O serviço de capinação e roçada em São Paulo se tornou, nos últimos anos, um termômetro do próprio funcionamento da zeladoria urbana da cidade. O que antes poderia ser visto como uma tarefa de rotina, quase invisível, hoje aparece nas estatísticas como um foco permanente de insatisfação dos moradores e um fator que, quando negligenciado, abre espaço para riscos concretos à saúde da população. Os dados dos últimos cinco anos mostram uma explosão de reclamações, tempos de espera que continuam elevados e discrepâncias que revelam um sistema que ora responde com uma aparente rapidez, ora deixa pedidos esquecidos por meses ou até anos. Em paralelo, especialistas em saúde e vigilância ambiental apontam que o mato alto em sarjetas, praças e canteiros centrais não é apenas sinal de abandono visual, mas também um ambiente fértil para insetos, mosquitos e animais peçonhentos, como escorpiões, com potencial de agravar problemas de saúde pública em áreas urbanas densas.
Cinco anos de alta nas queixas e prazos esticados
Ao observar a média mensal de reclamações relacionadas à capinação e roçada, a trajetória registrada na cidade de São Paulo é consistente e preocupante. Em 2020, o sistema de atendimento municipal recebia em torno de 1.909 manifestações por mês sobre esse tipo de serviço, envolvendo principalmente mato alto em sarjetas, praças de bairro e canteiros centrais de grandes avenidas. Essa média tem crescido ao longo dos anos, até alcançar 4.442 reclamações mensais em 2025, mais do que o dobro do patamar registrado cinco anos antes.
Essa escalada contínua sugere um quadro no qual o problema não é episódico, mas estrutural: ano após ano, mais moradores recorrem ao canal oficial para reclamar do mato alto, da falta de roçada adequada e da sensação de abandono de espaços públicos próximos de suas casas.
A evolução dos tempos de atendimento reforça a percepção de que a zeladoria não acompanha a demanda com a agilidade necessária. Em 2020, o tempo médio de espera para conclusão de uma solicitação de capinação era de 17 dias, um prazo que já está distante da expectativa de resolução rápida para um serviço que, em tese, é de rotina. Esse tempo salta para 27 dias em 2023 e se mantém em níveis altos em 2024 e 2025, com 20 e 21 dias, respectivamente. Em outras palavras, mesmo com o crescimento do uso do sistema e a intensificação das reclamações, o morador de São Paulo continua a esperar cerca de três semanas, em média, para ver o mato dos espaços públicos ao redor de casa finalmente cortado.
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Os casos extremos de demora expõem ainda mais as discrepâncias desse sistema. Em 2025, há casos que levaram até 333 dias para conclusão. Isso indica que, enquanto uma parte dos pedidos é absorvida e resolvida em prazos relativamente razoáveis, outra parcela permanece por meses no sistema, criando bolsões de abandono e alimentando uma sensação de que determinadas regiões da cidade não entram no radar da zeladoria com a mesma prioridade. Esse contraste não é apenas um detalhe estatístico, mas um retrato da desigualdade na prestação do serviço: há quem veja o mato ser cortado em poucas semanas e há quem conviva com o problema por anos.
Ao mesmo tempo, um indicador curioso aponta para uma suposta resposta mais rápida. A proporção de reclamações encerradas em até um dia, que gira em torno de 21% em 2020 e cai para 20% em 2021 e 19% entre 2022 e 2024, sobe para 27% em 2025. Na prática, isso significaria que mais de um quarto dos chamados relacionados à capinação passa a ser resolvido em 24 horas, um desempenho que destoa tanto da média geral de espera quanto dos casos mais demorados.
Contudo, essa aparente agilidade não é motivo para comemorações. O que ocorre por trás dessas reclamações é a prática da prefeitura em “prometer” que o serviço será realizado em uma data futura. Assim, encerrados quase que imediatamente, os serviços entram em uma programação, sem que o cidadão tenha como acompanhar a efetividade dessa tarefa. Ou seja, uma “maquiagem” estatística que somente agrava a transparência sobre um serviço já ineficiente.
Mato alto, escorpiões e doenças: um problema de saúde pública
Embora a capinação e a roçada muitas vezes sejam tratadas como temas de limpeza urbana ou estética, técnicos da área de saúde e vigilância ambiental insistem que se trata de um problema de saúde pública. Terrenos e áreas urbanas com vegetação alta, somados a lixo e entulho descartados irregularmente, criam um ambiente favorável à proliferação de insetos, roedores e animais peçonhentos. Em diferentes cidades paulistas, órgãos de vigilância em saúde têm emitido alertas sobre o aumento da presença de escorpiões em áreas urbanas, associando diretamente esse fenômeno ao mato alto, à presença de baratas e grilos e ao acúmulo de resíduos que servem de abrigo e fonte de alimento para esses animais. Em contextos desse tipo, ruas com sarjetas tomadas por vegetação e praças onde o mato encobre o solo, deixam de ser apenas sinal de falta de cuidado e se transformam em potenciais focos de acidentes, sobretudo em bairros residenciais com grande presença de crianças e idosos.
A lógica é semelhante quando se trata da proliferação de mosquitos. Embora o Aedes aegypti seja mais diretamente associado a recipientes com água parada, estudos e campanhas de saúde reforçam que ambientes com lixo, entulho e vegetação descuidada oferecem múltiplos pontos de acúmulo de água, além de abrigos para outros insetos que se aproveitam da mesma degradação ambiental. Bairros com descarte irregular de resíduos e áreas verdes mal cuidadas tendem a registrar mais casos de doenças transmitidas por mosquitos, como dengue, em função da maior quantidade de criadouros e da menor eficiência de ações de controle. Quando a capinação e a roçada em sarjetas, canteiros centrais e praças falham, o efeito não é apenas um cenário de “mato alto”, mas também um território mais vulnerável a surtos de arboviroses e à presença constante de insetos que incomodam, adoecem e, em casos específicos, podem causar complicações graves.
Estudos sobre terrenos baldios e áreas urbanas degradadas reforçam essa associação entre abandono físico e riscos ambientais. Locais com mato alto, lixo e entulho não só favorecem a proliferação de mosquitos e escorpiões, como também atraem roedores, o que amplia o risco de transmissão de doenças, aumenta o mau cheiro e contribui para a sensação de insegurança entre os moradores. Em cidades onde a fiscalização de terrenos privados e a manutenção de áreas públicas são irregulares, a responsabilidade acaba dividida entre poder público e proprietários, muitas vezes sem coordenação eficaz. Para as famílias que vivem ao redor dessas áreas, porém, pouco importa se o terreno é municipal ou particular: o que se percebe é um ambiente mais sujo, mais perigoso e menos cuidado, o que amplia a pressão sobre os serviços de saúde e aprofunda desigualdades entre bairros.
Nesse contexto, os números da capinação em São Paulo deixam de ser apenas estatísticas de gestão e servem como indicadores de quem está mais exposto a esses riscos. O crescimento contínuo das reclamações, somado à persistência de prazos elevados e casos extremos de demora, sugere um quadro no qual a zeladoria urbana responde de forma desigual ao território. Bairros com maior densidade de áreas verdes sem manutenção adequada, terrenos vazios e histórico de descarte irregular de lixo tendem a sofrer mais com mato alto e a registrar mais ocorrências de insetos, moscas, escorpiões e outros animais indesejados. Sem uma política consistente que integre capinação, fiscalização e vigilância em saúde, o serviço de roçada segue atuando como um remendo: ora chega rápido, ora se perde por meses no sistema, enquanto o mato cresce, os insetos se multiplicam e a população segue à espera de um corte que, para além da aparência da cidade, representa também uma camada de proteção à saúde coletiva.

