A capital paulista vive uma crise silenciosa que se arrasta por anos nas ruas e avenidas: o abandono massivo de veículos. Segundo dados recentes, existem cerca de 40 mil veículos abandonados espalhados pela cidade de São Paulo, transformando a paisagem urbana em um cemitério de ferrugem e lataria deteriorada. O problema se agrava quando somado à ineficiência do principal canal de atendimento da prefeitura, o SP156, onde o tempo médio para atendimento de chamados relacionados a serviços essenciais ultrapassa a marca de 700 dias.
A dimensão do problema é alarmante. Apenas no primeiro semestre de 2024, foram registrados 20 mil pedidos de remoção de veículos abandonados através do portal 156 da prefeitura, o que representa uma média de 24 solicitações diárias. Entre janeiro e março de 2024, a cidade recebeu cerca de 6 mil pedidos para remoção desses automóveis, evidenciando a gravidade crescente da situação.
O ciclo de abandono e suas causas
A maioria dos veículos deixados nas ruas tem um perfil comum: são automóveis antigos, com problemas mecânicos cujos custos de reparo superam o valor de mercado do bem. Conforme a Prefeitura de São Paulo, cerca de 90% dos veículos removidos são sucatas de baixo valor comercial. Muitos proprietários enfrentam débitos acumulados de multas, IPVA e documentação irregular, tornando o abandono uma “solução” menos onerosa do que a regularização.
A crise econômica também contribui significativamente para o aumento desses casos. Segundo análise do economista Joelson Sampaio, da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas, a baixa expectativa de crescimento de receitas deixa os custos de manutenção dos veículos menos suportáveis ao longo do tempo. “Acaba sendo como uma pirâmide: quanto mais a frota se renova na ponta, mais veículos antigos acabam empurrados para a base”, explica o especialista.
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Equivale a ~30 shoppings centers com os estacionamentos lotados
Os dados históricos confirmam a tendência de crescimento. Em 2018, a quantidade de veículos abandonados flagrados nas ruas e removidos por agentes municipais chegou a 12.157 nos primeiros sete meses, um aumento de 55% em relação ao mesmo período do ano anterior. As regiões com maior concentração foram Ipiranga, com 1.402 casos, Vila Maria, com 1.109, Butantã, com 810 e Mooca, com 781 casos. O número atual de veículos não recolhidos supera em mais de 3 vezes o número de veículos recolhidos em 2018.
Impactos na segurança, saúde e meio ambiente
Os veículos abandonados representam muito mais do que um problema estético urbano. Eles se transformam em sérias ameaças à segurança pública, à saúde coletiva e ao meio ambiente. Moradores relatam que esses automóveis tornam-se esconderijos para bandidos e usuários de drogas, pontos de descarte irregular de lixo e focos de insegurança nos bairros.
Na questão sanitária, o risco é ainda mais grave. Veículos abandonados acumulam água da chuva em pneus, para-brisas quebrados e partes internas deterioradas, criando criadouros perfeitos para o mosquito Aedes aegypti, transmissor de dengue, zika e chikungunya. “Veículos abandonados representam um grande risco à saúde pública, por poderem se tornar focos do mosquito da dengue, ainda mais neste período de chuvas intensas”, alerta Waldir Soares, presidente do Detran de Goiás.
Os impactos ambientais também são significativos. Quando expostos, esses veículos liberam fluidos tóxicos como óleo de motor e combustível que vazam e infiltram-se no solo, contaminando lençóis freáticos e comprometendo o abastecimento de água potável. Mesmo parados, liberam compostos orgânicos voláteis devido à deterioração de plásticos e metais, agravando a poluição atmosférica e contribuindo para o efeito estufa.
A ineficiência crônica do SP156
O sistema SP156, criado para ser o principal canal de comunicação entre cidadãos e prefeitura, enfrenta críticas severas quanto à sua efetividade. Embora a Prefeitura afirme que recebeu mais de 2 milhões de solicitações em 2024, com 90% delas concluídas, a realidade percebida pelos moradores é bem diferente.
Relatos de usuários evidenciam a frustração generalizada. “O aplicativo trava, mas quando funciona a prefeitura quase nunca faz nada”, queixa-se Roberto Mauro. Ingrid Vaz lamenta: “Por enquanto tenho o aplicativo há dois meses, com três solicitações que ainda não foram atendidas”. Nilson Areal comenta que um veículo abandonado cheio de mato e criadouro de ratos foi resolvido somente dois meses depois da denúncia.
Segundo a legislação municipal, veículos abandonados podem ser recolhidos após dez dias da notificação. No entanto, moradores reclamam que a espera na prática é muito maior.
A questão dos pátios superlotados e leilões travados
Outro gargalo crítico no processo é a superlotação dos pátios municipais. Os espaços destinados a receber os veículos recolhidos por abandono ou outros motivos estão completamente saturados. Essa situação compromete a capacidade operacional de remoção, criando um ciclo vicioso: sem espaço nos pátios, os guinchos não conseguem recolher novos veículos, que permanecem nas ruas por tempo indeterminado.
Historicamente, esse problema não é novo. Um documento técnico de 1977 já alertava para a superlotação dos pátios municipais, com os quatro pátios então existentes operando com lotação esgotada, impedindo o uso eficiente da frota de guinchos.
A solução prevista em lei é o leilão dos veículos não reclamados após 90 dias da remoção. No entanto, muitos automóveis possuem restrições judiciais, pendências policiais ou problemas documentais que impedem sua comercialização. Dos 4.343 veículos preparados para arrematação em um lote específico, 13,5% tinham alguma restrição, totalizando 588 veículos que permaneceriam ocupando os pátios.
A polêmica mudança na multa
Diante da crise nos pátios, a Prefeitura de São Paulo tomou uma decisão controversa: reduziu drasticamente a multa para quem abandona veículos nas ruas, de R$ 26 mil para R$ 959, uma queda de 96%. A medida, aprovada pelos vereadores e sancionada em setembro de 2025, tem como objetivo facilitar a retirada dos veículos pelos proprietários e desafogar os pátios municipais.
Segundo o secretário das Subprefeituras, Fabrício Cobra, a multa anterior era proibitiva: “Quando ela [a multa] era de 26 mil, era praticamente muito maior que o valor do veículo. Essa oportunidade vai poder também fazer com que o proprietário reveja o veículo, pague as taxas e o recupere”.
Críticos, no entanto, questionam se o valor tão baixo incentivaria ainda mais o abandono de veículos. A Prefeitura argumenta que não, e que a medida, combinada com a simplificação dos processos administrativos e a agilização dos leilões, permitirá o esvaziamento dos pátios.
O desafio operacional e estrutural
A Prefeitura de São Paulo opera com apenas cinco guinchos para cobrir as 32 subprefeituras da cidade, de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h. Segundo anunciou o secretário Fabrício Cobra, esse número será ampliado para dez guinchos, mas a capacidade ainda parece insuficiente diante da magnitude do problema.
O processo de remoção envolve múltiplas etapas burocráticas. Após a denúncia, uma equipe afixa uma notificação no veículo. Somente após cinco dias úteis sem providências por parte do proprietário, o automóvel é considerado abandonado. Antes da remoção, a Subprefeitura precisa verificar junto à Polícia Militar, CET e Detran se o veículo não tem relação com crime, sinistro, furto ou pendência judicial. Por isso, não há prazo definido para atendimento da demanda.
Desde 2019, a Prefeitura recolheu 6.469 veículos das vias públicas, atendendo a 100 mil das 106 mil solicitações feitas através do Canal SP156. Cada veículo retirado tinha em média 15,45 solicitações registradas no sistema, evidenciando a frustração dos cidadãos com a demora no atendimento.
Perspectivas e soluções necessárias
Especialistas apontam que a solução para o problema dos veículos abandonados exige uma abordagem multifacetada. André Marques, coordenador executivo do Centro de Gestão e Políticas Públicas do Insper, questiona a morosidade na execução das metas mesmo com recursos disponíveis: “A Prefeitura tem um volume de caixa importante hoje nas mãos. Será que esse recurso não daria para acelerar esses estudos?”.
A simplificação dos processos burocráticos, ampliação da frota de guinchos, agilização dos leilões e parcerias com empresas de reciclagem automotiva são medidas urgentes. Porto Alegre demonstra que, com organização, legislação adequada e fiscalização efetiva, é possível transformar a realidade em poucos anos.
Para os moradores paulistanos, resta a esperança de que as novas medidas anunciadas pela gestão municipal finalmente tragam resultados concretos. Enquanto isso, os 40 mil veículos abandonados continuam ocupando espaços públicos, deteriorando bairros, ameaçando a saúde pública e servindo como símbolo visível da ineficiência administrativa que assola a maior metrópole do país.
Como denunciar: Os cidadãos podem solicitar a remoção de veículos abandonados pelos canais 156 (telefone), portal SP156 ou aplicativo SP156, informando endereço, cor, modelo, tempo de abandono, placa (se houver) e anexando fotos.

