quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Cooperação Comercial entre EUA e China renova-se após encontro Trump–Xi

por Marco Antonio Portugal
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COOPERAÇÃO COMERCIAL

O recente encontro entre Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos, e Xi Jinping, Presidente da República Popular da China, trouxe à tona novas expectativas sobre a cooperação comercial entre as duas potências. A reunião, ocorrida em Busan, Coreia do Sul, na margem do fórum Asia‑Pacific Economic Cooperation (APEC), foi antecedida por sinais de entendimento e resultou em anúncios que geraram reação mista nos mercados.

Contexto e escopo do encontro

A cooperação comercial entre EUA e China vinha passando por intensa turbulência, com tarifas elevadas, restrições tecnológicas e medidas recíprocas de retaliação. A China confirmou que Xi Jinping receberia Trump na Coreia do Sul para o encontro formal. Durante as negociações preparatórias, foi divulgado que ambos os lados haviam estabelecido um “framework” para avanço comercial. O governo chinês, por meio de seu porta-voz, indicou que estava disposto a “fazer esforços conjuntos com os Estados Unidos para promover resultados positivos deste encontro e fornecer nova orientação e impulso para o desenvolvimento estável das relações sino-americanas”. Antes da reunião, já haviam sido observadas compras chinesas de soja americana — a primeira do ano — por parte da estatal chinesa COFCO, movimento interpretado como um sinal de aquecimento da cooperação comercial.

No momento do encontro, Trump declarou que a reunião havia sido “12 de 10” em uma escala de zero a dez. Da parte chinesa, Xi afirmou que “a China e os EUA não devem cair em um ciclo vicioso de retaliação mútua” e que as relações comerciais deveriam servir de “pedra de lastro” para o relacionamento bilateral. Essa ênfase reforça que, para a China, a cooperação comercial é parte inseparável da estabilidade geoeconômica.

Principais anúncios e medidas acordadas

No bojo deste encontro, vários anúncios importantes foram divulgados, todos com implicações diretas para a cooperação comercial. O presidente Trump anunciou que os Estados Unidos reduzirão a alíquota combinada de tarifas sobre importações chinesas para aproximadamente 47 %, frente aos 57 % anteriores. Em contrapartida, a China concordou em permitir a exportação de terras-raras — matérias-primas críticas para tecnologia — e em retomar compras de soja americana, beneficiando o mercado agrícola dos EUA. Além disso, suspenderam-se por um ano uma investigação estadunidense sobre a indústria naval chinesa e controles de exportação, segundo reportagens. Outro ponto relevante foi o compromisso chinês de colaborar mais efetivamente no combate ao tráfico de fentanil — uma das frentes importantes para o governo norte-americano.

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Essas medidas são vistas como a “fase 1” de um entendimento mais amplo e servem como vetor para retomar a cooperação comercial em setores praticamente congelados, como agropecuária, matérias-primas e comércio industrial. Ainda assim, algumas questões estruturais — como semicondutores, tecnologia crítica, e segurança nacional — permanecem em aberto.

Reações do mercado e implicações para investidores

A partir da perspectiva do mercado, a retomada da cooperação comercial entre Estados Unidos e China foi recebida com otimismo cauteloso. Segundo reportagem da Reuters, analistas de mercado reagiram ao encontro com destaque para o alívio nas tensões tarifárias, mas advertiram que estruturas profundas ainda permanecem. No setor de commodities, por exemplo, o preço do petróleo oscilou pouco, com um ligeiro recuo após o anúncio da redução tarifária, sinalizando que o mercado reconhece tendência de normalização, porém não espera surpresas imediatas.

Na Ásia, os mercados abriram com leve alta em Hong Kong e Xangai, e o índice Kospi da Coreia do Sul atingiu a marca de 4.000 pontos pela primeira vez, apoiado pela expectativa de crescimento no comércio com os EUA. No entanto, a cautela permanece; muitos investidores reconhecem que, embora a cooperação comercial tenha sido avançada, as divergências estruturais — como controle de tecnologia, segurança de dados e dependência de cadeias de suprimento — continuam a exercer pressão. A reportagem da Time destaca que Xi chega à mesa com posição fortalecida e com menos necessidade de concessões profundas, o que acentua o risco de avanços limitados.

Além disso, fontes chinesas — como agências estatais — enfatizam que a China aborda a cooperação comercial como parte de uma estratégia de longo prazo, independente de resultados imediatos. Xi destacou que a relação econômica “deve servir de lastro” e que as disputas pontuais não devem minar a base da parceria comercial. De modo semelhante, a Rússia observa essa dinâmica com certo interesse estratégico: a aliança emergente entre China e Rússia se beneficia de um cenário no qual os EUA buscam assentar a cooperação comercial bilateral antes de redirecionar esforços para outras frentes. Um artigo da Moscow Times lembrava que a China havia prometido “laços mais profundos” com a Rússia após advertências dos EUA-Trump. Nesse sentido, mercados de países exportadores de matérias-primas ou ligados a cadeias de valor alternativas ficam atentos à forma como a cooperação comercial EUA-China pode provocar realinhamentos globais.

Perspectivas para a sustentabilidade da cooperação comercial

A pergunta central agora é: até que ponto a cooperação comercial entre EUA e China será sustentável e abrangente? Os acordos anunciados são importantes, mas estão concentrados em medidas de curto prazo e em setores específicos — soja, terras-raras, fentanil, tarifas. Há pouco de progresso visível em temas como controle de exportação de tecnologia, direitos de propriedade intelectual ou investimento estrangeiro direto de longo prazo. Fontes chinesas enfatizam que o país quer evitar ciclos de retaliação e quer que suas empresas possam operar com previsibilidade. Por outro lado, analistas ocidentais advertem que a estrutura de poder permanece desequilibrada que a China, ao consolidar sua posição, não tem forte incentivo para ceder em áreas estratégicas.

No mercado, essa combinação leva a uma linguagem de “esperança cautelosa”: investidores elevam exposição a ativos que se beneficiam de comércio e matérias-primas, mas mantêm reservas frente a riscos geopolíticos e tecnológicos. A cooperação comercial pode ser ampliada, mas provavelmente em etapas graduais. Países como Brasil, ou empresas que participam das cadeias de valor entre América do Norte e Ásia, devem acompanhar de perto os desdobramentos: se a China realmente ampliar compras agrícolas, matérias-primas ou reverter restrições, haverá impacto direto nas exportações brasileiras de soja, no fornecimento de metais estratégicos e em investimentos de infraestrutura. A lógica de diversificação de cadeias (“China +1”) também ganha relevância no contexto de supervisão global.

Finalmente, a cooperação comercial será também testada na execução prática. Se as partes respeitarem os acordos provisórios — adiar controle de terras-raras, retomar importações agrícolas, reduzir tarifas — poderemos entrar em nova fase de estabilidade. Caso contrário, o mercado ficará sujeito a novas tensões. A China parece adotar um discurso de autossuficiência estratégica, e os EUA – apesar da abertura – continuam recuando com cautela.

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