Acordos sem transparência reacendem alerta regional
Em fevereiro de 2023, 12 províncias argentinas assinaram acordos com a empresa estatal israelense Mekorot, gesto que reacendeu o debate regional sobre governança, privatização e soberania hídrica.
Conforme o site ANRed e documentos oficiais, os governos provinciais firmaram os convênios sem licitação pública e sem consulta à população, o que levantou questionamentos jurídicos e possíveis violações constitucionais.
Críticas ao modelo e temor de priorização extrativista
Embora as autoridades apresentem os contratos como assessoria técnica para planos de gestão da água, ambientalistas e a campanha “Fuera Mekorot” contestam essa narrativa.
Segundo esses grupos, os projetos tendem a privilegiar setores extrativistas, como mineração e agronegócio, em detrimento do abastecimento humano e da proteção ambiental.
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Além disso, críticos associam o modelo de gestão da Mekorot a práticas de uso desigual da água em territórios palestinos, denunciadas por organismos internacionais de direitos humanos.
Chile: crise hídrica expõe limites do modelo privatizado
Nesse contexto, o debate ganhou força no Chile, onde a discussão se conecta à mais crise hídrica da história recente do país. Após mais de 15 anos de mega seca, mais da metade das comunas chilenas vive sob decretos de escassez hídrica.
Entretanto, especialistas afirmam que o problema vai além do clima e reflete um modelo altamente privatizado de gestão da água, herdado da ditadura, no qual cerca de 80% dos recursos hídricos permanecem em mãos privadas.
Brasil observa com atenção e enfrenta desafios semelhantes
Ao mesmo tempo, o debate encontra paralelos diretos no Brasil. Apesar de concentrar aproximadamente 12% da água doce superficial do planeta, o país convive com fortes desigualdades regionais, conflitos em bacias estratégicas e pressões crescentes do agronegócio, da mineração e de grandes projetos energéticos.
Além disso, o avanço da participação privada no saneamento, impulsionado pelo marco legal de 2020, intensificou os alertas sobre a necessidade de regulação rigorosa, transparência e controle social.
Água como escolha política e direito humano
Para especialistas e movimentos sociais, os casos da Argentina e do Chile funcionam como um alerta regional. A crise da água na América do Sul não se resume a fatores climáticos: ela envolve decisões políticas, institucionais e econômicas sobre quem controla um recurso essencial à vida.
Contudo, sem transparência, participação social efetiva e prioridade ao direito humano à água, cresce o risco de aprofundar desigualdades e conflitos em um cenário de escassez cada vez mais frequente.

