Relatório aponta melhora em 71% dos indicadores monitorados, enquanto a renda média do 1% mais rico é 31,5 vezes superior à dos 50% mais pobres.
O Brasil apresenta avanços no combate à pobreza, no mercado de trabalho e na educação, mas continua enfrentando um problema estrutural: a concentração de renda. O Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades de 2026, elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), mostra que 34 dos 48 indicadores monitorados melhoraram, o equivalente a aproximadamente 71%. Outros oito pioraram e seis permaneceram estáveis.
Os resultados indicam progresso em diferentes áreas sociais, mas também revelam os limites das políticas públicas para reduzir as desigualdades de forma duradoura.
Gastos sociais: Brasil fica abaixo da média da OCDE
Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam que o Brasil destinou mais de 16,5% do Produto Interno Bruto (PIB) a políticas sociais em 2023. A média da organização foi de 21,2% em 2024. Naquele ano, os gastos públicos com proteção social chegaram a 30,6% do PIB na França, 27,9% na Alemanha e 19,8% nos Estados Unidos.
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A comparação exige cautela, pois os dados correspondem a anos diferentes e o Brasil não aparece na tabela internacional citada. Ainda assim, os números evidenciam diferenças no peso dos gastos sociais entre as economias.
O volume de recursos, porém, não determina sozinho os resultados. A cobertura dos programas, a qualidade dos serviços públicos e a distribuição dos benefícios também influenciam a capacidade de reduzir a pobreza.
Emprego e renda apresentam melhora
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa anual de desemprego caiu para 5,6% em 2025, o menor nível da série histórica iniciada em 2012. O rendimento real habitual médio dos trabalhadores chegou a R$ 3.560 mensais, com alta de 5,7% em relação a 2024.
Na educação, os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) também avançaram nas três etapas avaliadas: anos iniciais e finais do ensino fundamental e ensino médio.
Na segurança alimentar, o Brasil voltou a ficar fora do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), conforme o relatório divulgado em 2025. No triênio de 2022 a 2024, a prevalência de subalimentação ficou abaixo de 2,5% da população. Esse indicador não significa, entretanto, que todas as formas de insegurança alimentar tenham sido eliminadas.
Renda dos mais ricos supera em 31,5 vezes a dos mais pobres
O dado mais expressivo do relatório está na distribuição de renda. Em 2025, o rendimento médio mensal real domiciliar per capita do 1% mais rico foi 31,5 vezes superior ao dos 50% mais pobres. Em 2024, a relação era de 30,2 vezes.
A comparação utiliza dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, com elaboração do Dieese. O indicador mede a diferença entre os rendimentos médios por pessoa dos dois grupos, e não diretamente a desigualdade de patrimônio.
O resultado mostra que a melhora do emprego e da renda média não foi acompanhada por uma redução equivalente da distância entre os extremos da distribuição. Embora os avanços sociais possam melhorar as condições de vida, eles não eliminam automaticamente as estruturas que concentram renda e oportunidades.
Salário mínimo continua distante do custo de vida
O salário mínimo passou a R$ 1.621 em janeiro de 2026. Apesar do reajuste, o valor permanece distante da estimativa do Dieese para sustentar uma família de quatro pessoas.
Em setembro de 2026, o departamento calculou o salário mínimo necessário em R$ 7.750,01, aproximadamente 4,78 vezes o piso vigente. A estimativa considera despesas essenciais, como alimentação, moradia, saúde, educação e transporte.
O cálculo é uma referência técnica, não o salário efetivamente recebido pela maioria dos trabalhadores. Ainda assim, evidencia a distância entre o piso legal e o orçamento estimado para atender às necessidades básicas de uma família.
O desafio é transformar avanços em redução da desigualdade
Os indicadores mostram que o Brasil obteve progressos no emprego, na educação e no combate à fome. Entretanto, a diferença de 31,5 vezes entre os rendimentos médios dos mais ricos e dos mais pobres evidencia a persistência de uma desigualdade profunda.
Transferências de renda são importantes para combater a pobreza, mas não bastam, isoladamente, para alterar a distribuição dos rendimentos. Emprego formal, educação de qualidade, produtividade, serviços públicos eficientes e políticas tributárias e econômicas também influenciam esse processo.
O desafio brasileiro não é apenas ampliar a proteção social, mas garantir que os avanços econômicos e sociais se traduzam em oportunidades mais equilibradas e melhorias duradouras para a população.
Fontes: Observatório Brasileiro das Desigualdades — Relatório 2026, IBGE, OCDE, Inep e FAO.

