O consumo americano enfrenta um ambiente de incerteza no fim de 2025. A inflação permanece acima da meta do Federal Reserve (Fed), o mercado de trabalho dá sinais de acomodação e a temporada da Black Friday chega como teste real para o poder de gasto das famílias. No cenário vigente, prevalece mais ceticismo do que otimismo, ainda que haja pontos de luz, a economia dos Estados Unidos não está à beira de um colapso, mas está claramente em uma fase de transição.
Inflação e confiança do consumidor
A inflação nos Estados Unidos ainda gera desconforto. Embora os preços dos principais bens e serviços tenham desacelerado em relação ao ápice do ciclo inflacionário, os consumidores ainda sentem o peso de taxas de juros elevadas, financiamento caro e pressões na renda real. Ao mesmo tempo, a confiança pública registra queda significativa: segundo levantamento da University of Michigan, o índice de sentimento do consumidor caiu para 50,3 em novembro, o nível mais baixo em mais de três anos. Em paralelo, as expectativas de inflação de curto prazo subiram para cerca de 4,7%, o que sinaliza nervosismo com preços futuros. Esse conjunto compõe um pano de fundo que tende a conter o apetite por consumo discreto.
Mercado e a dinâmica da Black Friday
Cabe ao evento da Black Friday protagonizar a virada de página do varejo americano no ano, mas sob condições diferentes das dos anos anteriores. Segundo projeções da National Retail Federation, as vendas no fim de ano devem ultrapassar US$ 1 trilhão, pela primeira vez. No entanto, a taxa de crescimento prevista de 3,7% a 4,2% está abaixo da de 2024. O consumidor parece querer gastar, especialmente em promoções atraentes, mas ao mesmo tempo adota postura mais cautelosa: relevam-se ofertas reais, evitando compras impulsivas e priorizando itens essenciais. A inflação elevada e o custo do crédito estão entre os principais freios. Para o mercado financeiro, essa Black Friday será menos sobre explosão de vendas e mais sobre medição de resiliência, se os consumidores responderem e as vendas forem robustas, haverá sinal de que o motor do consumo continua ligado; se não, o ceticismo ganhará força.
Otimismo ou ceticismo dominante?
Diante desse cenário, o sentimento americano se inclina mais ao ceticismo do que ao otimismo pleno. Há razões para acreditar que o consumo se manteve firme até aqui, mas elas estão cada vez mais condicionadas a fatores específicos: promoções mais agressivas, liquidação de estoques, deslocamento para compras online ou adiamento de grandes gastos para melhores condições. Já o otimismo sustentado esbarra em diversos obstáculos: inflação ainda elevada, afrouxamento moderado da política monetária, emprego forte mas não mais expansivo com a mesma velocidade, e um cenário global com incertezas (taxas de juros, geopolítica, cadeias de abastecimento). A média das previsões para crescimento das vendas de fim de ano, ritmo moderado de cerca de 3%, reforça esse ambiente mais contido. Assim, o mercado parece apostar em desempenho “bom, mas não ótimo”.
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Qual o impacto para os próximos meses?
Se o resultado das vendas da Black Friday vier melhor do que o esperado, pode surgir uma onda de otimismo moderado: o consumidor mostraria que resiste apesar das adversidades, e isso poderia estimular subsequente elevação de estoques dos varejistas, reforço de contratações sazonais e impacto positivo em alguns papéis de consumo discricionário. Mas se o desempenho for fraco, o ceticismo prevalecerá, e o risco de arrefecimento mais marcado ganhará relevância, pressionando expectativas de crescimento para o primeiro semestre de 2026. Por ora, os investidores americanos parecem estar ajustando exposições: menos convicção de expansão forte, mais foco em eficiência de custos, margens e seletividade de estoque.
Conclusão da perspectiva americana
Em síntese, a perspectiva americana para novembro e a Black Friday é marcada por cautela. O consumo não está em risco imediato de colapso, mas também não opera com fôlego pleno. A inflação e as taxas de juros elevadas impõem limites claros, e a confiança do consumidor mostra sinais visíveis de vacilação. O mercado aguarda os resultados da Black Friday como indicador de saúde econômica mais amplo. Até lá, o tom predominante segue sendo o do ceticismo controlado — não o de pânico, mas o de vigilância atenta.

