulneráveis a intervenções externas.

Países que Lideram a Desdolarização Parcial

O movimento mais visível da desdolarização ocorre no âmbito do comércio bilateral e na gestão de reservas. As grandes economias emergentes, notadamente os membros do bloco BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), estão na linha de frente dessa transformação. O objetivo não é eliminar o dólar de todas as suas funções, mas sim diminuir sua participação em áreas cruciais, como a liquidação de importações e exportações.

A Rússia, por exemplo, foi forçada a acelerar o processo de desdolarização após as sanções ocidentais impostas em 2022. O país realizou um corte drástico em suas reservas denominadas em dólar. Além disso, direcionou seu comércio bilateral para o uso de rublos e yuan chinês, utilizando sistemas de pagamento alternativos, como o SPFS (Sistema de Transferência de Mensagens Financeiras) russo. Essa ação não somente protegeu a economia russa dos efeitos mais severos das sanções, mas também serviu de modelo para outras nações.

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A China é uma peça central nesse xadrez da desdolarização. Pequim promove ativamente o comércio liquidado em yuan, expandindo acordos de swap cambial com diversos parceiros. Seu sistema de pagamentos interbancário transfronteiriço (CIPS) processa anualmente bilhões de dólares em liquidações, oferecendo uma alternativa direta ao sistema SWIFT, dominado pelo dólar. O governo chinês também tem reduzido a participação do dólar em suas reservas, aumentando as alocações em ouro e euro.

A Índia adota uma postura pragmática. O Banco Central indiano trabalha para expandir a liquidação em rupias com parceiros comerciais, como a Rússia e os Emirados Árabes Unidos. Embora Nova Deli negue uma mudança total, o volume de comércio liquidado em moedas que não o dólar está em clara ascensão. Essa abordagem visa reduzir os custos de conversão e a exposição à volatilidade do dólar.

O Brasil também participa ativamente dessa agenda. O país tem colaborado com a China para liquidar o comércio de certas commodities usando o real e o yuan, em vez do dólar. Essa parceria é um esforço conjunto para diminuir a dependência da moeda americana no comércio entre os membros do BRICS. A desdolarização brasileira, nesse contexto, foca em acordos bilaterais de liquidação em moeda local (LCSAs), que simplificam o comércio e evitam a necessidade de intermediários em dólar.

A Diversificação de Reservas e o Papel do Ouro

Um indicador crucial da desdolarização é a gestão das reservas cambiais pelos bancos centrais. Historicamente, o dólar americano dominou essas reservas, mas dados recentes mostram uma tendência inegável de diversificação. Países estão reduzindo a participação do USD em favor de outras moedas e ativos, como o euro, o ouro e o yuan chinês.

O Brasil, por exemplo, viu a participação do dólar em suas reservas cair de aproximadamente 83% em 2015 para menos de 60% em 2025. Essa realocação é um movimento estratégico para proteger a economia de choques externos e da política monetária americana. Desde 2014, a Rússia tem se concentrado em ouro, euro e yuan, eliminando praticamente o dólar de suas reservas.

A Arábia Saudita, um ator-chave no mercado global de energia, também tem demonstrado interesse em aumentar seus ativos não-dólar por meio de fundos soberanos. A Turquia prefere alocações em ouro e acordos de recompra (repo) em detrimento de títulos do Tesouro americano. Essa diversificação não é um abandono total, mas uma redução calculada da exposição ao risco cambial e geopolítico do dólar.

O ouro, em particular, tem ressurgido como um ativo de reserva preferencial. O metal precioso é visto como um refúgio seguro e um ativo que não está sujeito às sanções ou à política monetária de nenhum país. Esse aumento das compras de ouro por bancos centrais globais é um sinal claro de que a desdolarização está em pleno curso, visando construir um sistema financeiro multipolar.

O Abandono Total: Casos Extremos e o Mercado Paralelo

Embora a desdolarização parcial seja a norma entre as grandes economias, alguns países, em situações geopolíticas extremas, buscaram o abandono quase total do dólar. É importante notar que o “abandono total” é raro e, muitas vezes, incompleto devido à profunda integração do dólar no sistema financeiro global.

A Coreia do Norte é o exemplo mais extremo, operando fora do sistema financeiro global e conduzindo seu comércio em moedas locais ou por meio de escambo, devido a sanções internacionais e isolamento. O Irã e a Venezuela, ambos sob sanções pesadas dos EUA, têm políticas oficiais anti-dólar. O Irã, em particular, foi um dos primeiros a adotar estruturas de liquidação alternativas para seu comércio de petróleo. No entanto, em ambos os países, o dólar ainda circula em mercados paralelos e não oficiais, demonstrando a dificuldade de erradicar completamente sua influência.

Cuba também se moveu para minimizar o uso do dólar em seu sistema bancário e comercial, preferindo o euro, o dólar canadense ou outras moedas para transações internacionais. Esses casos, embora extremos, ilustram a determinação de nações em se protegerem da influência econômica e política dos Estados Unidos.

A desdolarização é um processo complexo e gradual. Não se trata de uma substituição imediata, mas de uma erosão lenta e constante da dominância do dólar. O futuro do comércio global aponta para um sistema mais fragmentado e multipolar, onde moedas locais e regionais desempenharão um papel cada vez mais importante. A tendência é que o dólar continue a ser uma moeda de reserva relevante, mas com uma fatia menor do bolo global, à medida que a desdolarização avança.

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