quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Brasil se aproxima da Rússia e revê sua política externa

por Maria Gabriela Portugal
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Brasil se aproxima da Rússia e abandona a neutralidade confortável na nova escalada geopolítica sul-americana

A intensificação do diálogo entre Brasil e Rússia, sob o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, marca uma inflexão significativa na política externa brasileira em um cenário de crescente instabilidade regional. A ligação telefônica entre Lula e o presidente russo Vladimir Putin, realizada em 15 de janeiro de 2026, esteve longe de ser um gesto protocolar. O contato ocorreu em meio à escalada da crise venezuelana, agravada por ações diretas dos Estados Unidos, e expõe um cálculo estratégico diante de um contexto no qual a tradicional neutralidade brasileira perde viabilidade.

De acordo com informações oficiais, a conversa, iniciada pelo lado brasileiro e com duração aproximada de 45 minutos, teve como eixo central a defesa da soberania da Venezuela. Lula e Putin criticaram o que classificam como violações do direito internacional e reafirmaram o compromisso de preservar a América do Sul como zona de paz. O diálogo também abriu caminho para a retomada da Comissão Bilateral de Alto Nível Brasil–Rússia, prevista para fevereiro, com agenda voltada à ampliação da cooperação em comércio, energia, defesa, ciência e tecnologia.

Esse movimento ocorre em um ambiente de pressão crescente exercida pelos Estados Unidos sobre a região. A crise venezuelana, marcada por denúncias de ingerência externa, sanções e operações encobertas, evidenciou os limites da estratégia brasileira de equidistância entre grandes potências. Para diplomatas e analistas, manter silêncio ou insistir em neutralidade em um contexto de escalada geopolítica passou a significar, na prática, um alinhamento tácito ao polo hegemônico.

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Nesse cenário, a aproximação com Moscou não representa um alinhamento automático, mas a busca deliberada por contrapesos estratégicos. O governo brasileiro aposta no fortalecimento de fóruns multilaterais, sobretudo o BRICS, como instrumento para ampliar sua autonomia e reduzir vulnerabilidades externas. A lógica é direta: em um mundo cada vez mais polarizado, a multipolaridade deixa de ser apenas um discurso normativo e funciona como mecanismo concreto de proteção contra pressões unilaterais.

Especialistas avaliam que Rússia e China oferecem ao Brasil não apenas respaldo diplomático, mas alternativas reais em comércio, financiamento e cooperação tecnológica. Entretanto, a hesitação motivada pelo temor de retaliações dos EUA contribui para a normalização de intervenções e exceções jurídicas na região. A ausência de reação fortalece a ideia de que a América do Sul permanece sob uma lógica de tutela.

A estratégia de Lula busca preservar o Brasil como potência regional com capacidade de dialogar com todos os polos de poder, mas sem subordinação automática. Ao reforçar a coordenação com Rússia e China, o governo sinaliza que a defesa da soberania regional e do multilateralismo será tratada como prioridade, mesmo ao custo de gerar desconforto em Washington.

O reposicionamento, contudo, não está isento de riscos. A intensificação da rivalidade entre grandes potências reduz o espaço para ambiguidades diplomáticas e tende a impor custos a países que tentam equilibrar relações. Ainda assim, para o Planalto, o custo da inação parece mais elevado. A pressão externa deve crescer independentemente da postura adotada, e a escolha passa a ser entre reagir coordenadamente ou aceitar a erosão gradual da autonomia regional.

Mais do que um episódio isolado, a ligação entre Lula e Putin revela uma mudança estrutural na política internacional brasileira. Em um ambiente marcado por exceções permanentes, sanções e disputas abertas por influência, o Brasil sinaliza que não pretende permanecer como espectador. A aposta na multipolaridade, ancorada no BRICS e em instituições multilaterais, surge como tentativa de redefinir o lugar do país em um sistema internacional cada vez mais instável e imprevisível.

Criado originalmente como um fórum de coordenação econômica entre países emergentes, o BRICS passou a desempenhar um papel muito mais amplo no atual contexto geopolítico. Sanções unilaterais, o uso do dólar como instrumento de coerção, intervenções militares sem mandato multilateral e disputas tecnológicas aceleraram a transformação do bloco em uma plataforma política, diplomática e sistêmica de contenção à hegemonia ocidental.

Hoje, o BRICS funciona como espaço de articulação entre Estados que rejeitam o alinhamento automático e buscam reduzir vulnerabilidades externas. Como contrapeso ao poder dos EUA, o bloco cumpre três funções centrais: oferece blindagem política e diplomática, cria alternativas institucionais por meio de mecanismos como o Novo Banco de Desenvolvimento e impulsiona um processo gradual de desdolarização do comércio internacional.

Com sua expansão e maior presença no Sul Global, o BRICS passou a operar como polo de coordenação entre países da África, Oriente Médio, Ásia e América Latina. Não se trata de uma aliança militar nem de um bloco ideológico rígido, mas de uma estrutura que amplia a margem de manobra de Estados que desejam negociar com múltiplos centros de poder.

Dentro desse arranjo, o Brasil desempenha um papel singular. Diferentemente de Rússia e China, não busca confrontação direta com o Ocidente. Atua como mediador sistêmico, ajudando a legitimar o BRICS como espaço plural e não exclusivamente antiocidental. Ao recorrer ao bloco em momentos de tensão regional, o governo brasileiro sinaliza que a neutralidade isolada tornou-se insuficiente, que a multipolaridade é instrumento de proteção e que o multilateralismo precisa ser sustentado por estruturas reais de poder.

Apesar de seus limites e contradições internas, o BRICS emerge, no atual contexto geopolítico, como infraestrutura política da multipolaridade. Para o Brasil, ele representa uma ferramenta para preservar autonomia estratégica, responder a pressões externas e participar da redefinição das regras do sistema internacional — não como potência subordinada, mas como ator com margem efetiva de escolha.

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